Sem ter o que fazer numa manhã de domingo, pus-me a pensar na minha infância distante, na doce Cuiabá.
Tudo era simples e exalava poesia naquela casa modesta da rua do Campo.
Escrevo agora como quem assiste a um filme comum: estender a toalha ainda úmida na varanda para secar.
O sol já batia direto.
Pendurei-a com dois prendedores e ajeitei bem o tecido.
Ela ficou balançando um pouco com o vento.
Voltei para dentro e deixei a porta aberta.
De tempos em tempos, olhava para ver se já havia secado.
A toalha cumpria sua parte.
O resto ficava por conta do sol cuiabano e do vento.
Naquele tempo ainda não existiam empresas de lavanderia.
O serviço era feito em bacias de alumínio, com água tirada do poço do quintal.
Depois de seca na varanda, a toalha era passada no quartinho ao lado da cozinha, com ferro em brasa.
Com a família aumentando e a situação financeira do meu pai melhorando, minha mãe terceirizou a lavagem das roupas para as famosas passadeiras e engomadeiras do bairro do Baú.
O tanque do Baú atendia as lavadeiras da região.
Quantas boas recordações nos trazem esses domingos de solidão!
A casa cheia da infância foi se esvaziando com o tempo.
E chegamos sozinhos à velhice.
Já não moramos mais em casas com varanda para estender toalhas ao sol.
No apartamento, o quarto por onde entra a claridade é proibido para esse fim, por normas do condomínio.
Penso no que passa pela cabeça da minha bisneta de dois anos, esquiando na Suíça.
Que recordação ela guardará desse passeio quando tiver a minha idade?
O mundo em que nasci e fui criado era tão pequeno, que se resumia ao antigo Centro Histórico de Cuiabá: as praças da República e Alencastro, as ruas de Baixo, do Meio, de Cima e do Campo.
Tudo passou depressa demais.
E hoje, com mais de noventa anos, sigo vivendo de lembranças — como quem ainda estende, em pensamento, uma toalha na varanda da memória, esperando que o tempo a seque com cuidado.
Gabriel Novis Neves
26-01-2026
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