Dizer “com licença” não abre só passagem física.
Revela respeito, educação e um tempo em que as pessoas se olhavam mais.
Pedir licença era mais do que um gesto educado.
Era um modo de reconhecer o outro, de avisar a presença, de não invadir.
Aprendi isso cedo, observando os mais velhos, que pediam licença até para atravessar uma conversa ou passar entre duas pessoas sentadas.
A palavra vinha acompanhada de um leve sorriso, um aceno de cabeça, às vezes até de um pedido de desculpa antecipado.
Ninguém se sentia menor por pedir licença.
Ao contrário, quem pedia se engrandecia.
Era assim que a convivência se tornava mais leve, mais humana, mais respeitosa.
Nas casas antigas, pedir licença fazia parte do cotidiano.
Para entrar em um quarto, para abrir uma porta encostada, para interromper um diálogo.
Mesmo entre familiares o costume era mantido.
Era uma forma silenciosa de dizer: “eu te vejo”, “eu te respeito”, “não cheguei impondo”.
As crianças aprendiam pelo exemplo, repetindo o gesto com naturalidade, sem perceber que estavam sendo educadas para a vida.
Com o tempo, o costume foi se perdendo.
Hoje as pessoas chegam falando alto, atravessam espaços alheios, interrompem conversas como se tudo lhes fosse devido.
O pedir licença parece ter sido substituído pela pressa, pela urgência, pela falsa ideia de que o mundo pertence a quem fala mais alto.
Perdemos a delicadeza dos pequenos gestos, achando que eles não fazem falta.
Sinto falta desse hábito simples.
Pedir licença não atrasa ninguém.
Não diminui quem pede.
Não fragiliza.
Ao contrário, organiza a convivência e suaviza os encontros.
É um gesto que cabe em qualquer idade e em qualquer tempo.
Continuo pedindo licença.
Ao passar, ao falar, ao entrar.
Mesmo quando ninguém mais pede.
Faço isso por respeito ao outro — e também por respeito à minha própria história
Gabriel Novis Neves
11-01-2026
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