sábado, 23 de maio de 2026

ALMOÇOS SEM HORA PARA ACABAR


Há almoços que terminam depressa, quase por obrigação.

 

E há aqueles que se prolongam naturalmente, porque ninguém deseja deixar a mesa.

 

Nos feriados e fins de semana isso acontecia com mais facilidade.

 

A comida já havia sido servida, os pratos esfriaram devagar, mas a conversa continuava viva.

 

Um assunto puxava outro.

 

Uma lembrança chamava outra.

 

E, sem percebemos, a mesa deixava de ser apenas lugar de comer: transformava-se em abrigo de família.

 

Agora, na velhice, observo melhor os almoços familiares.

 

Sou quase sempre o primeiro a levantar para a soneca estatutária.

 

Do dormitório ainda escuto o barulho bom dos filhos, netos e bisnetos reunidos em volta da mesa.

 

Depois do breve descanso, volto à sala e encontro a mesma cena: a mesa ainda ocupada, as conversas correndo soltas, as risadas misturadas às lembranças.

 

São nesses momentos que percebo como esse antigo hábito de reunir a família aos fins de semana vai desaparecendo aos poucos.

 

As desculpas são muitas.

 

A correria da vida moderna parece engolir os encontros familiares.

 

Antigamente, chegava-se cedo ao almoço.

 

Havia tempo para conversar antes da comida, comer um pastel, beliscar um aperitivo e colocar a conversa em dia.

 

Hoje, muitos chegam apressados, alguns quando a refeição já começou.

 

E o almoço, às vezes, termina tão rápido, que mais parece um lanche de esquina!

 

Nas famílias antigas, especialmente em Cuiabá, os almoços não tinham hora para acabar.

 

Quando o ambiente era alegre, o almoço atravessava a tarde e, não raro, emendava com o jantar.

 

E como era bom permanecer ali, entre conversas, brincadeiras e afetos silenciosos.

 

Talvez a felicidade morasse justamente nisso: numa mesa cheia e sem pressa de terminar.

 

Gabriel Novis Neves

14-05-2026




quinta-feira, 21 de maio de 2026

RELÓGIO QUE ATRASA, NÃO ADIANTA. RELÓGIO QUE ADIANTA NÃO É CERTO TAMBÉM


Toda família parecia possuir um relógio teimoso.

 

Alguns atrasavam, outros adiantavam sem explicação.

 

Mesmo assim, ninguém pensava em jogá-los fora.

 

Acertava-se o horário de vez em quando, e a vida seguia.

 

Aqueles relógios antigos faziam parte da rotina da casa, marcando as refeições, as novelas, os horários escolares e as visitas.

 

Hoje os celulares oferecem a hora exata em qualquer lugar.

 

Mas os antigos relógios domésticos tinham personalidade própria, quase como membros silenciosos da família.

 

As casas de antigamente eram construídas de adobes, quase sempre coladas umas às outras, permitindo que os vizinhos ouvissem os sons vindos da casa ao lado.

 

A varanda da minha casa era separada da vizinha apenas por uma parede de adobe.

 

De lá ouvíamos a tosse do seo Alfredão, as conversas em voz alta e o relógio marcando as horas.

 

Ficava pendurado na varanda, com grande mostrador e um pêndulo dourado anunciando o tempo.

 

As badaladas chegavam perfeitamente até à nossa casa.

 

Lá em casa havia um relógio menor e redondo, que sempre adiantava.

 

Era rebelde às horas e também aos consertos dos relojoeiros de Cuiabá.

 

Mesmo assim, ninguém cogitava desfazer-se dele.

 

Com o passar dos anos, os velhos relógios acabaram transformados em peças de decoração daqueles antigos casarões.

 

Tudo nas casas de outrora desperta saudade: as cadeiras de balanço, as redes da sesta, as cortinas claras separando os cômodos, a cozinha de fogão a lenha com forno de barro.

 

Era a arquitetura das casas cuiabanas da primeira metade do século passado.

 

As lembranças da infância permanecem duradouras, quase imortais, como o relógio que adiantava sozinho numa época em que ainda não existia tanta pressa.

 

Poucos tinham automóvel e, caminhando pelas calçadas, ouvíamos as badaladas dos relógios domésticos.

 

Quem morava perto da Catedral guiava-se pelo seu grande relógio, que determinava a hora de acordar, ir à missa, ao colégio, almoçar e dormir.

 

Tudo isso fazia parte da vida dos moradores do Centro Histórico e da emblemática rua de Baixo.

 

Foi ali que nasci, cresci e parti para a vida, até me transformar em cronista do cotidiano.

 

No fundo, talvez eu continue ouvindo, dentro de mim, o velho relógio da infância marcando lentamente o tempo da saudade.

 

Gabriel Novis Neves

20-05-2026




quarta-feira, 20 de maio de 2026

AROMAS DE UMA VIDA INTEIRA

 

Poucas coisas davam tanta sensação de casa arrumada quanto abrir um sabonete novo no banheiro.

 

O perfume se espalhava discretamente e anunciava cuidado doméstico.

 

Algumas famílias guardavam sabonetes mais perfumados para dias especiais ou para a chegada das visitas.  

 

Havia também quem colocasse as caixinhas vazias dentro das gavetas, apenas para perfumar as roupas.

 

Pequenos hábitos simples davam personalidade as casas.

 

E certos cheiros permanecem vivos na memória durante décadas.

 

Minha mãe tinha o hábito de manter a casa sempre limpa, arejada e organizada, tudo feito com economia e zelo.

 

Muito cedo ela me ensinou que sabonete nunca acabava.

 

Quando a barra ficava pequena, era colada em outra nova, e assim sucessivamente.

 

Também guardava as embalagens perfumadas nas gavetas dos armários.

 

São perfumes que atravessam o tempo e permanecem guardados nas lembranças.

 

Minha mãe arrumava a casa de um jeito tão especial que, ainda da rua, já sabíamos que estávamos chegando perto de casa.

 

Tudo era feito com a ajuda dos filhos mais velhos, numa colaboração silenciosa e natural.

 

Quando fui estudar Medicina no Rio de Janeiro, conheci outros cheiros inesquecíveis.

 

Impossível esquecer o aroma das Lojas Sears, na Praia de Botafogo.

 

A refrigeração central, as escadas rolantes, os restaurantes, as lanchonetes, os cinemas e as lojas de departamentos criavam um ambiente moderno e perfumado, muito diferente da Cuiabá daquele tempo.

 

Em 1952 havia duas grandes novidades no Rio: o Estádio do Maracanã e as Lojas Sears.

 

Mais tarde, os sabonetes em barra começaram a desaparecer dos banheiros públicos, substituídos pelos sabonetes líquidos em recipientes presos à parede, considerados mais higiênicos e econômicos.

 

Todas as crônicas que escrevo acabam me levando de volta aos ensinamentos de minha mãe.

 

Ela foi a grande mestra da minha vida, até mesmo naquele inocente sabonete que, em suas mãos, parecia nunca ter fim.

 

Gabriel Novis Neves

16-05-2026



terça-feira, 19 de maio de 2026

VISITAS AMIGAS


Antigamente as visitas não tinham tanta pressa de ir embora.

 

Muitas vezes chegavam para passar a tarde e acabavam dormindo.

 

Armavam-se camas improvisadas, surgiam colchões pela sala e a conversa atravessava a noite.

 

As crianças adoravam a novidade.

 

Havia menos conforto material, mas sobrava naturalidade na convivência.

 

Hoje, quase tudo precisa ser combinado com antecedência.

 

A espontaneidade das antigas visitas parece ter desaparecido junto com certas liberdades da vida doméstica.

 

Dormir na casa do vizinho era um costume daquele tempo.

 

Os hábitos antigos, com a modernidade e o passar dos anos, foram desaparecendo.

 

Da minha geração, não conheço ninguém que não tenha experimentado aquelas pequenas liberdades da convivência familiar.

 

Curioso é perceber que as crianças não eram ensinadas a dormir fora de casa.

 

Descobriram isso por pura intuição, como se a amizade naturalmente prolongasse o dia até a noite.

 

E muitos adultos também gostavam daquela informalidade, dormindo no chão, sobre colchões improvisados, em meio às conversas e risadas.

 

Minha mãe recebia muitas visitas.

 

Tinha amigas espalhadas pelos bairros de Cuiabá, numa verdadeira comunhão de afeto e carinho.

 

Nunca deixava uma visita sem resposta.

 

Estava sempre indo reencontrar amigas, quase sempre acompanhada dos filhos mais velhos.

 

Foi assim que aprendi a conhecer os costumes dos antigos cuiabanos e a importância de uma conversa sem pressa.

 

Nessas visitas, a dona da casa preparava sucos com frutas do quintal, oferecia guloseimas guardadas em latas de alumínio, ou fritava, na hora os inesquecíveis sonhos da minha infância.

 

Era gostoso ser criança naquele tempo, quando a cidade, com suas ruas, becos, praças, córregos, morros e jardins, parecia um grande parque de diversões.

 

Os quintalões arborizados sombreavam generosamente as ruas, refrescando a velha Cuiabá.

 

A Cuiabá de trezentos anos, aquela da minha infância, foi aos poucos se afastando.

 

Muitos moradores deixaram os antigos bairros e seguiram para condomínios modernos e fechados, onde, muitas vezes, os vizinhos mal se conhecem.

 

Talvez por isso as visitas já não durmam mais em casa.

 

Porque certas intimidades também desapareceram com o tempo.

 

Gabriel Novis Neves

15-05-2026





PALETÓ GUARDADO


Houve um tempo em que muitos homens possuíam apenas um bom paletó.

 

Ficava protegido no guarda-roupa e só saía em casamentos, missas, aniversários ou fotografias da família.

 

Vestir aquele paletó mudava até o comportamento da pessoa.

 

Os sapatos eram engraxados, o cabelo penteado com cuidado e a postura ficava mais séria.

 

Hoje as roupas se multiplicaram e a formalidade diminuiu.

 

Mas aquele velho paletó carregava um respeito silencioso pelos acontecimentos da vida.

 

Na minha infância, era fácil identificar quando um homem estava indo para alguma solenidade importante.

 

O paletó bem escovado, a gravata apertada no colarinho e o perfume forte anunciavam que aquele dia não era comum.

 

Muitos pais de família trabalhavam o ano inteiro usando roupas simples, às vezes já gastas pelo serviço pesado, mas guardavam com enorme cuidado o ‘paletó de sair. ’

 

Ele quase nunca era lavado, para não perder o corte nem o brilho do tecido.

 

Ficava pendurado no armário, protegido por capas improvisadas, como se fosse uma peça valiosa da casa.

 

Quando chegava a ocasião especial, havia uma pequena cerimônia doméstica.

 

A mãe ajudava a escovar a roupa, os filhos observavam em silêncio e o homem parecia se transformar diante do espelho.

 

O paletó dava ao seu dono uma aparência de importância, mesmo que a vida fosse simples e apertada.

 

Hoje quase ninguém conserva esse ritual.

 

As roupas ficaram mais informais, as cerimônias mais leves e os guarda-roupas mais cheios.

 

Mas confesso que ainda sinto certa emoção ao ver um velho paletó bem cuidado.

 

Ele me fez lembrar um tempo em que as pessoas talvez possuíssem menos coisas, porém davam mais valor aos momentos importantes da vida.

 

Gabriel Novis Neves

13-05-2026




domingo, 17 de maio de 2026

BANHO DE CHUVA NAS RUAS DE CUIABÁ


Na minha infância, a chuva não era motivo para recolhimento dentro de casa.

 

Era convite para a rua.

 

Bastava o céu escurecer e os primeiros pingos baterem no chão quente para que as crianças se agitassem.

 

O cheiro da terra molhada subia como um perfume forte, anunciando que a tarde seria diferente.

 

As ruas de Cuiabá ainda eram de terra batida.

 

Quando chovia, formavam-se pequenas poças que pareciam lagos para nossa imaginação.

 

Minha mãe reclamava.

 

Dizia que eu voltaria todo sujo.

 

Voltava mesmo.

 

Mas voltava feliz.

 

A chuva lavava o calor da cidade e também a pressa da infância.

 

Corríamos descalços pela rua.

 

Alguns improvisavam barquinhos de papel.

 

Outros apenas pisavam nas poças, espalhando água para todos os lados.

 

Ninguém pensava em gripe ou resfriado.

 

A preocupação das crianças era apenas aproveitar aquele momento raro em que o céu participava da brincadeira.

 

As casas tinham quintais grandes.

 

As mangueiras e goiabeiras recebiam a água da chuva como uma bênção.

 

A enxurrada corria pela sarjeta levando folhas, gravetos e pequenas aventuras.

 

A chuva terminava quase sempre do mesmo jeito.

 

O sol voltava de repente.

 

O chão começava a secar.

 

E as mães apareciam nos portões chamando os filhos.

 

Voltávamos para casa com a roupa molhada e os pés sujos de barro.

 

Mas com o coração leve.

 

Hoje as crianças quase não conhecem esse tipo de liberdade.

 

As ruas são asfaltadas.

 

Os carros passam depressa.

 

E a chuva virou apenas um transtorno para o trânsito.

 

Quando sinto o cheiro da terra molhada, ainda me lembro daquelas tardes.

 

E penso que algumas das melhores alegrias da vida vieram simplesmente de um banho de chuva.

 

Gabriel Novis Neves

05-03-2026







sábado, 16 de maio de 2026

DESPERTAR SEMPRE FELIZ


Com o passar dos anos, acordar ganha um significado diferente.

 

Na juventude levantar da cama era apenas o começo de mais um dia cheio de compromissos.

 

Não havia reflexão.

 

A vida corria com pressa.

 

O tempo parecia infinito.

 

Hoje percebo que cada manhã traz um pequeno milagre silencioso.

 

Abrir os olhos e perceber que o dia começou novamente é uma forma simples de gratidão.

 

Nada extraordinário acontece.

 

A casa ainda está quieta.

 

A luz da manhã entra devagar pela janela.

 

O corpo desperta com mais calma do que antigamente.

 

Os primeiros sons da casa surgem lentamente.

 

Um passo no corredor.

 

O barulho de uma xícara.

 

O café sendo preparado.

 

A vida começa novamente sem cerimônia.

 

Na juventude buscamos grandes acontecimentos.

 

Sonhamos com conquistas, viagens e projetos.

 

Na maturidade descobrimos outra forma de alegria.

 

A tranquilidade de simplesmente continuar vivendo.

 

Acordar cedo já não significa pressa.

 

Significa oportunidade.

 

Mais um dia para conversar.

 

Mais um dia para lembrar.

 

Mais um dia para escrever.

 

O tempo ensina que nem todos tiveram esse privilégio.

 

Muitos ficaram pelo caminho.

 

Por isso cada manhã merece ser recebida com respeito.

 

Não é necessário fazer grandes planos.

 

Às vezes basta abrir a janela, sentir o ar da manhã e perceber que a vida continua.

 

Essa talvez seja uma das maiores conquistas da maturidade:

 

descobrir a alegria silenciosa de acordar mais um dia.

 

Gabriel Novis Neves

05-03-2026




sexta-feira, 15 de maio de 2026

FERIADOS


Quando o feriado cai no meio da semana ele quebra o ritmo dos dias.

 

A segunda parece sexta, a quarta parece domingo, e ninguém sabe muito bem onde está no calendário.

 

É como se a semana ficasse partida ao meio.

 

Para alguns, isso atrapalha.

 

Para outros, é uma bênção.

 

O certo é que um feriado no meio da semana muda até o humor das pessoas.

 

Há quem prefira ‘enterrar’ a semana e aproveitar a vida em passeios, viagens curtas e pousadas.

 

Já aqueles que dependem do trabalho diário para sobreviver não respeitam feriados, muito menos os do meio da semana.

 

Para eles, a vida é um estirão contínuo, enquanto a saúde permite.

 

No período escolar o feriado no meio da semana costuma ser mais valorizado.

 

A pausa ajuda a colocar em dia a matéria atrasada.

 

Há crianças que aprendem as lições com mais facilidade do que outras.

 

Para estas, o descanso vira lazer.

 

Para as famílias que cozinham em casa, porém, o feriado às vezes cria pequenos transtornos.

 

Filhos e netos se afastam do convívio familiar, aproveitando a folga para outros compromissos.

 

É quando fico apenas com a cuidadora e o silêncio do apartamento.

 

O Dia das Mães, comemorado sempre no segundo domingo de maio, aqui em casa passou a ser celebrado no sábado anterior.

 

É quando a cozinha funciona a todo o vapor, e todos os lugares da mesa ficam ocupados.

 

As crianças e suas amiguinhas espalham-se pela casa, produzindo aquele ruído gostoso que só a família reunida consegue criar.

 

Meu genro, que faz aniversário no dia oito, também comemora sua data no almoço de sábado, com direito ao ‘Parabéns pra Você’, ao tradicional ‘com quem será’ ao apagar as velinhas, sob aplausos, abraços e beijos de todos.

 

No tempo da Regina, os almoços aconteciam aos sábados e domingos, e a sobremesa, preparada na véspera, era do seu caderno de receitas.

 

Regina preservava a família, como quem cuida de um jardim.

 

Gostava de ver filhos e netos reunidos, mesmo quando o feriado caía no meio da semana.

 

Quando eu me encontrar com ela, talvez esse costume despareça.

 

Os filhos seguirão a tradição em suas próprias casas.

 

E a vida continuará seu caminho, levando adiante o calor das mesas que um dia ela ajudou a reunir.

 

Gabriel Novis Neves

09-05-2026





quinta-feira, 14 de maio de 2026

PESO DAS DÚVIDAS


Ainda sentado na cama fiz uma série de perguntas a pessoas e a assuntos diferentes.

 

Tenho mais dúvidas do que certezas.

 

Queria saber do advogado que cuida das questões referentes à universidade quando irei receber parte do meu salário de dezembro, que ficou inscrita em restos a pagar.

 

Também gostaria de ter notícias dos 28,85% retirados dos salários dos antigos professores, cujo processo, há trinta anos, já percorreu todas as instâncias superiores da Justiça do nosso país, sendo aprovado em todas elas.

 

A gerente de um banco privado disse que pediria um novo cartão de crédito para mim.

 

Outra, também de banco privado, informou que o meu novo cartão veio com defeito e que providenciaria outro.

 

Sou isento de pagar imposto de renda nas instituições às quais que tenho vínculo, em razão de uma cirurgia cardíaca realizada anos atrás.

 

Neste ano, um Ministério enviou à Receita Federal, de forma equivocada, o Informe de Rendimentos, esquecendo-se que sou isento do pagamento do imposto, em razão da cirurgia que fiz no coração.

 

São tantas as dúvidas que me cercam, e tantas preocupações que me atormentam, que sozinho já não sei mais o que fazer.

 

Gostaria de viver estes últimos anos como viveu meu pai: com o sentimento sereno do dever cumprido.

 

Continuo lutando pelos meus direitos, pois não tenho corretor nem empresário.

 

Não possuo fortunas, mas procuro estar sempre atento àquilo que conquistei.

 

Lembro-me do avô da minha mulher, que tinha um corretor no banco, responsável por sua vida financeira.

 

Até consultas médicas ele pagava por via bancária, assim como a sua declaração de imposto de renda.

 

Levava uma vida calma, serena, sem nenhum tipo de preocupação.

 

Sempre o invejei por isso, ainda mais agora, beirando os noventa e um anos.

 

Hoje tenho mais dúvidas e preocupações do que quando era jovem e podia me deslocar para resolver os problemas pessoalmente, e não à distância, como agora.

 

Enfim, é isso.

 

No fim da vida, o que mais pesa não é a falta de resposta — é o cansaço de continuar perguntando.

 

Gabriel Novis Neves

03-04-2026




quarta-feira, 13 de maio de 2026

CALENDÁRIOS MARCAM GERAÇÕES


Durante muitos anos o calendário pendurado na parede era consultado com atenção.

 

Ali estavam marcados os feriados, os dias santos, os aniversários, os vencimentos das contas e os compromissos da família.

 

Cada mês virado era quase uma pequena cerimônia doméstica.

 

Hoje os celulares avisam tudo.

 

Mas o velho calendário de parede tinha uma poesia própria, especialmente quando se descobria, com alegria antecipada, um feriado chegando.

 

Conservo o meu na parede do escritório, lugar onde permaneço por mais tempo.

 

Era uma verdadeira agenda, com seus próprios encantos visuais.

 

As lojas comerciais, com a modernidade, deixaram de brindar seus clientes com aqueles utilíssimos calendários de parede, substituídos por agendas de mesa, de gaveta e, depois, pelos aparelhos eletrônicos.

 

As cuidadoras gostaram dessa invencionice, pois ali anotam os pagamentos que uma casa exige.

 

Hoje, dia de muitas contas, observei a destreza da cuidadora-chefe conferindo as anotações da agenda com o auxílio do celular.

 

O paisagista que cuida do meu jardim enviou-me uma mensagem confirmando que virá no primeiro horário.

 

A cuidadora-chefe não estará aqui para fazer o PIX, mas me tranquilizou: a próxima plantonista está habilitada nessa moderna tecnologia.

 

Menos mal.

 

Quando o paisagista ainda era chamado de jardineiro, o calendário de parede tinha também essa missão: lembrar, com antecedência, a data da sua visita.

 

Os religiosos eram cuidadosos na confecção dos seus calendários, sempre muito disputados e recebidos como sinais de fé.

 

Minha mãe os adquiria com antecedência na gráfica do Seminário Episcopal.

 

Minha irmã Ylcléa, até há pouco tempo, sempre me presenteava no Natal com um calendário religioso.

 

De uns anos para cá, deixou de fazê-lo.

 

Não perguntei o motivo, nem ela me explicou.

 

Assim, as tradições vão desaparecendo da parede do meu escritório.

 

Desaparecem como as folhas de ramos, os presépios dos casarões e tantos pequenos costumes da velha Cuiabá.

 

Ficamos mais ricos em tecnologia.

 

E um pouco mais pobres de encantamento.

 

Gabriel Novis Neves

06-05-2026




terça-feira, 12 de maio de 2026

GERÊNCIA DA CASA


Nada é mais complicado para um idoso do que cuidar, sozinho, do espaço onde mora.

 

Cito o meu exemplo.

 

Tenho três funcionárias fixas, sendo duas cuidadoras.

 

Um escritório de contabilidade acompanha toda a legislação trabalhista: boleto mensal, férias, décimo terceiro salário e eSocial.

 

Há também o Carnê-Leão mensal.

 

Pago o boleto mensal da Imobiliária que administra o aluguel de meus apartamentos.

 

Ainda pago os honorários mensais do escritório de contabilidade, inclusive para a elaboração do meu Imposto de Renda junto à Receita Federal.

 

O IPTU do apartamento onde moro vem em oito prestações.

 

Há a taxa mensal do condomínio.

 

Pago o paisagista, responsável pela manutenção do jardim da cobertura, que exige cuidados constantes.

 

Pago semanalmente a faxineira.

 

Há ainda o fisioterapeuta domiciliar, a lavanderia, o mercado, a farmácia, a energia elétrica, o Instituto dos Cegos e a Academia de Medicina.

 

Somam-se a isso os cuidados mensais com a saúde, com exames laboratoriais e imunoinfusões no hospital, além da manutenção do apartamento e de seus equipamentos.

 

Se eu não estivesse com a memória em ordem, não conseguiria dar conta de tantas obrigações.

 

Movimento-me entre três bancos comerciais e preciso estar atento aos extratos, às senhas, bem como à renovação de cartões de crédito e débito.

 

No início de julho, pedirei aos gerentes a prova de vida, exigida pelas fontes pagadoras, para provar que continuo vivo.

 

Com o avançar da idade, temo vir a adquirir alguma doença que me invalide para essas tarefas.

 

Pensando nisso, distribui aos meus três filhos a declaração dou meus bens.

 

Isso haverá de facilitar muito o trabalho deles, sobretudo porque, do jeito que minha saúde vai, não considero impossível alcançar o centenário.

 

Sou muito cuidadoso com a alimentação.

 

Não fumo, não bebo álcool e só saio de casa em cadeira de rodas, uma vez por mês.

 

Bala perdida não me encontrará.

 

E, contra as quedas, sigo sempre amparado por um braço amigo.

 

No fim de tudo, administrar a própria vida também é uma forma de coragem.

 

Gabriel Novis Neves

17-04-2026




CADA BISNETO TRAZ UM MUNDO DIFERENTE


Na mesma família, os bisnetos podem crescer em ambientes diversos, estudar em escolas diferentes, falar outros idiomas, viajar mais cedo e usar tecnologias impensáveis para seus avós.

 

Ainda assim, quando se aproximam, alguma coisa os une ao tronco antigo de onde vieram.

 

Cada bisneto traz um mundo diferente dentro de si, mas também carrega um traço invisível da família.

 

É bonito observar como o novo e o antigo se encontram sem briga, apenas convivendo.

 

Tenho essa sensação quando o bisneto nascido e criado Além-Atlântico vem passar as férias em Cuiabá.

 

Ele passa muito tempo distante, mas, quando se encontra com os primos, é como se a separação nunca tivesse existido.

 

Logo começam as brincadeiras comuns a todas as crianças, e o idioma da infância os aproxima com naturalidade.

 

Cada criança traz consigo o seu mundo, e é nele que vai aprendendo a viver.

 

Isso não impede que se adapte à crianças de outras partes do universo, com outras culturas, costumes e línguas diferentes.

 

E isso me encanta nelas!

 

São muito diferentes dos adultos, que, às vezes, mesmo dentro de um mesmo país, encontram dificuldades de relacionamento.

 

Os traços de família que netos e bisnetos carregam os unem de maneira forte e misteriosa.

 

Sem isso, seriam apenas ilustres desconhecidos ligados por traços genéticos.

 

Aliás, segundo a história, a humanidade veio de um mesmo tronco.

 

As guerras, os interesses e as vaidades foram separando os homens, o que não deveria acontecer dentro das famílias.

 

Embora os bisnetos sejam de mundos diferentes, trazem, invisíveis dentro de si, sinais de uma mesma origem.

 

E isso, na maioria das vezes, os mantém unidos.

 

Família significa união, embora, como toda a regra, também tenha suas exceções.

 

Assim como é lindo ver um bisneto brincando com outro bisneto, é doloroso imaginar um irmão morrendo sem falar com o outro.

 

Esse é um dos momentos mais tristes da instituição familiar.

 

São desastres silenciosos, rupturas dolorosas de troncos antigos que deveriam continuar florescendo.

 

Por isso, quando vejo meus bisnetos brincando juntos, vindos de mundos diferentes, sinto que a família ainda cumpre sua missão mais bonita.

 

A de lembrar que ninguém nasce sozinho.

 

Todos viemos de alguém.

 

E, enquanto houver uma criança chamando outra para brincar, ainda haverá esperança de união no coração da família.

 

Gabriel Novis Neves

28-04-2026