quarta-feira, 8 de julho de 2026

RECEBENDO A ENCOMENDA


Quando alguém chegava trazendo um pacote ou uma pequena encomenda, a curiosidade tomava conta da casa.

 

Muitas vezes eram lembranças enviadas por parentes distantes ou produtos difíceis de encontrar.

 

Antes mesmo de abrir o embrulho, a imaginação já fazia seu trabalho.

 

O maior valor quase nunca estava no presente, mas no carinho de quem se lembrou de enviar.

 

Sou do tempo em que era comum receber pacotes e pequenas lembranças de familiares que moravam longe.

 

Cada encomenda parecia diminuir a distância e aproximar as pessoas.

 

O objeto tinha seu valor, mas era o gesto que realmente emocionava.

 

No dia do meu aniversário, os telegramas que recebia eram colocados sobre a minha cama, ao lado dos presentes.

 

As visitas os liam e, de certa forma, compartilhavam comigo a alegria de ser lembrado.

 

Recordo-me de um episódio muito especial.

 

Meu avô viajaria justamente na época do meu aniversário e, antes de partir, perguntou-me:

 

— Você prefere receber agora o presente perfumado, em dinheiro, ou um bonito telegrama para chegar no dia do aniversário?

 

Respondi sem hesitar:

 

— Os dois.

 

Saí da casa dele com o dinheiro no bolso e, no dia do aniversário, recebi o esperado telegrama.

 

Com o tempo compreendi que o dinheiro logo era gasto, mas as palavras carinhosas permaneciam guardadas na memória e no coração.

 

Durante os anos em que estudei Medicina no Rio de Janeiro, nunca voltava a Cuiabá sem levar uma pequena lembrança para os meus pais.

 

Mais tarde entendi que o melhor presente não era o que eu carregava nas mãos, mas a minha própria presença ao lado deles.

 

Certa vez ofereci ao meu pai um belo chaveiro de ouro, preso a um grosso cordão, presente que havia recebido de uma paciente agradecida. Ele agradeceu com carinho, guardou-o no cofre do quarto e jamais o utilizou.

 

O objeto pouco lhe importava.

 

O que realmente o emocionava era o gesto do filho.

 

Hoje, olhando para trás, percebo que os maiores presentes da vida nunca vieram embrulhados.

 

Foram os abraços, os reencontros, as palavras de afeto e o privilégio de estar presente na vida daquele que amamos.

 

Dar e receber carinho continua sendo a mais valiosa das lembranças.

 

Às vezes, um abraço silencioso vale mais do que qualquer encomenda.

 

Gabriel Novis Neves

05-07-2026






terça-feira, 7 de julho de 2026

SAPATOS NOVOS


Receber um par de sapatos novos era um acontecimento importante.

 

Muitas vezes isso acontecia apenas no início das aulas ou em alguma data especial.

 

O brilho do couro, o cuidado para não riscar a sola e o orgulho de estreá-los transformavam aquele simples objeto em motivo de grande felicidade.

 

Os antigos aprendiam desde cedo a cuidar do que possuíam, valorizando cada conquista, por menor que fosse.

 

Meus sapatos eram sempre escolhidos por meu pai.

 

Era uma tarefa da qual ele jamais abria mão e que costumava cumprir após a sesta.

 

Íamos até a Casa Athayde, no início da rua 13 de junho, ao lado da farmácia do seu Vieira.

 

Éramos atendidos pelo próprio proprietário, no setor de calçados.

 

Meu pai escolhia o modelo e pedia ao seu Palma que trouxesse um número sempre maior que o do meu pé.

 

Justificava que eu crescia depressa e que meus pés pareciam crescer ainda mais rápido.

 

No início de cada ano letivo comprava um único par de sapatos.

 

Nas férias do meio do ano, levava-os ao sapateiro para colocar meia-sola e reforçar os calcanhares.

 

Para mim, o sapato era um instrumento de trabalho: acompanhava-me diariamente na escola.

 

Hoje os tênis dominam o mercado, enquanto os sapatos de couro ficaram reservados para ocasiões especiais.

 

Ao escrever sobre meu primeiro par de sapatos novos, recordo também como meu pai me ensinava tantas outras lições da vida.

 

Levava-me para comprar roupas, cortar o cabelo no barbeiro e visitar o alfaiate que confeccionava o uniforme do colégio dos padres, quando eu tinha onze anos.

 

Minha mãe cuidava da educação, da saúde e da organização da casa.

 

Meu pai preparava os filhos para a vida prática.

 

Assim, juntos, criaram nove filhos — cinco mulheres e quatro homens — cada um seguindo seu próprio caminho, sempre sustentado pelos valores aprendidos dentro de casa.

 

Não me lembro de ter recebido sapatos de presente de aniversário.

 

Talvez porque, para meu pai, mais importante do que presentear era ensinar a caminhar.

 

Gabriel Novis Neves

27-06-2026




CADEIRAS NA CALÇADA


Quase toda casa possuía um banco ou algumas cadeiras na calçada.

 

Ali os moradores conversavam ao cair da tarde, cumprimentavam os vizinhos e acompanhavam o movimento da rua.

 

Era um espaço simples, mas cheio de convivência.

 

Antes que os portões altos e os muros fechassem as casas, aquele banco aproximava as pessoas e transformava vizinhos em verdadeiros amigos.

 

Foi assim, ainda menino, que conheci pessoas importantes da história de Cuiabá.

 

As cadeiras na porta das casas eram um costume das famílias cuiabanas.

 

Depois do jantar, todos se reuniam para conversar com os vizinhos e cumprimentar quem passava pela calçada.

 

A boa prosa logo surgia.

 

Não demoravam a aparecer o café passado na hora, o bolo caseiro e as risadas.

 

Até o calor parecia perder a força diante da alegria daqueles encontros.

 

As cadeiras da calçada transformavam-se num verdadeiro ponto de encontro da vizinhança.

 

Eu me sentava no batente da porta e ouvia, com curiosidade e atenção, a conversa dos adultos.

 

Era o grande jornal falado da cidade.

 

Naquele tempo era comum ouvir histórias de donzelas que fugiam de casa para se casar, despertando comentários sobre a coragem de jovens apaixonados.

 

Também circulavam notícias da gravidez da empregada que morava com a família, assunto que alimentava a inevitável bisbilhotice daqueles encontros.

 

Quantas lições aprendi apenas ouvindo!

 

Criança não participava da conversa.

 

Ouvia, aprendia e guardava.

 

Na falta de outras diversões, as famílias ocupavam as calçadas.

 

Quem saía com pressa depois do jantar dificilmente conseguia chegar ao destino sem parar em uma ou outra porta para colocar a conversa em dia.

 

Havia também os que saiam de casa apenas para saber das novidades.

 

Numa cidade pequena, sem rádio em muitos lares e muito antes da televisão, eram as calçadas que mantinham a cidade informada. Assim se vivia, com simplicidade, amizade e tempo para as pessoas.

 

O retorno de um filho da terra trazendo um diploma universitário era motivo de orgulho coletivo.

 

A conquista de um era celebrada por todos.

 

Talvez aquele banco da frente da casa tenha sido a primeira escola de convivência de muitas gerações cuiabanas.

 

Nele aprendíamos que uma boa conversa também é uma forma de construir uma comunidade.

 

Gabriel Novis Neves

02-07-2026




domingo, 5 de julho de 2026

MUITA VIDA AOS 91 ANOS


Chegar aos 91 anos é receber da vida um presente raro.

 

Não se trata apenas de contar os anos, mas de contemplar os caminhos percorridos, as pessoas encontradas e as histórias acumuladas ao longo da jornada.

 

Em cada década ficaram alegrias, desafios, conquistas e despedidas que ajudaram a construir quem somos.

 

A idade avançada não apaga a juventude vivida; ao contrário, transforma as lembranças em companheiras permanentes.

 

Ao olhar para trás, vejo uma longa estrada iniciada em Cuiabá, cercada de família, amigos, trabalho e sonhos.

 

Alguns partiram antes de mim.

 

Outros continuam caminhando ao meu lado.

 

E, enquanto a vida me concede mais um aniversário, percebo que o maior privilégio não é apenas ter vivido muito, mas continuar encontrando motivos para agradecer por cada novo amanhecer.

 

Tive a felicidade de construir uma existência rica em afeto, amizade, trabalho e serviço prestado à minha terra.

 

Que esta data seja cercada pelo carinho dos filhos, netos, bisnetos e pelas doces lembranças da eterna namorada Regina.

 

Poucas pessoas chegam aos 91 anos guardando na memória a infância cuiabana, a juventude no Rio de Janeiro, os anos dedicados à Medicina, a criação da UFMT e a família construída ao lado de Regina.

 

Minhas crônicas têm valor porque nasceram da vida real.

 

Elas preservam uma Cuiabá que muitos conheceram e que as novas gerações talvez encontrem apenas nos livros.

 

Sinto alegria por essa caminhada diária feita de palavras, recordações e afeto.

 

Que esta crônica dos meus 91 anos seja mais uma celebração da gratidão, da serenidade e da vida bem vivida.

 

A vida me concedeu algo precioso: a capacidade de transformar lembranças em patrimônio afetivo para meus leitores.

 

Cada crônica é uma janela aberta para a Cuiabá antiga, para a família, para a Medicina, para os amigos e para os pequenos gestos que o tempo costuma esconder.

 

Aos 91 anos, continuo fazendo o que sempre procurei fazer: semear.

 

Antes, ajudava a formar médicos, construir instituições e participar do desenvolvimento de Mato Grosso.

 

Hoje, semeio memórias, humanidade e gratidão.

 

Continuo escrevendo textos que guardam o valor das conversas à sombra das mangueiras, do apito dos vapores no rio Cuiabá, do café tomado sem pressa e das histórias contadas pelos mais velhos.

 

São páginas simples, mas carregadas de vida.

 

E, ao chegar a este 6 de julho de 2026, posso dizer com serenidade:

 

Vivi intensamente, amei profundamente, trabalhei com dedicação e fui feliz.

 

Se alguma herança desejo deixar, que seja a lembrança de que vale a pena viver com gratidão, cultivar os afetos e preservar a memória dos tempos vividos.

 

Recebam meu abraço carinhoso.

 

Com gratidão,

 

Gabriel Novis Neves

06-07-2026




sábado, 4 de julho de 2026

CAFÉ PASSADO NA HORA


Existem aromas capazes de despertar lembranças instantaneamente.

 

O café passado na hora espalhava seu perfume pela casa inteira e convidava todos para uma pausa.

 

Não era apenas uma bebida, mas um gesto de acolhimento.

 

Em torno da mesa surgiam conversas, visitas inesperadas e momentos de convivência que permaneceram guardados na memória de muitas famílias.

 

As antigas famílias cuiabanas viviam cercadas por aromas que marcavam a existência.

 

O cheiro do café recém-passado era um deles.

 

O perfume da terra molhada, depois da primeira chuva, era outro.

 

Bastava senti-los para que a memória abrisse, sem esforço, as portas do passado.

 

Vivíamos intensamente as pausas dos dias.

 

Havia tempo para conversar, recordar, observar a vida e desfrutar dos pequenos prazeres que hoje parecem tão raros.

 

Os aromas tinham o poder de nos despertar para aquilo que realmente importava.

 

Na velhice, revivemos muitas vezes os filmes da nossa juventude.

 

A vida transforma-se numa sucessão de lembranças que retornam com surpreendente nitidez.

 

Envelhecer conservando a memória é um privilégio que se renova a cada amanhecer.

 

Aos noventa e um anos, recordo detalhes da minha infância desde os quatro anos de idade.

 

Muitas coisas ficaram pelo caminho ao longo desta longa caminhada, mas nada apagou o essencial da minha história.

 

Lembro-me dos meus pais, da minha querida Regina, dos meus filhos, dos primeiros passos na Medicina, da direção do Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, do magistério na

 

Faculdade Federal de Direito e, mais tarde, da Universidade Federal de Mato Grosso, onde  

 

lecionei Ginecologia e Obstetrícia até a aposentadoria.

 

Reconheço que a vida foi generosa comigo.

 

A única lembrança que nunca consegui transformar em saudade serena foi a partida de Regina, há vinte anos, vencida por uma doença cruel quando parecia desfrutar de plena saúde.

 

Há dores que o tempo não apaga.

 

Apenas nos ensina a conviver com elas.

 

E, curiosamente, basta o aroma de um café passado na hora para que a vida volte a sorrir dentro da memória.

 

Gabriel Novis Neves

03-07-2016




sexta-feira, 3 de julho de 2026

ANOTAÇÕES IMPORTANTES


Quase toda casa possuía um caderno onde eram anotados telefones, endereços, receitas e compromissos.

 

Não havia senhas nem nuvens digitais.

 

Bastava abrir a página certa para encontrar aquilo que se procurava.

 

Esses cadernos acabavam se transformando em pequenos arquivos da vida familiar, guardando informações, datas e lembranças ao longo dos anos.

 

Quando retornei formado em Medicina do Rio de Janeiro, em julho de 1964, ainda era comum em Cuiabá o uso dos cadernos de anotações.

 

Vim acompanhado de minha mulher, argentina de nascimento e carioca de coração.

 

Ninguém precisou ensiná-la.

 

Em pouco tempo já mantinha o seu caderno sempre à mão, registrando compras do armazém, despesas da feira livre, aniversários da família e tudo aquilo que fazia parte da rotina da casa.

 

A Regina era extremamente organizada e cuidava com esmero das atividades domésticas, inclusive dos assuntos financeiros.

 

Isso me trazia grande tranquilidade, pois eu estava absorvido pelos compromissos profissionais de uma fase intensa da vida.

 

Ela tinha total liberdade para administrar nossas finanças e, sinceramente, boa parte do patrimônio que possuo hoje devo à sua competência e prudência.

 

O apartamento onde moro foi uma das últimas surpresas que ela me proporcionou.

 

Infelizmente, teve pouco tempo para desfrutá-lo.

 

Corretíssima, anotava todos os compromissos e jamais deixava um pagamento atrasar.

 

Quando os computadores chegaram às nossas vidas, matriculou-se em uma escola para aprender a utilizá-los.

 

Instalou um computador em nossa biblioteca e logo percebeu como aquela novidade facilitava o trabalho do dia a dia.

 

Mas nunca abandonou o velho caderno de anotações.

 

À noite, depois da novela, sentava-se diante do computador.

 

Fazia pagamentos, organizava receitas para os almoços da família e acompanhava as notícias do dia.

 

Visionária, insistiu para que eu aprendesse pelo menos o básico da internet.

 

Contratou um excelente professor que vinha à nossa casa para me alfabetizar naquela nova linguagem.

 

Como nunca fiz curso de datilografia, algo muito comum na minha geração, até hoje escrevo minhas crônicas digitando com apenas um dedo.

 

Os cadernos de anotações ainda me trazem muitas recordações da Regina.

 

De certa forma, cada página preenchida guarda um pouco de sua presença.

 

E é curioso perceber como quase tudo que existe de bom em minha memória acaba me levando de volta a ela.

 

Ao amor eterno da minha vida.

 

Gabriel Novis Neves

04-07-2026




quinta-feira, 2 de julho de 2026

ARRUMANDO O QUINTAL


Havia dias reservados para cuidar do quintal.

 

Varriam-se as folhas, aparavam-se as plantas, recolhiam-se os galhos e organizavam-se pequenos cantos esquecidos.

 

Enquanto trabalhavam os moradores conversavam sem pressa e as crianças acabavam participando da tarefa.

 

Ao final da manhã, o quintal parecia agradecer o cuidado recebido, oferecendo novamente seu espaço para brincadeiras, descanso e encontros familiares.

 

Antigamente os quintais eram verdadeiras áreas de lazer das famílias.

 

Vizinhos se reuniam, quitutes eram preparados e os almoços aconteciam ao ar livre.

 

Aquele ambiente diferente quebrava a rotina das refeições dentro de casa.

 

Na época das mangas, era comum um fruto maduro cair bem no centro da mesa improvisada, que nada mais era do que um pedaço de chão coberto por uma toalha.

 

Longe de estragar o piquenique, provocava risos e brincadeiras.

 

Somente uma chuva inesperada interrompia a farra, obrigando todos a recolherem a mesa e levarem o almoço para dentro de casa.

 

O quintal bem cuidado oferecia inúmeras opções de lazer aos moradores.

 

Á noite, tornava-se o lugar ideal para saborear quitutes comidos com as mãos, enquanto histórias eram contadas sob o céu estrelado.

 

As narrativas de assombrações e almas do outro mundo nunca faltavam.

 

Todo quintal parecia guardar um poço de histórias de meter medo.

 

O quintal do vizinho se comunicava com o da minha casa.

 

Nunca tivemos cachorros; já os vizinhos faziam deles vigilantes atentos de seus terrenos.

 

Os quintais terminavam em outra rua, onde um portão permitia a entrada da lenha destinada ao fogão.

 

Com ela muitas vezes chegavam também os temidos escorpiões e as saçuranas, cuja picada provocava intensa dor, febre e íngua.

 

Mesmo com esses riscos, os quintais eram parte essencial das antigas casas cuiabanas.

 

Guardo na memória o prazer de brincar no quintal da minha casa e também no dos vizinhos.  

 

Bastava abrir o portão dos fundos e pedir ao seu Júlio Muller algumas bocaiuvas que ele trazia da Abolição.

 

Tudo passou.

 

Mas há lembranças que continuam florescendo como os quintais da infância.

 

Gabriel Novis Neves

28-06-2026




PINTURA NOVA


De tempos em tempos, as casas recebiam uma nova pintura.

 

O cheiro da tinta espalhava-se pelos cômodos, os móveis eram afastados das paredes e a rotina da família mudava por alguns dias.

 

Para as crianças era uma pequena aventura.

 

Ao final, a casa parecia renascer, como se também ganhasse novo ânimo para continuar acolhendo a vida de todos.

 

Pequenas reformas traziam uma alegria difícil de explicar.

 

Quando criança eu gostava de acompanhar minha mãe organizando a pintura da casa.

 

Ela promovia uma verdadeira dança dos cômodos.

 

O que era sala de visitas transformava-se em dormitório.

 

A varanda passava a ser sala de jantar.

 

As paredes internas recebiam novas cores, dando à casa um aspecto completamente diferente.

 

Nunca perguntei à minha mãe por que escolhia tons tão variados nem por que mudava tanto a disposição dos ambientes.

 

Hoje penso que aquela inquietação era apenas sua maneira de fugir da monotonia e renovar o lar.

 

Meu pai jamais interferia nos afazeres da casa.

 

Confiava plenamente no bom gosto e nas decisões de minha mãe.

 

Anos depois, estudando Medicina, aprendi que as cores exercem influência sobre o bem-estar das pessoas, podendo transmitir serenidade ou provocar maior estímulo.

 

Quando dirigi o Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, no Coxipó da Ponte, encontrei as enfermarias pintadas com cores fortes e escuras.

 

Disseram-me que assim a sujeira provocada pelos pacientes ficava menos aparente.

 

Determinei que todas fossem repintadas com cores suaves, capazes de proporcionar um ambiente mais tranquilo, acolhedor e digno, sem abrir mão da higiene.

 

Ao regressar do Rio de Janeiro, em 1964, aluguei uma pequena casa cujos cômodos tinham cores diferentes.

 

Anos mais tarde, quando construí minha própria residência, escolhi o bege para todas as dependências.

 

Há mais de trinta anos moro em um apartamento cujas paredes continuam da mesma cor.

 

Também nunca mais fiz mudanças radicais nas disposições dos ambientes.

 

O bege sempre me transmitiu tranquilidade, especialmente nas horas silenciosas em que escrevo minhas crônicas.

 

Talvez por isso as construções modernas tenham adotado cores claras e discretas.

 

No fim das contas, descobrimos que uma casa não se renova apenas com tinta nova.

 

Renova-se, sobretudo, pela paz que suas paredes conseguem guardar.

 

Gabriel Novis Neves

26-06-2026




terça-feira, 30 de junho de 2026

"VENDAS" NOS BAIRROS


Antes dos supermercados, as pequenas vendas faziam parte da rotina dos bairros cuiabanos.

 

Ali se comprava de tudo um pouco, desde mantimentos até notícias da vizinhança.

 

As pessoas aguardavam sua vez conversando, trocando informações e comentando os acontecimentos da cidade.

 

O comerciante conhecia cada cliente pelo nome.

 

Mais do que um local de compras, a venda era ponto de encontro e convivência.

 

Muitas amizades nasceram entre sacos de arroz, latas de óleo e balcões de madeira.

 

Eu tinha menos de sete anos, quando conheci e comecei a frequentar a venda do meu bairro, localizada em frente ao córrego da Prainha.

 

Seu proprietário era seu Tingo.

 

As salas da frente da casa eram ocupadas pelo comércio, enquanto ele morava com os filhos nos fundos.

 

Um deles viria a ser o desembargador Odiles de Freitas.

 

Tudo o que se procurava era encontrado ali, mas a especialidade da casa eram as ervas medicinais.

 

Quando surgiam os problemas de saúde da infância, minha mãe recorria à venda do Tingo.

 

Ele vendia fiado, anotando as compras em um caderno para pagamento no fim do mês.

 

Eu gostava de ouvir suas conversas e observar a chegada das encomendas de produtos medicinais.

 

Havia um canto da venda repleto de raízes, folhas e ervas muito procuradas pelos moradores do bairro.

 

 A rua de Baixo, com sua pracinha, tinha de tudo: o estúdio fotográfico do Cháu, a farmácia do seu Campos, o armazém de secos e molhados do seu Abdala Mansur, a Casa Rosa do seu Chicre Motran, a Casa Mansur, a padaria do seu Latorraca, o consultório do Lúcio, dentista prático e o cartório do seu João, pai de Luís Philippe Pereira Leite.

 

O bairro era preferido por imigrantes europeus e do Oriente Médio, que se misturavam harmoniosamente aos habitantes da terra.

 

Nesse cenário, a venda do Tingo era uma verdadeira referência.

 

Nasci ali e me mudei para a rua do Campo no início de 1945.

 

O armazém do Tingo costumava formar filas de fregueses, não apenas pelos produtos que oferecia, mas pela atenção, pelos conselhos e pela agradável convivência que proporcionava. Alguns lugares vendiam mercadorias.

 

A venda do Tingo vendia também amizade, confiança e um sentimento de pertencimento que o tempo jamais conseguiu apagar.

 

Gabriel Novis Neves

19-06-2026




segunda-feira, 29 de junho de 2026

ÁGUA FRESCA DO FILTRO DE BARRO


Muito antes dos purificadores de água modernos o filtro de barro ocupava lugar de destaque na cozinha.

 

Sua água parecia sempre mais fresca, principalmente nos dias quentes de Cuiabá. Bastava levantar a tampa, encher a caneca e sentir o alívio imediato.

 

O filtro fazia parte da rotina das famílias e tornou-se um símbolo silencioso de um tempo em que a simplicidade também era sinônimo de conforto.

 

Nas famílias numerosas, a água era armazenada em grandes potes de barro cobertos por um prato de alumínio, sobre o qual repousava uma pequena toalha de linho bordada.

 

A caneca de alumínio permanecia por cima, sempre pronta para matar a sede de quem chegasse.

 

Na minha casa, o pote ficava num canto da copa, separada da cozinha, onde reinavam o fogão de lenha e o forno de tijolos.

 

Até hoje sinto o frescor daquela água bebida na velha caneca de alumínio.

 

Meus pais não tinham pressa em adotar as novidades.

 

Geladeira, rádio, ventilador, forro nos cômodos e até banheiro na parte íntima da casa chegaram lentamente.

 

As conquistas tecnológicas eram recebidas no seu devido tempo.

 

Anos mais tarde compreendi que a verdadeira riqueza estava justamente na simplicidade de beber água fresca retirada do pote de barro.

 

No calor de Cuiabá, o filtro acabou cedendo lugar às garrafas dentro da geladeira.

 

Também éramos consumidores do artesanato cuiabano.

 

As redes, estendidas nos dormitórios, embalavam as tardes com o ranger suave de suas cordas.

 

Naquele tempo o comércio fechava para o almoço.

 

A cidade mergulhava no silêncio, interrompido apenas pelo balanço das redes anunciando a hora da sesta.

 

Hoje poucas casas ainda conservam esse costume, e o ranger das redes tornou-se mais um dos sons que desapareceram com o tempo.

 

Alguns dizem que elas foram substituídas pelas cadeiras de balanço.

 

A única coisa que a tecnologia jamais conseguiu resolver foi diminuir o calor de Cuiabá.

 

Quando eu era menino as temperaturas pareciam mais amenas, as chuvas mais frequentes e, nas noites frias dormíamos

 

cobertos por cobertores, sem ventiladores ou quartos refrigerados.

 

Talvez por isso eu ainda acredite que algumas águas jamais deixam de ser frescas: são aquelas que continuam brotando da fonte inesgotável da memória.

 

Gabriel Novis Neves

27-06-2026




domingo, 28 de junho de 2026

PONTO FACULTATIVO, COSTUME NACIONAL


O ponto facultativo nasceu como uma concessão administrativa, mas, com o tempo, passou a fazer parte da vida brasileira.

 

Muita gente espera por ele como quem aguarda um pequeno prêmio no meio da rotina.

 

Nem sempre é feriado oficial, mas produz efeito semelhante: repartições fechadas, serviços reduzidos, famílias se organizando e a sensação de que o calendário abriu uma fresta para o descanso.

 

O brasileiro costuma transformar hábitos passageiros em costumes permanentes.

 

Assim aconteceu também com o ponto facultativo, que acabou incorporado ao cotidiano de muitas cidades e instituições.

 

Há setores que realmente param.

 

Outros continuam funcionando discretamente, sustentados por profissionais que seguem trabalhando enquanto muitos descansam.

 

Nos hospitais, portarias, aeroportos, delegacias, farmácias e tantos outros serviços essenciais, sempre existe alguém cumprindo seu dever.

 

Quem trabalhou a vida inteira sabe que o país não pode parar completamente.

 

Ao mesmo tempo, o descanso coletivo produz mudanças curiosas na paisagem humana.

 

O trânsito diminui, as ruas ficam mais silenciosas, os prédios públicos permanecem fechados e a cidade parece respirar mais devagar.

 

As famílias aproveitam para viajar, visitar parentes, descansar ou simplesmente permanecer em casa, sem a correria habitual dos dias úteis.

 

Antigamente os pontos facultativos eram aguardados com entusiasmo pelas crianças, que viam nesses dias uma oportunidade rara de prolongar as brincadeiras e aproveitar mais a presença dos pais.

 

Os adultos também pareciam diferentes.

 

Conversavam mais, acordavam mais tarde e deixavam a vida seguir num ritmo menos severo.

 

Os pontos facultativos acabaram criando uma cultura própria, quase uma extensão natural dos feriados.

 

Talvez porque, no fundo, todos precisem de pausas.

 

A vida moderna cansou as pessoas.

 

E qualquer intervalo no meio das obrigações acaba sendo recebido como um pequeno alívio.

 

Gabriel Novis Neves

08-05-2026






sábado, 27 de junho de 2026

OLHANDO AS RUAS


Antes da televisão dominar as atenções, muita diversão acontecia simplesmente observando a rua.

 

Crianças passavam longos períodos sentadas às janelas acompanhando o movimento de pedestres, carroças, bicicletas e vizinhos.

 

Cada pessoa que passava parecia trazer uma novidade.

 

O cotidiano transformava-se em espetáculo.

 

Era uma forma simples de conhecer o mundo e desenvolver a imaginação.

 

Hoje as telas ocupam esse espaço, mas a lembrança continua viva.

 

O progresso foi retirando das casas as janelas voltadas para a rua.

 

Em seu lugar surgiram edifícios de apartamentos e condomínios cercados por altos muros, afastando as pessoas da vida que acontecia do lado de fora.

 

Eu achava bonitas aquelas casas geminadas, sempre com crianças sentadas à janela, observando o movimento da rua.

 

Sem perceber, elas alimentavam a imaginação enquanto aprendiam a conhecer as pessoas e a cidade.

 

Os artistas plásticos da época eternizaram em suas telas esse cenário encantador: crianças à janela contemplando o mundo.

 

Hoje já não se veem crianças nas janelas, e as ruas deixaram de ser aquele grande espetáculo, um verdadeiro parque de diversões.

 

Minha geração brincava livremente nas calçadas e nas ruas, onde raramente passava um automóvel.

 

Muitas amizades, que atravessaram toda a vida, nasceram ali.

 

Na minha rua havia apenas uma mulher que dirigia automóvel.

 

Em toda Cuiabá, recordo-me de apenas mais duas.

 

Por onde passavam despertavam admiração, pois dirigir ainda era considerado uma atividade masculina.

 

As ruas da minha cidade inspiraram escritores, poetas, compositores, fotógrafos e artistas plásticos.

 

Eram cenários vivos, cheios de histórias e personagens.

 

Sentados à janela, as crianças de antigamente, conheciam o mundo pelas conversas de quem passava pelas calçadas.

 

Bastava uma breve parada para uma prosa, e a tarde ganhava um novo encanto.

 

Penso que envelhecer é, em grande parte, aprender a sentir saudade da infância.

 

Se pudesse escolher voltaria a morar numa casa voltada para a rua, sentado à janela, apenas para ver a vida passar.

 

Às vezes, a felicidade mora exatamente nas coisas simples.

 

Gabriel Novis Neves

25-06-2026