Há almoços que terminam depressa, quase por obrigação.
E há aqueles que se prolongam naturalmente, porque ninguém deseja deixar a mesa.
Nos feriados e fins de semana isso acontecia com mais facilidade.
A comida já havia sido servida, os pratos esfriaram devagar, mas a conversa continuava viva.
Um assunto puxava outro.
Uma lembrança chamava outra.
E, sem percebemos, a mesa deixava de ser apenas lugar de comer: transformava-se em abrigo de família.
Agora, na velhice, observo melhor os almoços familiares.
Sou quase sempre o primeiro a levantar para a soneca estatutária.
Do dormitório ainda escuto o barulho bom dos filhos, netos e bisnetos reunidos em volta da mesa.
Depois do breve descanso, volto à sala e encontro a mesma cena: a mesa ainda ocupada, as conversas correndo soltas, as risadas misturadas às lembranças.
São nesses momentos que percebo como esse antigo hábito de reunir a família aos fins de semana vai desaparecendo aos poucos.
As desculpas são muitas.
A correria da vida moderna parece engolir os encontros familiares.
Antigamente, chegava-se cedo ao almoço.
Havia tempo para conversar antes da comida, comer um pastel, beliscar um aperitivo e colocar a conversa em dia.
Hoje, muitos chegam apressados, alguns quando a refeição já começou.
E o almoço, às vezes, termina tão rápido, que mais parece um lanche de esquina!
Nas famílias antigas, especialmente em Cuiabá, os almoços não tinham hora para acabar.
Quando o ambiente era alegre, o almoço atravessava a tarde e, não raro, emendava com o jantar.
E como era bom permanecer ali, entre conversas, brincadeiras e afetos silenciosos.
Talvez a felicidade morasse justamente nisso: numa mesa cheia e sem pressa de terminar.
Gabriel Novis Neves
14-05-2026