domingo, 31 de maio de 2026

QUEM É VOCÊ NA FILA DO PAO?


Entrei na fila sem pressa.

 

Havia poucas pessoas à minha frente.

 

Mesmo assim, o atendimento parecia demorado.

 

Observei os rostos, os gestos, os suspiros discretos.

 

A vida ensina muito nas pequenas esperas.

 

Nem sempre é o tamanho da fila que nos inquieta — é o tempo dentro de nós.

 

Quando eu era jovem enfrentei muitas filas.

 

Fila para a escola, para o recreio, para a missa, para a agência do Banco do Brasil, para assistir às partidas de futebol, para o cinema.

 

Acabei me acostumando com as filas, a ponto de sentir certa falta delas.

 

As tecnologias modernas reduziram muitas dessas esperas.

 

O laptop resolveu parte dos problemas.

 

Eu, que sou da geração pré-internet, hoje resolvo boa parte dessas filas pelo celular, computador ou até televisão.

 

Filas inevitáveis ainda existem: as dos aeroportos ou as dos benefícios do INSS.

 

São locais ideais para tirar uma pequena soneca, mesmo sendo atendimento preferencial.

 

A vida ensina muito nas pequenas esperas.

 

Nem sempre o que nos incomoda é o tamanho da fila, mas o tempo dentro de nós.

 

É quando o cérebro mede o tempo de maneira diferente e reclama que a fila anda devagar.

 

Como o ser humano é difícil de entender!

 

As filas faziam parte do cenário das cidades.

 

Quando morei no Rio de Janeiro, conheci novas filas: a do pão, a do bonde, a do restaurante universitário.

 

Fila para escolher um lugar perto das ondas do mar, apenas para bronzear.

 

Fila para pegar o bondinho da Praia Vermelha até o Morro da Urca e o Pão de Açúcar.

 

Fila para admirar as belezas da baia da Guanabara.

 

Também, imitando os paulistanos, filas para assistir ao pouso e à decolagem das aeronaves no Aeroporto Santos Dumont, ainda antes da chegada dos jatos.

 

O Presidente JK tinha um moderníssimo Avro.

 

Essas são as filas que ficaram guardadas na minha memória.

 

Hoje entendo melhor: às vezes a fila não anda devagar — é o nosso tempo interior que caminha mais depressa.

 

Gabriel Novis Neves

04-03-2026




DELICADEZAS PARA VISITANTES


Em muitas casas existia um pacote de bolachas reservado especialmente para as visitas.

 

Ficava escondido no armário da cozinha e ninguém podia abrir antes da hora.

 

Quando alguém chegava, surgia o prato arrumado ao lado do café passado na hora.

 

Era um gesto simples de hospitalidade.

 

Mesmo famílias humildes gostavam de oferecer alguma coisa.

 

Hoje as visitas diminuíram e os armários mudaram.

 

Mas a vontade de acolher continua sendo uma das mais bonitas tradições domésticas.

 

Lembro dessas cenas do meu tempo de menino, guardadas com nitidez na memória e transformadas, agora em crônicas.

 

Foi escrevendo sobre pequenas coisas da vida que descobri o quanto fui feliz.

 

As pessoas tinham o hábito de visitar umas às outras.

 

As casas permaneciam prontas para receber.

 

No armário da cozinha existia sempre um pacote de bolachas escondido, reservado para as visitas.

 

Eu acompanhava minha mãe em muitas dessas visitas, inclusive às casas mais humildes de lavadeiras, cozinheiras e faxineiras, nos bairros distantes de Cuiabá.

 

Mal chegávamos e já apareciam a toalha na mesa, o café passado na hora e as bolachas retiradas do armário.

 

Era um gesto simples, mas cheio de delicadeza. Naquele tempo, oferecer café e bolacha era quase uma obrigação afetiva.

 

Hoje muita coisa mudou.

 

As visitas ficaram mais raras e os encontros mais rápidos.

 

Alguns recorrem ao celular para pedir salgadinhos e pagar por PIX.

 

A modernidade trouxe conforto, mas também silenciosos afastamentos.

 

Mesmo assim, acredito que a hospitalidade não desapareceu.

 

Ela apenas ficou escondida, como aquele antigo pacote de bolachas guardado no armário da cozinha, esperando alguém chegar.  

 

Gabriel Novis Neves

26-05-2026




sábado, 30 de maio de 2026

INFÂNCIA LÚDICA


Nem sempre a diversão infantil dependia de brinquedos caros.

 

Muitas crianças passavam horas brincando com caixas de papelão, pedaços de madeira ou latas vazias.

 

A imaginação fazia o resto.

 

O tempo mudou muita coisa, mas não conseguiu diminuir a criatividade das crianças.

 

Quando menino eu mesmo construía meus brinquedos.

 

Hoje observo que meus bisnetos possuem a mesma capacidade de inventar mundos.

 

Num almoço de família fiquei olhando uma bisneta de dois anos sentada sobre um pedaço de papelão, sendo arrastada pela sala na maior felicidade.

 

Era o carrinho mais simples e, talvez, o mais gostoso que ela já tivera.

 

Na minha infância surgiam brinquedos feitos com latas vazias de massa de tomate, cabos de vassoura, bonecos de barro e jogos de botão arrancados dos casacos de meu pai.

 

Havia também pular corda, amarelinha, cabra-cega, esconde-esconde e pipas fabricadas em casa.

 

A imaginação das crianças nunca teve limites, principalmente quando era estimulada pela convivência familiar.

 

Os brinquedos caros das lojas nem sempre eram os mais queridos ou duradouros.

 

Os mais admirados eram aqueles construídos no fundo do quintal, imitando as cidades dos presépios natalinos.

 

Ali a criatividade atingia o máximo: ruas, rios, pontes, estradas, casas e moradores tirando água do poço.

 

Havia pracinha com coreto, chafariz e bancos de barro ou madeira.

 

As crianças da vizinhança vinham visitar aquelas cidades imaginárias construídas pelas mãos dos amigos.

 

O universo infantil nunca conheceu fronteiras. Os brinquedos simples continuam sobrevivendo pela tradição oral, pelo exemplo dos pais e pela alegria das famílias unidas. 

 

Minha mãe gostava de brincar conosco e ensinava tudo sorrindo.

 

Talvez por isso eu tenha aprendido cedo que a infância é o território onde a tristeza deveria entrar o menos possível.

 

Gabriel Novis Neves

25-05-2025




quinta-feira, 28 de maio de 2026

EMPRÉSTIMOS AMIGOS


Nas ruas antigas, algumas ferramentas pareciam pertencer ao bairro inteiro.

 

Escadas, martelos, alicates e até formas de bolo circulavam entre vizinhos sem burocracia. Bastava bater palma no portão e pedir emprestado.

 

Havia uma confiança natural entre as pessoas.

 

Nem sempre o objeto voltava rapidamente, mas acabava voltando.

 

Hoje quase tudo ficou individualizado.

 

As casas ganharam muros mais altos e os empréstimos diminuíram.

 

Talvez porque a convivência também tenha ficado mais distante.

 

Fui criado nesse ambiente, na primeira metade do século passado.

 

A confiança era a moeda daquele tempo, quando quase tudo parecia pertencer à coletividade.

 

Cansei de presenciar vizinhos pedindo à minha mãe o açúcar que faltava para o bolo ou a escada para trocar uma lâmpada queimada.

 

Havia a certeza que aquilo que saia emprestado voltaria.

 

Hoje as portas permanecem fechadas, os muros são altos e os vizinhos mal se conhecem.

 

Moro em um edifício de vinte andares, num dos bairros mais valorizados de Cuiabá.

 

A maioria dos moradores é proprietária e amiga entre si, lembrando os antigos bairros da cidade.

 

Por aqui ainda circula a moeda da confiança, e continua sendo comum emprestar alguma coisa.

 

Quando a funcionária me consulta sobre o empréstimo de um ingrediente para o almoço, imediatamente me vêm as lembranças dos tempos antigos.

 

Sei que aquilo voltará e, mais do que isso, sinto-me útil.

 

Recordar o passado faz bem nestes tempos de consumismo desenfreado.

 

Vivíamos em comunidades onde todos se consideravam irmãos, quando não compadres e comadres.

 

Andar pelas calçadas era sempre devagar entre conversas nas portas das casas.

 

Frequentemente surgia um convite, quase sempre aceito, para entrar e tomar um cafezinho ou um refresco que aliviasse o calor cuiabano.

 

À noite, as calçadas eram ocupadas por cadeiras de balanço.

 

Quem tivesse pressa precisava caminhar rápido, de cabeça baixa, pelo meio da rua.

 

Do contrário, acabaria parado nas portas das casas, verdadeiras salas de visitas.

 

Como era bonito recordar a rua do Campo, com as famílias reunidas nas portas, sentadas em cadeiras de balanço!

 

Conheci o Marechal Cândido Mariano sentado numa dessas cadeiras, na porta da casa do seo Álvaro Duarte.

 

Até então eu o conhecia apenas pelos livros escolares e pelo nome de rua em Cuiabá.

 

Meu avô Alberto também me contava histórias sobre ele, um pouco diferentes das dos livros.

 

No fundo, eram tempos em que a confiança passava de mão em mão, como uma velha escada de vizinho.

 

Gabriel Novi Neves

23-05-2026






CORTE DE CABELO


Cortar o cabelo das crianças antigamente era quase uma cerimônia.

 

Algumas iam chorando para a barbearia, enquanto outras aceitavam resignadas o pente e a tesoura.

 

Muitas mães guardavam uma pequena mecha do primeiro corte, como lembrança da infância.

 

Havia também os cortes “de verão”, bem curtos por causa do calor cuiabano.

 

Depois do corte vinham o banho, o talco e a roupa limpa.

 

Pequenos acontecimentos domésticos tinham enorme importância numa época em que a vida corria mais devagar.

 

Comecei a frequentar as barbearias aos sete anos de idade.

 

Até então, minha mãe aparava meus cachos com paciência e cuidado.

 

Mais tarde, meu pai passou a ser o encarregado de me levar aos barbeiros da cidade.

 

Naquele tempo as carteiras das escolas públicas eram coletivas, facilitando a proliferação de piolhos e lêndeas.

 

Muitas crianças tinham pouca higiene com os cabelos: não os lavavam direito, usavam pentes emprestados e trocavam bonés entre colegas.

 

Por isso, era comum os pais pedirem ao barbeiro que raspasse a cabeça dos meninos com máquina número zero ou deixasse apenas uma pequena ‘pastinha’.

 

Difícil mesmo era livrar as meninas dos piolhos.

 

As mães passavam horas numa verdadeira caça aos bichinhos, penteando longos cabelos com pente-fino e esmagando lêndeas entre as unhas.

 

Algumas aplicavam remédios fortes e depois enrolavam a cabeça das filhas com lenços ou fraldas.

 

Meu pai me levava ao barbeiro da rua do Meio e pedia que raspasse bem a cabeça, para o cabelo demorar mais a crescer.

 

Na adolescência, peregrinei pelos barbeiros mais conhecidos de Cuiabá.

 

Fui cliente do João Galinha, ao lado do Palácio Alencastro, Joãozinho e seu irmão Pedroso, na rua do Meio, e do Gentil Esteves, dono do corte mais rápido da cidade.

 

Passei onze anos estudando Medicina no Rio de Janeiro.

 

Quando voltei, encontrei outro ambiente e descobri que os barbeiros mais admirados eram os portugueses e espanhóis.

 

Hoje, ao ver crianças nos modernos salões de beleza, lembro daqueles antigos barbeiros, onde o corte de cabelo era simples, rápido e fazia parte da educação da infância.

 

No fundo, cada corte levava embora um pouco da meninice e deixava chegando, devagarinho, a vida adulta.

 

Gabriel Novis Neves

22-05-2026




terça-feira, 26 de maio de 2026

ROUPAS NOVAS


Ganhar roupa nova antigamente era um acontecimento importante.

 

Muitas crianças recebiam peças apenas em aniversários, Natais ou festas especiais.

 

Havia recomendações rigorosas para não rasgar, não manchar e não brincar demais.

 

A roupa nova carregava certo orgulho familiar.

 

Algumas crianças até dormiam pensando no dia seguinte, ansiosas para estrear o presente.

 

Hoje o consumo tornou tudo mais rápido e abundante.

 

Talvez por isso certas roupas tenham perdido o valor afetivo que antes possuíam.

 

Quando criança gostava de ganhar roupas novas, mas muito mais brinquedos.

 

A criança nasce sem roupa e logo começa a brincar com o mamilo da mãe e as chupetas.

 

Com o passar do tempo, os brinquedos ficam mais sofisticados.

 

O interesse pela roupa nova surge mais tarde, já na fase escolar, quando começa a usar o uniforme do jardim da infância ou do pré-escolar.

 

Nessa fase aparecem também as recomendações de cuidado, principalmente quando as roupas eram presentes de aniversários, datas especiais ou Natais.

 

Meu bisneto completou cinco anos e ganhou mais brinquedos do que roupas.

 

Nessa idade já aparece certa vaidade: prefere camisetas sem gola.

 

As roupas que ganhávamos antigamente eram feitas por costureiras, abundantes na cidade, quando não pelas próprias mães.

 

Ganhar roupa nova vinha acompanhado de uma série de recomendações:

 

— Só usar na missa de domingo.

 

— Cuidado para não rasgar.

 

— Não vá sujar a roupa brincando.

 

Só tive uma roupa feita por alfaiate em mil novecentos e quarenta e seis: o uniforme branco do colégio dos padres, onde cursei o ginásio.

 

Minha mãe costurou os uniformes do Grupo Escolar e do Colégio Estadual.

 

O alfaiate era o seo Pedroso, que tinha seu ateliê na rua Candido Mariano, quase esquina com a rua do Meio, nos fundos da Casa Rosa, na rua de Baixo.

 

Costumava tomar cerveja, de pé, na área de serviço do bar do meu pai, até seu fechamento, em mil novecentos e setenta.

 

Papai trabalhava sempre de terno e gravata. Naquele tempo ainda não existiam ternos prontos em Cuiabá.

 

Hoje a profissão de alfaiate quase desapareceu com a industrialização das roupas.

 

O terno já vem pronto, aguardando apenas pequenos ajustes.

 

Comprei meu primeiro terno na loja Ducal, no Rio de Janeiro, que também desapareceu com o tempo.

 

Hoje encontro ternos com facilidade, prontos para vestir.

 

Mas nenhum deles traz o mesmo orgulho silencioso das roupas da minha infância.

 

Gabriel Novis Neves

21-05-2026




segunda-feira, 25 de maio de 2026

PÃES QUENTES


Durante muitos anos uma cena comum das manhãs brasileiras era alguém voltando da padaria com a sacola de pão balançando na mão.

 

O cheiro do pão quente escapava pelo papel fino.

 

Em algumas casas, o café só começava quando o pão chegava.

 

Havia algo de ritual naquela pequena caminhada diária.

 

Hoje aplicativos entregam tudo rapidamente.

 

Mas talvez nenhuma entrega moderna consiga substituir completamente o prazer simples de voltar da rua trazendo pão fresco para casa.

 

Nasci e fui criado na vizinhança da Padaria Latorraca na rua de Baixo.

 

Da minha casa sentia o aroma do pão saindo do forno.

 

De calças curtas e dinheiro contado na mão, cedo fui encarregado pelo meu pai para trazer o pão quentinho para o café.

 

Essa tarefa à tarde era feita por ele, que nunca teve o hábito de jantar.

 

Ele saía do bar trazendo queijo, salaminho, presunto e salsichas.

 

Um copo grande com nata de leite e açúcar completavam a sua refeição.

 

Todos os dias pela manhã, a charrete da chácara do ‘seo’ Mario Esteves, deixava em minha casa, vinte litros de leite, que eram fervidos.

 

Uma porção ficava em casa e o restante era levado para a sorveteria do bar.

 

Quem cuidava da sorveteria era meu tio Ioiô.

 

Eu já crescido comprava baunilha do quintal da casa do ‘seo’ João Gomes, no Baú.

 

Papai comprava frutas frescas da terra, nas carrocinhas na porta do bar.

 

Uma das lembranças da minha infância, foi a chegada da nova e moderna máquina de sorvete.

 

Tinha sete anos de idade e fiquei encantado com o seu desembarque.

 

Era enorme e fabricava picolés e sorvetes deliciosos.

 

Estudantes das escolas próximas, do Jardim e cinema eram seus maiores frequentadores.

 

Os longevos até hoje lembram da sorveteria e, de quantos namoros iniciaram ali com final feliz.

 

Gabriel Novis Neves

19-05-2026




domingo, 24 de maio de 2026

DESCANSO QUE TAMBÉM CANSA


Curiosamente há descansos que também cansam.

 

Feriados com viagens longas, filas, malas, trânsito, aeroportos, compromissos familiares e excesso de programação podem deixar a pessoa mais exausta do que antes.

 

O verdadeiro descanso talvez seja mais simples. Às vezes, ele está em ficar quieto, ouvir uma música antiga, olhar uma planta, conversar pouco ou apenas permitir que o corpo permaneça em paz.

 

Ultimamente, para descansar, prefiro ficar em casa, escrevendo, assistindo ao futebol ou simplesmente deixando o corpo repousar na cama, fingindo dormir.

 

Nunca fui homem de sair para descansar. Sempre gostei da tranquilidade da casa, mesmo nos dias sem visitas.

 

Com a idade avançada, meu lazer predileto passou a ser o repouso silencioso do dormitório.

 

Minha verdadeira sala de visitas é o quarto.

 

Recebo os amigos deitado na cama, enquanto eles se acomodam nas cadeiras de balanço ou, quando são familiares mais íntimos, sentam-se ao meu lado para longas conversas sem pressa.

 

Esse é o descanso que mais me agrada.

 

Arrumar e desarrumar malas, enfrentar aeroportos e esperas já não me seduz.

 

Hoje, sinto que o melhor das viagens continua sendo a volta para casa.

 

As gerações modernas gostam de viver na rua. Tudo parece motivo para sair, viajar ou circular pela cidade.

 

Moram em condomínios distantes e, para chegar ao centro, enfrentam deslocamentos demorados.

 

Nasci e sempre vivi no centro de Cuiabá, onde tudo ficava perto: hospitais, consultórios, farmácias, padarias, igrejas, restaurantes.

 

Antes das artroses nos joelhos, eu fazia quase tudo a pé.

 

Meu pai nunca teve automóvel.

 

Meu avô se deslocava a cavalo até o Porto ou ao Coxipó.

 

Talvez por isso eu tenha aprendido cedo que a proximidade também é uma forma de descanso.

 

Na velhice fui descobrindo que descansar não é fugir do mundo.

 

É encontrar paz dentro da própria casa.

 

Gabriel Novis Neves

11-05-2026




sábado, 23 de maio de 2026

A CIDADE SEM BUZINAS


Uma cidade sem buzinas parece outra cidade.

 

O mesmo asfalto, as mesmas esquinas, os mesmos prédios, mas com uma alma diferente.

 

O silêncio permite ouvir sons esquecidos: uma ave, uma vassoura riscando a calçada, uma conversa baixa, o vento passando pelas árvores.

 

Quem viveu a Cuiabá antiga sabe que a cidade também tinha seus barulhos, mas eram sons humanos, reconhecíveis, quase familiares.

 

As buzinas dos automóveis, que durante a semana tanto incomodam, formam uma espécie de orquestra desordenada da vida moderna.

 

Curiosamente, quando desaparecem, sentimos que falta alguma coisa.

 

Escrevo do escritório no vigésimo andar de um edifício, em uma manhã de domingo e percebo essa ausência.  

 

Estou condicionado ao ruído da cidade.

 

Vou até a janela e tudo parece diferente.

 

As ruas estão quase vazias.

 

Não há vozes, passos apressados, motores impacientes.

 

Até as folhas das árvores parecem imóveis.

 

Não temos em Cuiabá o apito dos trens nem das embarcações dos grandes portos.

 

Os sons que chegam até a mim aos domingos são outros: um portão abrindo devagar, uma conversa distante, o canto de uma ave solitária. É um silêncio que devolve à cidade uma alma antiga.

 

Percebo, então, que o barulho também é vida. 

 

Criança saudável nasce gritando.

 

O silêncio, naquele instante, preocupa. Aniversário faz barulho.

 

Quando tudo silencia, sabemos que a festa terminou.

 

O próprio corpo humano produz seus ruídos: o coração pulsa, os pulmões respiram, o estômago reclama, a vida se anuncia pelos sons.

 

Também a cidade fala através deles.

 

Precisamos aprender a conviver com a linguagem do ruído e do silêncio.

 

Uma cidade completamente silenciosa parece perder parte da própria identidade.

 

Talvez precisemos das buzinas, dos passos, das vozes e dos pequenos ruídos cotidianos para sentirmos que a vida continua circulando entre nós.

 

No fundo, é o equilíbrio entre o silêncio e o barulho que dá alma às cidades — e também às pessoas.

 

Gabriel Novis Neves

18-05-2026




ALMOÇOS SEM HORA PARA ACABAR


Há almoços que terminam depressa, quase por obrigação.

 

E há aqueles que se prolongam naturalmente, porque ninguém deseja deixar a mesa.

 

Nos feriados e fins de semana isso acontecia com mais facilidade.

 

A comida já havia sido servida, os pratos esfriaram devagar, mas a conversa continuava viva.

 

Um assunto puxava outro.

 

Uma lembrança chamava outra.

 

E, sem percebemos, a mesa deixava de ser apenas lugar de comer: transformava-se em abrigo de família.

 

Agora, na velhice, observo melhor os almoços familiares.

 

Sou quase sempre o primeiro a levantar para a soneca estatutária.

 

Do dormitório ainda escuto o barulho bom dos filhos, netos e bisnetos reunidos em volta da mesa.

 

Depois do breve descanso, volto à sala e encontro a mesma cena: a mesa ainda ocupada, as conversas correndo soltas, as risadas misturadas às lembranças.

 

São nesses momentos que percebo como esse antigo hábito de reunir a família aos fins de semana vai desaparecendo aos poucos.

 

As desculpas são muitas.

 

A correria da vida moderna parece engolir os encontros familiares.

 

Antigamente, chegava-se cedo ao almoço.

 

Havia tempo para conversar antes da comida, comer um pastel, beliscar um aperitivo e colocar a conversa em dia.

 

Hoje, muitos chegam apressados, alguns quando a refeição já começou.

 

E o almoço, às vezes, termina tão rápido, que mais parece um lanche de esquina!

 

Nas famílias antigas, especialmente em Cuiabá, os almoços não tinham hora para acabar.

 

Quando o ambiente era alegre, o almoço atravessava a tarde e, não raro, emendava com o jantar.

 

E como era bom permanecer ali, entre conversas, brincadeiras e afetos silenciosos.

 

Talvez a felicidade morasse justamente nisso: numa mesa cheia e sem pressa de terminar.

 

Gabriel Novis Neves

14-05-2026




quinta-feira, 21 de maio de 2026

RELÓGIO QUE ATRASA, NÃO ADIANTA. RELÓGIO QUE ADIANTA NÃO É CERTO TAMBÉM


Toda família parecia possuir um relógio teimoso.

 

Alguns atrasavam, outros adiantavam sem explicação.

 

Mesmo assim, ninguém pensava em jogá-los fora.

 

Acertava-se o horário de vez em quando, e a vida seguia.

 

Aqueles relógios antigos faziam parte da rotina da casa, marcando as refeições, as novelas, os horários escolares e as visitas.

 

Hoje os celulares oferecem a hora exata em qualquer lugar.

 

Mas os antigos relógios domésticos tinham personalidade própria, quase como membros silenciosos da família.

 

As casas de antigamente eram construídas de adobes, quase sempre coladas umas às outras, permitindo que os vizinhos ouvissem os sons vindos da casa ao lado.

 

A varanda da minha casa era separada da vizinha apenas por uma parede de adobe.

 

De lá ouvíamos a tosse do seo Alfredão, as conversas em voz alta e o relógio marcando as horas.

 

Ficava pendurado na varanda, com grande mostrador e um pêndulo dourado anunciando o tempo.

 

As badaladas chegavam perfeitamente até à nossa casa.

 

Lá em casa havia um relógio menor e redondo, que sempre adiantava.

 

Era rebelde às horas e também aos consertos dos relojoeiros de Cuiabá.

 

Mesmo assim, ninguém cogitava desfazer-se dele.

 

Com o passar dos anos, os velhos relógios acabaram transformados em peças de decoração daqueles antigos casarões.

 

Tudo nas casas de outrora desperta saudade: as cadeiras de balanço, as redes da sesta, as cortinas claras separando os cômodos, a cozinha de fogão a lenha com forno de barro.

 

Era a arquitetura das casas cuiabanas da primeira metade do século passado.

 

As lembranças da infância permanecem duradouras, quase imortais, como o relógio que adiantava sozinho numa época em que ainda não existia tanta pressa.

 

Poucos tinham automóvel e, caminhando pelas calçadas, ouvíamos as badaladas dos relógios domésticos.

 

Quem morava perto da Catedral guiava-se pelo seu grande relógio, que determinava a hora de acordar, ir à missa, ao colégio, almoçar e dormir.

 

Tudo isso fazia parte da vida dos moradores do Centro Histórico e da emblemática rua de Baixo.

 

Foi ali que nasci, cresci e parti para a vida, até me transformar em cronista do cotidiano.

 

No fundo, talvez eu continue ouvindo, dentro de mim, o velho relógio da infância marcando lentamente o tempo da saudade.

 

Gabriel Novis Neves

20-05-2026




quarta-feira, 20 de maio de 2026

AROMAS DE UMA VIDA INTEIRA

 

Poucas coisas davam tanta sensação de casa arrumada quanto abrir um sabonete novo no banheiro.

 

O perfume se espalhava discretamente e anunciava cuidado doméstico.

 

Algumas famílias guardavam sabonetes mais perfumados para dias especiais ou para a chegada das visitas.  

 

Havia também quem colocasse as caixinhas vazias dentro das gavetas, apenas para perfumar as roupas.

 

Pequenos hábitos simples davam personalidade as casas.

 

E certos cheiros permanecem vivos na memória durante décadas.

 

Minha mãe tinha o hábito de manter a casa sempre limpa, arejada e organizada, tudo feito com economia e zelo.

 

Muito cedo ela me ensinou que sabonete nunca acabava.

 

Quando a barra ficava pequena, era colada em outra nova, e assim sucessivamente.

 

Também guardava as embalagens perfumadas nas gavetas dos armários.

 

São perfumes que atravessam o tempo e permanecem guardados nas lembranças.

 

Minha mãe arrumava a casa de um jeito tão especial que, ainda da rua, já sabíamos que estávamos chegando perto de casa.

 

Tudo era feito com a ajuda dos filhos mais velhos, numa colaboração silenciosa e natural.

 

Quando fui estudar Medicina no Rio de Janeiro, conheci outros cheiros inesquecíveis.

 

Impossível esquecer o aroma das Lojas Sears, na Praia de Botafogo.

 

A refrigeração central, as escadas rolantes, os restaurantes, as lanchonetes, os cinemas e as lojas de departamentos criavam um ambiente moderno e perfumado, muito diferente da Cuiabá daquele tempo.

 

Em 1952 havia duas grandes novidades no Rio: o Estádio do Maracanã e as Lojas Sears.

 

Mais tarde, os sabonetes em barra começaram a desaparecer dos banheiros públicos, substituídos pelos sabonetes líquidos em recipientes presos à parede, considerados mais higiênicos e econômicos.

 

Todas as crônicas que escrevo acabam me levando de volta aos ensinamentos de minha mãe.

 

Ela foi a grande mestra da minha vida, até mesmo naquele inocente sabonete que, em suas mãos, parecia nunca ter fim.

 

Gabriel Novis Neves

16-05-2026



terça-feira, 19 de maio de 2026

VISITAS AMIGAS


Antigamente as visitas não tinham tanta pressa de ir embora.

 

Muitas vezes chegavam para passar a tarde e acabavam dormindo.

 

Armavam-se camas improvisadas, surgiam colchões pela sala e a conversa atravessava a noite.

 

As crianças adoravam a novidade.

 

Havia menos conforto material, mas sobrava naturalidade na convivência.

 

Hoje, quase tudo precisa ser combinado com antecedência.

 

A espontaneidade das antigas visitas parece ter desaparecido junto com certas liberdades da vida doméstica.

 

Dormir na casa do vizinho era um costume daquele tempo.

 

Os hábitos antigos, com a modernidade e o passar dos anos, foram desaparecendo.

 

Da minha geração, não conheço ninguém que não tenha experimentado aquelas pequenas liberdades da convivência familiar.

 

Curioso é perceber que as crianças não eram ensinadas a dormir fora de casa.

 

Descobriram isso por pura intuição, como se a amizade naturalmente prolongasse o dia até a noite.

 

E muitos adultos também gostavam daquela informalidade, dormindo no chão, sobre colchões improvisados, em meio às conversas e risadas.

 

Minha mãe recebia muitas visitas.

 

Tinha amigas espalhadas pelos bairros de Cuiabá, numa verdadeira comunhão de afeto e carinho.

 

Nunca deixava uma visita sem resposta.

 

Estava sempre indo reencontrar amigas, quase sempre acompanhada dos filhos mais velhos.

 

Foi assim que aprendi a conhecer os costumes dos antigos cuiabanos e a importância de uma conversa sem pressa.

 

Nessas visitas, a dona da casa preparava sucos com frutas do quintal, oferecia guloseimas guardadas em latas de alumínio, ou fritava, na hora os inesquecíveis sonhos da minha infância.

 

Era gostoso ser criança naquele tempo, quando a cidade, com suas ruas, becos, praças, córregos, morros e jardins, parecia um grande parque de diversões.

 

Os quintalões arborizados sombreavam generosamente as ruas, refrescando a velha Cuiabá.

 

A Cuiabá de trezentos anos, aquela da minha infância, foi aos poucos se afastando.

 

Muitos moradores deixaram os antigos bairros e seguiram para condomínios modernos e fechados, onde, muitas vezes, os vizinhos mal se conhecem.

 

Talvez por isso as visitas já não durmam mais em casa.

 

Porque certas intimidades também desapareceram com o tempo.

 

Gabriel Novis Neves

15-05-2026