Toda família parecia possuir um relógio teimoso.
Alguns atrasavam, outros adiantavam sem explicação.
Mesmo assim, ninguém pensava em jogá-los fora.
Acertava-se o horário de vez em quando, e a vida seguia.
Aqueles relógios antigos faziam parte da rotina da casa, marcando as refeições, as novelas, os horários escolares e as visitas.
Hoje os celulares oferecem a hora exata em qualquer lugar.
Mas os antigos relógios domésticos tinham personalidade própria, quase como membros silenciosos da família.
As casas de antigamente eram construídas de adobes, quase sempre coladas umas às outras, permitindo que os vizinhos ouvissem os sons vindos da casa ao lado.
A varanda da minha casa era separada da vizinha apenas por uma parede de adobe.
De lá ouvíamos a tosse do seo Alfredão, as conversas em voz alta e o relógio marcando as horas.
Ficava pendurado na varanda, com grande mostrador e um pêndulo dourado anunciando o tempo.
As badaladas chegavam perfeitamente até à nossa casa.
Lá em casa havia um relógio menor e redondo, que sempre adiantava.
Era rebelde às horas e também aos consertos dos relojoeiros de Cuiabá.
Mesmo assim, ninguém cogitava desfazer-se dele.
Com o passar dos anos, os velhos relógios acabaram transformados em peças de decoração daqueles antigos casarões.
Tudo nas casas de outrora desperta saudade: as cadeiras de balanço, as redes da sesta, as cortinas claras separando os cômodos, a cozinha de fogão a lenha com forno de barro.
Era a arquitetura das casas cuiabanas da primeira metade do século passado.
As lembranças da infância permanecem duradouras, quase imortais, como o relógio que adiantava sozinho numa época em que ainda não existia tanta pressa.
Poucos tinham automóvel e, caminhando pelas calçadas, ouvíamos as badaladas dos relógios domésticos.
Quem morava perto da Catedral guiava-se pelo seu grande relógio, que determinava a hora de acordar, ir à missa, ao colégio, almoçar e dormir.
Tudo isso fazia parte da vida dos moradores do Centro Histórico e da emblemática rua de Baixo.
Foi ali que nasci, cresci e parti para a vida, até me transformar em cronista do cotidiano.
No fundo, talvez eu continue ouvindo, dentro de mim, o velho relógio da infância marcando lentamente o tempo da saudade.
Gabriel Novis Neves
20-05-2026
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.