Há um silêncio particular que se instala na casa depois que filhos, netos e bisnetos se despedem.
Durante algumas horas, tudo foi ruído bom: passos, vozes, risos, brinquedos, pratos, chamados e abraços.
Depois, a porta se fecha, e a casa vai retomando, devagar, a sua quietude habitual.
Mas não volta a ser a mesma.
Ficam no ar os vestígios da visita, como um perfume de afeto.
E o silêncio, em vez de vazio, passa a ser lembrança repousada.
Resta a esperança de que, na semana seguinte, tudo se repita.
Quando somos crianças, os dias demoram a passar.
Na vida adulta, parecem voar, dando até a impressão de que encurtaram.
Isso faz bem ao idoso, que ainda sente pela casa o perfume do afeto, sinal de que filhos, netos e bisnetos voltarão.
Mais uma manhã de algazarra, alegria e brincadeiras, com a certeza de que tudo que é bom dura pouco, mas deixa marcas longas.
As famílias de antigamente tinham muitas crianças, e isso dava às casas um jeito permanente de festa.
A família de meu pai era formada por dez meninos e cinco meninas.
A de minha mãe, por sete meninas e um único menino.
Na minha casa de infância éramos cinco meninas e quatro meninos, deixando tudo sempre barulhento, com aquele ruído gostoso de se ouvir.
As pessoas que leem minhas crônicas diárias comentam que sou saudosista, sempre preso às lembranças do passado.
Como não recordar aquilo que passou por nós e nos fez bem?
Com Regina construí uma família de três filhos e seis netos, o mesmo número de filhos que tiveram meus pais.
Com a chegada dos cinco bisnetos, o silêncio se despediu.
Pelo menos nas reuniões de sábado, a casa voltou a ser como nos meus tempos de criança: alegre, cheia e ruidosa.
Hoje, fico na dependência do calendário para saborear novamente aquela gostosura antiga, sem o silêncio perturbador da casa vazia.
Quando todos vão embora, recolho devagar os ecos da manhã.
E fico esperando o próximo sábado.
Gabriel Novis Neves
30-04-2026
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