Os netos têm um dom raro: devolvem ao coração dos avós uma espécie de juventude emprestada.
Não rejuvenescem o corpo, nem apagam os anos, mas trazem de volta a curiosidade, o riso fácil e a surpresa diante das pequenas coisas.
Ao lado deles a vida parece menos pesada.
Chegam com seus modos novos, suas palavras apressadas, suas descobertas, e, sem perceber, reabrem em nós janelas que julgávamos fechadas pelo tempo.
Como é bom receber a visitas dos netos!
Tudo parece reflorir.
Eles nos aproximam de um mundo que já não é o nosso, mas que também nos pertence um pouco pelo afeto.
Nas reuniões semanais da família, tenho a oportunidade de sentir isso de perto.
Ouço suas conversas e, muitas vezes, não consigo acreditar em certas palavras, costumes e novidades.
Ao mesmo tempo, alguma coisa me transporta aos meus próprios tempos de juventude.
Lembranças que pareciam adormecidas voltam com força ao pensamento.
Costumes antigos ressurgem como num toque de mágica.
O corpo permanece o mesmo, marcado pelos anos, mas o olhar sobre a vida se modifica.
Fica mais leve.
Os netos não são cópias dos pais, muito menos dos avós.
Têm sua própria maneira de amar, de falar, de vestir, de rir e de compreender o mundo.
E é bom que seja assim.
O tempo não volta para trás.
O mundo, com suas conquistas e mudanças, vai atropelando hábitos antigos e abrindo caminhos novos.
Nem todas as mudanças são boas.
Algumas assustam.
Outras encantam.
Mas a vida sempre foi feita dessa mistura entre perdas e descobertas.
Quando os netos se tornam pais, os avós recebem uma alegria ainda mais profunda.
É como se a família ganhasse nova luz.
Os bisnetos chegam pequenos, frágeis e sorridentes, trazendo para dentro da casa uma esperança que não envelhece.
Num tempo em que muitos casais evitam ter filhos e as famílias numerosas vão ficando raras, reunir várias gerações à mesma mesa é quase um privilégio.
Antigamente, essas famílias apareciam em velhos retratos, todos juntos, sérios ou sorridentes, guardados em álbuns de capa dura.
Hoje, quando vejo filhos, netos e bisnetos reunidos, sinto que ainda faço parte dessa fotografia viva.
E agradeço.
Porque a juventude que os netos nos devolvem não está no corpo.
Está no coração.
E o coração, quando ama, nunca envelhece.
Gabriel Novis Neves
27-04-2026
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