Antigamente as visitas não tinham tanta pressa de ir embora.
Muitas vezes chegavam para passar a tarde e acabavam dormindo.
Armavam-se camas improvisadas, surgiam colchões pela sala e a conversa atravessava a noite.
As crianças adoravam a novidade.
Havia menos conforto material, mas sobrava naturalidade na convivência.
Hoje, quase tudo precisa ser combinado com antecedência.
A espontaneidade das antigas visitas parece ter desaparecido junto com certas liberdades da vida doméstica.
Dormir na casa do vizinho era um costume daquele tempo.
Os hábitos antigos, com a modernidade e o passar dos anos, foram desaparecendo.
Da minha geração, não conheço ninguém que não tenha experimentado aquelas pequenas liberdades da convivência familiar.
Curioso é perceber que as crianças não eram ensinadas a dormir fora de casa.
Descobriram isso por pura intuição, como se a amizade naturalmente prolongasse o dia até a noite.
E muitos adultos também gostavam daquela informalidade, dormindo no chão, sobre colchões improvisados, em meio às conversas e risadas.
Minha mãe recebia muitas visitas.
Tinha amigas espalhadas pelos bairros de Cuiabá, numa verdadeira comunhão de afeto e carinho.
Nunca deixava uma visita sem resposta.
Estava sempre indo reencontrar amigas, quase sempre acompanhada dos filhos mais velhos.
Foi assim que aprendi a conhecer os costumes dos antigos cuiabanos e a importância de uma conversa sem pressa.
Nessas visitas, a dona da casa preparava sucos com frutas do quintal, oferecia guloseimas guardadas em latas de alumínio, ou fritava, na hora os inesquecíveis sonhos da minha infância.
Era gostoso ser criança naquele tempo, quando a cidade, com suas ruas, becos, praças, córregos, morros e jardins, parecia um grande parque de diversões.
Os quintalões arborizados sombreavam generosamente as ruas, refrescando a velha Cuiabá.
A Cuiabá de trezentos anos, aquela da minha infância, foi aos poucos se afastando.
Muitos moradores deixaram os antigos bairros e seguiram para condomínios modernos e fechados, onde, muitas vezes, os vizinhos mal se conhecem.
Talvez por isso as visitas já não durmam mais em casa.
Porque certas intimidades também desapareceram com o tempo.
Gabriel Novis Neves
15-05-2026
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