sábado, 23 de maio de 2026

ALMOÇOS SEM HORA PARA ACABAR


Há almoços que terminam depressa, quase por obrigação.

 

E há aqueles que se prolongam naturalmente, porque ninguém deseja deixar a mesa.

 

Nos feriados e fins de semana isso acontecia com mais facilidade.

 

A comida já havia sido servida, os pratos esfriaram devagar, mas a conversa continuava viva.

 

Um assunto puxava outro.

 

Uma lembrança chamava outra.

 

E, sem percebemos, a mesa deixava de ser apenas lugar de comer: transformava-se em abrigo de família.

 

Agora, na velhice, observo melhor os almoços familiares.

 

Sou quase sempre o primeiro a levantar para a soneca estatutária.

 

Do dormitório ainda escuto o barulho bom dos filhos, netos e bisnetos reunidos em volta da mesa.

 

Depois do breve descanso, volto à sala e encontro a mesma cena: a mesa ainda ocupada, as conversas correndo soltas, as risadas misturadas às lembranças.

 

São nesses momentos que percebo como esse antigo hábito de reunir a família aos fins de semana vai desaparecendo aos poucos.

 

As desculpas são muitas.

 

A correria da vida moderna parece engolir os encontros familiares.

 

Antigamente, chegava-se cedo ao almoço.

 

Havia tempo para conversar antes da comida, comer um pastel, beliscar um aperitivo e colocar a conversa em dia.

 

Hoje, muitos chegam apressados, alguns quando a refeição já começou.

 

E o almoço, às vezes, termina tão rápido, que mais parece um lanche de esquina!

 

Nas famílias antigas, especialmente em Cuiabá, os almoços não tinham hora para acabar.

 

Quando o ambiente era alegre, o almoço atravessava a tarde e, não raro, emendava com o jantar.

 

E como era bom permanecer ali, entre conversas, brincadeiras e afetos silenciosos.

 

Talvez a felicidade morasse justamente nisso: numa mesa cheia e sem pressa de terminar.

 

Gabriel Novis Neves

14-05-2026




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