sábado, 23 de maio de 2026

A CIDADE SEM BUZINAS


Uma cidade sem buzinas parece outra cidade.

 

O mesmo asfalto, as mesmas esquinas, os mesmos prédios, mas com uma alma diferente.

 

O silêncio permite ouvir sons esquecidos: uma ave, uma vassoura riscando a calçada, uma conversa baixa, o vento passando pelas árvores.

 

Quem viveu a Cuiabá antiga sabe que a cidade também tinha seus barulhos, mas eram sons humanos, reconhecíveis, quase familiares.

 

As buzinas dos automóveis, que durante a semana tanto incomodam, formam uma espécie de orquestra desordenada da vida moderna.

 

Curiosamente, quando desaparecem, sentimos que falta alguma coisa.

 

Escrevo do escritório no vigésimo andar de um edifício, em uma manhã de domingo e percebo essa ausência.  

 

Estou condicionado ao ruído da cidade.

 

Vou até a janela e tudo parece diferente.

 

As ruas estão quase vazias.

 

Não há vozes, passos apressados, motores impacientes.

 

Até as folhas das árvores parecem imóveis.

 

Não temos em Cuiabá o apito dos trens nem das embarcações dos grandes portos.

 

Os sons que chegam até a mim aos domingos são outros: um portão abrindo devagar, uma conversa distante, o canto de uma ave solitária. É um silêncio que devolve à cidade uma alma antiga.

 

Percebo, então, que o barulho também é vida. 

 

Criança saudável nasce gritando.

 

O silêncio, naquele instante, preocupa. Aniversário faz barulho.

 

Quando tudo silencia, sabemos que a festa terminou.

 

O próprio corpo humano produz seus ruídos: o coração pulsa, os pulmões respiram, o estômago reclama, a vida se anuncia pelos sons.

 

Também a cidade fala através deles.

 

Precisamos aprender a conviver com a linguagem do ruído e do silêncio.

 

Uma cidade completamente silenciosa parece perder parte da própria identidade.

 

Talvez precisemos das buzinas, dos passos, das vozes e dos pequenos ruídos cotidianos para sentirmos que a vida continua circulando entre nós.

 

No fundo, é o equilíbrio entre o silêncio e o barulho que dá alma às cidades — e também às pessoas.

 

Gabriel Novis Neves

18-05-2026




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