sábado, 10 de janeiro de 2026

SAPATOS CONFORTÁVEIS DEMAIS

 

Há sapatos que não apertam, não machucam, não incomodam.

 

Mas também não nos levam longe.

 

O conforto excessivo, tanto nos pés quanto na vida, pode virar acomodação.

 

Na escola primária, meu pai sempre me orientava a comprar sapatos na Casa Athayde, no início da rua 13 de junho.

 

Ficava ao lado da farmácia do seo Vieira, quase em frente à Casa Granja.

 

Quem nos atendia era o seo Fávila Palma, homem paciente e experiente.

 

Meu pai pedia sempre um sapato resistente e um número maior que o meu.

 

Eu crescia rápido.

 

Aos dezoito anos, já tinha um metro e oitenta e cinco de altura e calçava quarenta e três.

 

Foi quando conheci o famoso ‘tanque colegial’, com traves metálicas laterais e reforço no calcanhar.

 

No começo, colocava algodão na ponta dos pés para preencher o espaço vazio.

 

Depois, o pé crescia, o algodão saía e o sapato apertava.

 

Usava até o couro ceder, furar, pedir socorro. Só então vinha a troca, quase sempre depois de várias visitas ao sapateiro.

 

Assim era a vida da criança em Cuiabá: simples, resistente e sem excessos

 

Hoje, ao recordar essas cenas, penso nas dificuldades que meus pais enfrentaram para educar nove filhos.

 

Os mais velhos precisaram sair da cidade para estudar no Rio de Janeiro.

 

Os mais novos já encontraram aqui a universidade, construída com o esforço coletivo — e com a participação de um dos filhos.

 

Que satisfação tiveram meus pais ao verem o dever cumprido.

 

Sapatos confortáveis demais não nos fazem avançar.

 

Logo se gastam, perdem a forma, acomodam o pé.

 

A vida segue a mesma lógica.

 

O excesso de conforto nos afasta do crescimento.

 

Aprendi que o melhor caminho é o do equilíbrio: ter conforto suficiente para caminhar, mas nunca tanto a ponto de nos impedir de seguir adiante.

 

Na vida como nos pés, tudo é ensinamento — desde que se preste atenção.

 

Gabriel Novis Neves

07-01-2025


Gabriel aos 18 anos de idade 




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