Houve um tempo em que não ter compromisso era normal.
Hoje, o vazio da agenda causa estranhamento e até culpa.
Naquele tempo as horas passavam sem relógio no pulso e sem avisos sonoros.
O dia se abria largo, disponível e a gente o ocupava com o que surgisse: uma conversa na porta de casa, uma cadeira puxada para a calçada, um olhar demorado para o céu.
Não havia pressa em preencher o tempo.
Ele era nosso aliado, não um inimigo a ser vencido.
Ficar sem fazer nada não era sinal de improdutividade, mas de pertencimento ao ritmo natural da vida.
O ócio tinha nomes simples: descanso, observação, silêncio.
Hoje, talvez tenhamos desaprendido a estar disponíveis para o nada — esse espaço fértil onde muitas coisas importantes acontecem.
Escrevo sobre a minha juventude, quando tudo se dava assim.
O ócio era palavra feia, quase um defeito, até que um escritor italiano publicou um livro com o título Ócio Criativo.
Ele percorreu o mundo fazendo palestras em universidades e na televisão, explicando que o ócio não era apenas descanso, mas uma ocasião fértil onde ideias nascem e amadurecem.
A criação exige tempo, exige atenção para interpretar aquilo que o não fazer nada nos oferece.
Isaac Newton, físico, matemático e astrônomo inglês do século XVII, estava sentado debaixo de uma macieira, em aparente ociosidade, quando percebeu a queda de uma maçã — fato que o inspirou a desenvolver a teoria da gravitação.
Pensou que deveria haver uma razão para a maçã cair no chão e não subir aos céus.
Chegou, então, à conclusão de que existe uma força exercida pela Terra que atrai todos os objetos para baixo.
Fantasias à parte, Newton trabalhava muito e dormia apenas três a quatro horas por noite, dedicado aos estudos.
Na farmacologia médica, há inúmeros relatos de descobertas feitas pela simples observação atenta de cientistas.
Não ter o que fazer, muitas vezes, faz bem à coletividade.
Gabriel Novis Neves
04-01-2025
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