Meu amigo saía de casa com o guarda-chuva no braço num dia de sol.
Não por previsão, mas por hábito.
Carregar o que talvez não seja necessário nos dá uma falsa sensação de segurança.
Fazemos isso com palavras, com defesas, com silêncios.
O guarda-chuva pesava no braço e me lembrava quantos medos carregamos sem precisar.
Às vezes o céu está limpo e ainda assim insistimos em andar protegidos.
Confiar no dia também é uma forma de coragem.
Conheci muitos cuiabanos em tempos passados que tinham esse costume.
Mesmo com o sol de rachar, carregavam chapéus, capas e precauções exageradas.
No Colégio Estadual de Mato Grosso, onde cursei o primeiro e o segundo ano, dois dos meus professores mais conhecidos mantinham esse hábito.
Temiam contrair pneumonia pulmonar.
Naquele tempo a penicilina injetável começava a chegar por aqui.
Muitos padeciam de tuberculose pulmonar, obrigando a Santa Casa de Misericórdia a isolar uma das suas alas para tratar esses pacientes.
O Ministério da Saúde, em convênio com o Governo do Estado, iniciou então a construção de um hospital destinado à tuberculose — no local onde hoje funciona o Hospital Universitário Júlio Muller.
Atualmente a tuberculose pulmonar é tratada nos ambulatórios do SUS.
Existem vacinas eficazes contra a tuberculose e contra a pneumonia.
Lembro também de um vizinho, historiador, secretário perpétuo da nossa Academia de Letras, pessoa queridíssima na cidade, que só saía de casa, com um revólver na cintura.
Os exemplos são claros: quantos medos carregamos sem a mínima necessidade.
Em 1969, quando exercia o cargo de secretário de Educação no governo Pedrossian, visitei alguns países do Leste Europeu.
Uma das recomendações do governador era conhecer um hospital de tuberculosos, já que estávamos construindo um em Cuiabá.
Na Romênia, a tuberculose estava erradicada.
Quando surgia algum caso, o paciente era encaminhado apenas para estudo nas faculdades de Medicina.
E assim, o guarda-chuva levado no braço, sem chuva, virou história — e lição.
Gabriel Novis Neves
02-01-2025
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.