Guardei uma chave antiga numa gaveta, sem saber ao certo o que ela abria.
Talvez uma porta, talvez uma memória.
As chaves perdem a função, mas conservam histórias.
Hoje, senhas substituíram o ferro e o segredo virou número.
A chave pesava no bolso e ensinava responsabilidade.
Perdê-la era tragédia.
Agora, perdemos códigos o tempo todo e seguimos adiante, quase sem notar.
A chave antiga não abre portas, mas destranca lembranças que ainda resistem.
Guardo tanta bobagem nas minhas gavetas, e não sei por quê, a não ser para libertar lembranças teimosas.
Cada chave antiga que guardo é um instante da minha vida.
Sou saudosista.
Rememorar me faz bem.
Quantas passagens de ano atravessei.
Todas diferentes, cada uma com sua própria história.
Dormindo, estudando, dançando, namorando.
Hoje me restam as lembranças e uma noite de sono.
Com saúde, mas o tempo — senhor da verdade — contendo os arroubos da juventude.
Tenho várias chaves existenciais que, na passagem do ano, me empurram para um passado longínquo.
Diz um velho provérbio que quando o futuro é incerto, o melhor é voltar ao passado.
Meu futuro não é incerto, é curto.
Sou filho da natureza, e ela determina seus limites.
As chaves, como as pessoas, com o tempo perdem suas funções.
Sobra algo que ainda é nosso: a vontade de viver.
Acompanhar o crescimento dos bisnetos.
Responsabilidade sem ambição de vê-los formados ou casados.
A vida é um chaveiro que um dia servirá apenas para pesar no bolso.
Brincar com as palavras é parte do tabuleiro das lembranças que insistem em não ser esquecidas.
Teclo nesta passagem de ano, esquecendo que o ano terminou, mas o mundo continua.
Talvez, no ano que vem, eu esteja novamente catando palavras para compor outra crônica.
Gabriel Novis Neves
31-12-2025
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