quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

DECIDINDO FICAR


Houve um dia em que não saí de casa — não por doença nem por preguiça, mas por uma decisão silenciosa.

 

A rua continuou lá fora, com seus ruídos habituais: carros passando, gente apressada, compromissos marcados.

 

Dentro de casa, o tempo andou diferente. Observei os móveis, as paredes conhecidas, os objetos que já não pedem atenção.

 

Ficar foi uma forma de escuta.

 

Às vezes, sair é fácil; difícil é permanecer.

 

Não sair de casa naquele dia foi um gesto simples, quase invisível, mas cheio de significado.

 

Foi o dia em que fiquei comigo mesmo.

 

Na vida agitada, sobra pouco tempo para a gente ficar com a gente, conversando com a gente.

 

Também ouvindo a gente.

 

E como é gostoso ficar com a gente!

 

As crianças têm o hábito de conversar baixinho com elas mesmas.

 

Não percebem o tempo passar e, de repente é noite.

 

Conversam dormindo em um idioma que só existe no sono.

 

Não existe obrigação de sair à rua — uma invenção mais social do que necessidade real.

 

Parece que até o tempo funcionou diferente.

 

Observei os móveis, alguns transformados em ilustres desconhecidos pela pressa constante de estar nas ruas.

 

Objetos que já não me diziam nada.

 

O barulho da rua é maior quando a gente está em casa.

 

É mais fácil sair do que ficar.

 

Sair lembra trabalho, compromisso, obrigações.

 

Ficar lembra descanso, repouso, observação.

 

Hoje, vivo mais em casa, sem saudade da rua, outrora fonte de riqueza material.

 

Sair tornou-se exceção.

 

Os dias passaram a se parecer uns com os outros.

 

Virou um programão sair de casa, exigindo tempo e planejamento.

 

O dia em casa, para mim, é mais curto do que o dia na rua.

 

Durmo como os passarinhos: escureceu, dormi.

 

Acordo com o sol alto, ainda com sono.

 

Prefiro minha cama no quarto ao carro na garagem, sempre pronto para sair.

 

Gabriel Novis Neves

06-01-2026




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