sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O PRATO QUE SOBROU NA MESA


Depois do almoço um prato ficou esquecido sobre a mesa.

 

Não era descuido, era sobra de conversa. Alguém saiu antes do fim, alguém falou menos do que queria.

 

O prato vazio carregava silêncio.

 

Antigamente, a mesa só era desfeita quando tudo estava dito.

 

Hoje, levantamos antes que o assunto termine.

 

O prato esquecido é sinal de que a convivência anda apressada e de que nem sempre damos tempo ao que precisa ser digerido — não apenas a comida, mas as palavras.

 

Os tempos atuais nos trouxeram a pressa, inimiga da perfeição.

 

Ela interferiu até no nosso linguajar arrastado, na fala com a boca aberta, tentando melhorar a respiração.

 

Nem o calor é mais o mesmo de antigamente.

 

O verão chegou com pancadas repetidas de chuva.

 

No interior, especialmente no Nortão, elas são mais fortes e insistentes.

 

As cuidadoras foram visitar parentes e, na ida e na volta enfrentaram o chuvaréu, com visibilidade difícil nas estradas.

 

Uma delas ficou para almoçar comigo, neste primeiro dia de 2026.

 

A comida veio de um bufê sofisticado, acompanhada de um papel impresso explicando o que eu iria comer.

 

Essa mania de afrancesar a comida, nem sempre agrada ao meu paladar.

 

Antigamente, os almoços da minha casa eram cheios de conversa.

 

A vida me levou a fazer refeições em silêncio —e talvez isso interfira no sabor do alimento.

 

Hoje, meu prato nunca fica esquecido: é único, e deixa a mesa comigo.

 

Almoçar conversando é um hábito que perdi com o tempo.

 

A vida nos ensina, diariamente, novos caminhos.

 

Não sei se para melhor ou para pior.

 

Essa estatística é difícil de fazer — e, muitas vezes, não temos tempo sequer de pensá-la.

 

Termina o primeiro dia do ano novo, com suas superstições e festas.

 

Agora, tudo é carnaval, férias e a roda da vida continua a girar.

 

Gabriel Novis Neves

01-01-2026




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.