Depois do almoço um prato ficou esquecido sobre a mesa.
Não era descuido, era sobra de conversa. Alguém saiu antes do fim, alguém falou menos do que queria.
O prato vazio carregava silêncio.
Antigamente, a mesa só era desfeita quando tudo estava dito.
Hoje, levantamos antes que o assunto termine.
O prato esquecido é sinal de que a convivência anda apressada e de que nem sempre damos tempo ao que precisa ser digerido — não apenas a comida, mas as palavras.
Os tempos atuais nos trouxeram a pressa, inimiga da perfeição.
Ela interferiu até no nosso linguajar arrastado, na fala com a boca aberta, tentando melhorar a respiração.
Nem o calor é mais o mesmo de antigamente.
O verão chegou com pancadas repetidas de chuva.
No interior, especialmente no Nortão, elas são mais fortes e insistentes.
As cuidadoras foram visitar parentes e, na ida e na volta enfrentaram o chuvaréu, com visibilidade difícil nas estradas.
Uma delas ficou para almoçar comigo, neste primeiro dia de 2026.
A comida veio de um bufê sofisticado, acompanhada de um papel impresso explicando o que eu iria comer.
Essa mania de afrancesar a comida, nem sempre agrada ao meu paladar.
Antigamente, os almoços da minha casa eram cheios de conversa.
A vida me levou a fazer refeições em silêncio —e talvez isso interfira no sabor do alimento.
Hoje, meu prato nunca fica esquecido: é único, e deixa a mesa comigo.
Almoçar conversando é um hábito que perdi com o tempo.
A vida nos ensina, diariamente, novos caminhos.
Não sei se para melhor ou para pior.
Essa estatística é difícil de fazer — e, muitas vezes, não temos tempo sequer de pensá-la.
Termina o primeiro dia do ano novo, com suas superstições e festas.
Agora, tudo é carnaval, férias e a roda da vida continua a girar.
Gabriel Novis Neves
01-01-2026
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