Sou de uma família numerosa.
Por parte dos meus avós paternos eram quinze filhos; dos maternos, oito.
Na minha casa éramos nove irmãos, e eu, o mais velho.
Cresci acostumado com muita gente dentro de casa, o que lhe dava sempre um ar festivo, barulhento e acolhedor.
As festividades do Ano Novo mal se encerram no Dia de Santos Reis Magos, e já iniciamos o longo período dos aniversários.
Contribuo, por enquanto, com dezessete datas comemorativas, o que significa mais de uma festa por mês.
Se somarmos os aniversários dos meus irmãos e descendentes, fazendo um simples cálculo aritmético, festejamos nascimentos praticamente todas as semanas — às vezes, dois no mesmo dia.
Isso é muito bom.
Estamos sempre reunidos, celebrando a vida.
A parte triste é a biologia, que insiste em desfalcar o número de presentes.
Somos uma família longeva, e hoje sou eu quem carrega o bastão dos Novis Neves.
Tenho pensado muito sobre isso.
Meu tempo parece, a cada dia, mais curto.
Há quase dez anos pouco saio de casa e, quando necessário, recorro à cadeira de rodas, à cuidadora e aos automóveis adaptados para transportá-la.
Confesso que não estou preparado para essa transição.
Penso muito nisso e, às vezes, fico apavorado.
Gosto de estar aqui e da vida que levo, sem pressa, embora com todas as restrições que a idade impõem.
Conto com uma memória que ainda me favorece, permitindo escrever sobre a minha cidade e o cotidiano.
Isso me ajuda a fazer o tempo passar de maneira suave.
Vivo cada dia sem a mínima correria.
Dou graças a Deus todos os dias em que acordo com saúde, depois de um sono prolongado.
Deixo meus dias registrados no blog Bar do Bugre, como marca de um tempo vivido.
A tecnologia me permite estar sempre conversando com amigos, por vídeo ou WhatsApp.
São conversas simples, que talvez só interessem aos idosos — mas que nos faz muito bem.
Termino de escrever esta crônica e a envio à revisora.
Depois de reler, o editor assume a responsabilidade pela publicação ilustrada no blog do bar-do-bugre.blogspot.com.br
Essa é a minha arma para vencer a pressa aos noventa anos.
Gabriel Novis Neves
10-01-2026
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