Escrevo diariamente um texto sobre o cotidiano, em média com trezentas palavras. Assino meu nome por inteiro e faço questão de datar cada crônica.
Uma leitora assídua, atenta até ao dia em que publiquei o texto, chamou-me a atenção para um detalhe curioso.
O pior é que, na crônica em que escrevi não ter pressa, fiz exatamente o contrário na prática: coloquei o ano de 2027.
Isso me levou a revisar outras crônicas publicadas neste início de ano.
Encontrei também datas de 2025.
Conclusão inevitável: ainda não me adaptei ao ano de 2026.
São esses pequenos detalhes que qualificam o escritor.
É preciso estar atento, sobretudo às coisas simples, como as datas, que silenciosamente denunciam nossas distrações.
Antigamente, a família se reunia para o almoço aos domingos.
Era ali que ficávamos sabendo das novidades e acompanhávamos o crescimento dos filhos e dos netos.
Vez por outra surgia uma visita não convidada, para nossa alegria, atraída pela fama do pastelzinho preparado pela Baixinha.
Com o tempo e as exigências do trabalho, esses almoços passaram para os sábados.
Mesmo assim, sempre falta alguém.
Como essa criançada viaja!
Ficarei quase um mês sem ver os meus bisnetos: a Bela, a Nina, o JG e a Vale.
Imagino como voltarão diferentes, impregnados de outras culturas.
As crianças do meu tempo eram bem diferentes das de agora.
Todas frequentavam a mesma escola pública, o mesmo postinho de saúde, a mesma igreja. Brincavam na mesma praça e todos esses trajetos eram feitos a pé.
As visitas às casas de parentes e às amigas da minha mãe aconteciam nos domingos à tarde.
Éramos todos iguais, e não nos faltava o essencial.
Como eu gostaria de datar esta crônica como se estivesse escrevendo em janeiro de 1946!
O diabo do tempo é que ele não volta atrás, e o que passou virou lembrança.
Curtir o passado é celebrar a inocência e um tempo sem maldade.
Resta-me apenas me adaptar ao presente — ao menos aprendendo a datar corretamente o ano em que vivo.
Gabriel Novis Neves
10-01-2026
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