segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

AINDA NÃO ME ADAPTEI


Escrevo diariamente um texto sobre o cotidiano, em média com trezentas palavras. Assino meu nome por inteiro e faço questão de datar cada crônica.

 

Uma leitora assídua, atenta até ao dia em que publiquei o texto, chamou-me a atenção para um detalhe curioso.

 

O pior é que, na crônica em que escrevi não ter pressa, fiz exatamente o contrário na prática: coloquei o ano de 2027.

 

Isso me levou a revisar outras crônicas publicadas neste início de ano.

 

Encontrei também datas de 2025.

 

Conclusão inevitável: ainda não me adaptei ao ano de 2026.

 

São esses pequenos detalhes que qualificam o escritor.

 

É preciso estar atento, sobretudo às coisas simples, como as datas, que silenciosamente denunciam nossas distrações.

 

Antigamente, a família se reunia para o almoço aos domingos.

 

Era ali que ficávamos sabendo das novidades e acompanhávamos o crescimento dos filhos e dos netos.

 

Vez por outra surgia uma visita não convidada, para nossa alegria, atraída pela fama do pastelzinho preparado pela Baixinha.

 

Com o tempo e as exigências do trabalho, esses almoços passaram para os sábados.

 

Mesmo assim, sempre falta alguém.

 

Como essa criançada viaja!

 

Ficarei quase um mês sem ver os meus bisnetos: a Bela, a Nina, o JG e a Vale.

 

Imagino como voltarão diferentes, impregnados de outras culturas.

 

As crianças do meu tempo eram bem diferentes das de agora.

 

Todas frequentavam a mesma escola pública, o mesmo postinho de saúde, a mesma igreja. Brincavam na mesma praça e todos esses trajetos eram feitos a pé.

 

As visitas às casas de parentes e às amigas da minha mãe aconteciam nos domingos à tarde.

 

Éramos todos iguais, e não nos faltava o essencial.

 

Como eu gostaria de datar esta crônica como se estivesse escrevendo em janeiro de 1946!

 

O diabo do tempo é que ele não volta atrás, e o que passou virou lembrança.

 

Curtir o passado é celebrar a inocência e um tempo sem maldade.

 

Resta-me apenas me adaptar ao presente — ao menos aprendendo a datar corretamente o ano em que vivo.

 

Gabriel Novis Neves

10-01-2026




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