Antes, visita não telefonava.
Chegava.
Batida de palmas no portão, conversa atravessada pela janela, cadeira puxada sem cerimônia.
A casa se adaptava à visita, não o contrário.
Ninguém pedia desculpa pela surpresa.
A surpresa era a própria alegria.
O café era passado às pressas, o bolo era o que houvesse, a conversa era longa.
O relógio perdia importância.
Hoje, visita precisa combinar, confirmar, avisar de novo.
Perdeu-se a graça do inesperado.
A visita sem aviso trazia notícias, risadas e, às vezes, apenas presença.
E isso bastava.
Era sinal de intimidade.
De portas abertas.
De confiança.
Talvez por isso faça tanta falta.
A visita inesperada quebrava a rotina como quem abre uma janela.
Entrava vento, entrava assunto novo, entrava vida.
Não se perguntava quanto tempo ficaria.
Ficava o tempo que desse, o tempo que pedisse.
As casas eram preparadas para receber gente. Havia sempre uma cadeira sobrando, um copo limpo no escorredor, um resto de bolo guardado para “se alguém chegar”.
E alguém sempre chegava.
Falava-se do calor, da saúde, dos filhos, das pequenas alegrias e dos problemas grandes. Repetiam-se histórias antigas, já conhecidas, mas nunca cansativas.
A repetição era parte do afeto.
Hoje, as casas se fecharam.
Portões, interfones, senhas, agendas.
A visita virou compromisso.
Tem hora marcada para chegar e, quase sempre, hora certa para sair.
O improviso incomoda.
Talvez porque o tempo tenha encolhido.
Ou porque aprendemos a proteger demais o espaço e esquecemos de proteger os vínculos.
Sinto falta da visita que chegava sem avisar, não para comer nem beber, mas para estar. Para sentar um pouco, respirar junto, dividir o silêncio.
A visita inesperada era um gesto simples de afeto.
Um jeito silencioso de dizer: passei por aqui porque você me faz falta.
Gabriel Novis Neves
01-01-2026
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