domingo, 11 de janeiro de 2026

VISITAS INESPERADAS


Antes, visita não telefonava.

 

Chegava.

 

Batida de palmas no portão, conversa atravessada pela janela, cadeira puxada sem cerimônia.

 

A casa se adaptava à visita, não o contrário.

 

Ninguém pedia desculpa pela surpresa. 

 

A surpresa era a própria alegria.

 

O café era passado às pressas, o bolo era o que houvesse, a conversa era longa.

 

O relógio perdia importância.

 

Hoje, visita precisa combinar, confirmar, avisar de novo.

 

Perdeu-se a graça do inesperado.

 

A visita sem aviso trazia notícias, risadas e, às vezes, apenas presença.

 

E isso bastava.

 

Era sinal de intimidade.

 

De portas abertas.

 

De confiança.

 

Talvez por isso faça tanta falta.

 

A visita inesperada quebrava a rotina como quem abre uma janela.

 

Entrava vento, entrava assunto novo, entrava vida.

 

Não se perguntava quanto tempo ficaria.

 

Ficava o tempo que desse, o tempo que pedisse.

 

As casas eram preparadas para receber gente. Havia sempre uma cadeira sobrando, um copo limpo no escorredor, um resto de bolo guardado para “se alguém chegar”.

 

E alguém sempre chegava.

 

Falava-se do calor, da saúde, dos filhos, das pequenas alegrias e dos problemas grandes. Repetiam-se histórias antigas, já conhecidas, mas nunca cansativas.

 

A repetição era parte do afeto.

 

Hoje, as casas se fecharam.

 

Portões, interfones, senhas, agendas.

 

A visita virou compromisso.

 

Tem hora marcada para chegar e, quase sempre, hora certa para sair.

 

O improviso incomoda.

 

Talvez porque o tempo tenha encolhido.

 

Ou porque aprendemos a proteger demais o espaço e esquecemos de proteger os vínculos.

 

Sinto falta da visita que chegava sem avisar, não para comer nem beber, mas para estar. Para sentar um pouco, respirar junto, dividir o silêncio.

 

A visita inesperada era um gesto simples de afeto.

 

Um jeito silencioso de dizer: passei por aqui porque você me faz falta.

 

Gabriel Novis Neves

01-01-2026




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