A manhã nasceu calma, sem pedir pressa.
O sol entrou pela janela com delicadeza, como quem pede licença.
Não havia compromissos imediatos, nem horários marcados.
Levantei devagar, respeitando o ritmo do corpo.
O café foi preparado sem ansiedade.
Sentei-me à mesa e fiquei ali por alguns minutos, apenas olhando o dia começar.
Pensei em como raramente nos permitimos esse luxo: viver sem urgência.
A manhã parecia agradecer o silêncio.
E eu agradeci por poder acompanhá-la sem correria, como quem não precisa chegar antes de si mesmo.
Vivemos hoje no mundo da pressa.
Acordamos com a sensação de tempo perdido, como se o dia já começasse atrasado.
Travamos uma guerra contra o relógio e, nessa batalha inútil, deixamos de apreciar a beleza da lentidão da natureza quando ela não exige rapidez.
O sol nasce todos os dias no mesmo lugar, no mesmo horário, e se recolhe com igual tranquilidade.
Não demonstra pressa em cumprir seu percurso.
Parei para pensar na disciplina silenciosa do mundo animal, onde a pressa é desconhecida e tudo funciona em perfeita harmonia.
Cada ser sabe o que fazer, no espaço que lhe é destinado.
É reconfortante pensar nisso — e também na vida que se move sob os rios e oceanos, ou na rotina daqueles que habitam os polos Norte e Sul.
Ao lembrar desses ambientes, percebo como nós, humanos apressados, somos pobres em paciência.
Minha filha e sua família estão visitando a Suíça.
Além da beleza das cidades, que parecem cartões-postais, chama atenção a educação do povo e a eficiência dos serviços públicos — tudo funcionando sem atropelos, com conforto e respeito ao tempo.
Alugaram automóveis, símbolo moderno da pressa, mas os deixaram na garagem dos hotéis, preferindo o VLT para circular com quatro crianças.
Em contraste, a imagem de Cuiabá é da cidade apressada: trânsito engarrafado e transporte público de qualidade sofrível.
Essa pressa, afinal, herdamos de quem?
Dos indígenas, primeiros habitantes desta terra, que nunca tiveram pressa?
Ou dos portugueses nossos colonizadores, para quem a vida também corria devagar, quase parando?
Talvez a pressa seja invenção recente —um vício moderno que não combina com o corpo, nem com a alma.
Naquela manhã sem urgência, aprendi que desacelerar não é perder tempo.
É, antes, reaprender a habitá-lo.
Gabriel Novis Neves
22-01-2026
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