sábado, 24 de janeiro de 2026

MANHÃ SEM PRESSA


A manhã nasceu calma, sem pedir pressa. 

 

O sol entrou pela janela com delicadeza, como quem pede licença. 

 

Não havia compromissos imediatos, nem horários marcados. 

 

Levantei devagar, respeitando o ritmo do corpo. 

 

O café foi preparado sem ansiedade. 

 

Sentei-me à mesa e fiquei ali por alguns minutos, apenas olhando o dia começar. 

 

Pensei em como raramente nos permitimos esse luxo: viver sem urgência. 

 

A manhã parecia agradecer o silêncio. 

 

E eu agradeci por poder acompanhá-la sem correria, como quem não precisa chegar antes de si mesmo.

 

Vivemos hoje no mundo da pressa.

 

Acordamos com a sensação de tempo perdido, como se o dia já começasse atrasado.

 

Travamos uma guerra contra o relógio e, nessa batalha inútil, deixamos de apreciar a beleza da lentidão da natureza quando ela não exige rapidez.  

 

O sol nasce todos os dias no mesmo lugar, no mesmo horário, e se recolhe com igual tranquilidade.

 

Não demonstra pressa em cumprir seu percurso.

 

Parei para pensar na disciplina silenciosa do mundo animal, onde a pressa é desconhecida e tudo funciona em perfeita harmonia.

 

Cada ser sabe o que fazer, no espaço que lhe é destinado.

 

É reconfortante pensar nisso — e também na vida que se move sob os rios e oceanos, ou na rotina daqueles que habitam os polos Norte e Sul.

 

Ao lembrar desses ambientes, percebo como nós, humanos apressados, somos pobres em paciência.

 

Minha filha e sua família estão visitando a Suíça.

 

Além da beleza das cidades, que parecem cartões-postais, chama atenção a educação do povo e a eficiência dos serviços públicos — tudo funcionando sem atropelos, com conforto e respeito ao tempo.

 

Alugaram automóveis, símbolo moderno da pressa, mas os deixaram na garagem dos hotéis, preferindo o VLT para circular com quatro crianças.

 

Em contraste, a imagem de Cuiabá é da cidade apressada: trânsito engarrafado e transporte público de qualidade sofrível.

 

Essa pressa, afinal, herdamos de quem?

 

Dos indígenas, primeiros habitantes desta terra, que nunca tiveram pressa?

 

Ou dos portugueses nossos colonizadores, para quem a vida também corria devagar, quase parando?

 

Talvez a pressa seja invenção recente —um vício moderno que não combina com o corpo, nem com a alma.

 

Naquela manhã sem urgência, aprendi que desacelerar não é perder tempo.

 

É, antes, reaprender a habitá-lo.

 

Gabriel Novis Neves

22-01-2026




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