O convite chegou como tantos outros.
Li com atenção, pensei por alguns minutos e respondi que não iria.
Sem desculpas longas, sem justificativas.
A resposta foi simples.
O mais curioso foi a sensação que veio depois.
Não senti culpa, nem arrependimento.
Senti paz.
Aprender a recusar é um exercício difícil.
Passamos a vida aceitando compromissos por obrigação.
Dizer não, às vezes, é um gesto de cuidado.
Com o tempo aprendi que presença forçada não é presença verdadeira.
Fui obrigado a aceitar inúmeros convites por dever de ofício.
Eram solenidades e atos oficiais.
Depois que me vi livre desses cargos, aposentei-me também dos convites.
Passei o restante da vida distante dos holofotes sociais.
Prefiro ser procurado em casa.
Como sou longevo, quase ninguém mais me convida, e eu raramente convido alguém para me visitar.
Passo os dias no escritório escrevendo e lendo, à espera do sábado.
É quando a família se reúne para o almoço semanal.
Os bisnetos sempre têm novidades a contar.
Vivem uma infância que eu nunca imaginei existir.
As meninas, com dois, oito e nove anos, e o menino, com cinco, estão na Suíça esquiando.
Segundo a avó que os acompanha, contou-me por telefone, que o comportamento deles tem sido exemplar.
Com exceção da menorzinha, os outros estudam em escola inglesa, o suficiente para se comunicarem na estação de esqui.
Aliás, as crianças se entendem em qualquer lugar do mundo.
Parece que o idioma da infância é único.
Fico encantado com o encontro entre crianças.
Meus pais, com baixa escolaridade e poucos recursos financeiros, nos educaram e nos deram formação superior.
Nós aperfeiçoamos esse ensino e mostramos aos nossos filhos, netos e agora bisnetos outras culturas.
Quem possui esse tesouro em casa, como eu, não precisa aceitar convites para sair.
Basta esperá-los em paz.
Gabriel Novis Neves
21-01-2025
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