O relógio marcava as horas, mas não apressava ninguém.
Era um daqueles dias em que o tempo parecia caminhar descalço, sem pressa de chegar.
Acordei sem compromisso marcado, sem horários a cumprir.
O café foi tomado devagar, quase em silêncio, respeitando o ritmo da manhã.
Olhei o relógio algumas vezes, mais por hábito do que por necessidade.
Ele estava lá, cumprindo sua função, mas sem impor urgência.
Pensei em como passamos a vida correndo atrás dos ponteiros.
Comecei a usar relógio de pulso aos quinze anos e, por muito tempo, dormia consultando as horas.
Criei uma relação quase obsessiva com o tempo, sempre atento ao movimento dos ponteiros.
Com a idade, percebi como fomos condicionados a viver apressados, obedientes a números que nunca esperam.
Hoje não tenho relógios pregados nas paredes da casa, nem mesmo na mesa de cabeceira do dormitório.
Os antigos relógios suíços foram substituídos pelos celulares modernos.
Eles não têm ponteiros, mas sabem despertar, avisar compromissos e nos lembrar, o tempo todo, de que algo precisa ser feito.
Sinto saudade do relógio da varanda da antiga casa, com seus ponteiros grandes e visíveis.
Produzia um ruído característico, um som quase doméstico, que fazia parte do ambiente. Sem perceber, olhávamos para ele.
Marcava as horas, mas não nos empurrava.
Existia ali uma convivência silenciosa e respeitosa entre o tempo e a vida.
O horário foi tão importante na vida do brasileiro que, no Rio de Janeiro, existiu uma emissora dedicada a anunciar a hora certa minuto a minuto!
A Rádio Relógio marcou uma época, ensinando pontualidade sem ansiedade.
Ainda existe, embora transformada, como tantas coisas que o tempo remodela.
Hoje aprendi que o melhor relógio é aquele que nos acompanha sem cobrança.
O tempo passa do mesmo jeito.
A diferença está em como escolhemos caminhar com ele.
Gabriel Novis Neves
19-01-2025
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