Continuei fazendo por costume.
Não havia mais necessidade, nem utilidade clara.
Era um hábito antigo, desses que atravessam os anos sem pedir explicação.
Percebi isso numa manhã comum, enquanto repetia o gesto automaticamente.
Parei por um instante e me perguntei por quê.
Não soube responder.
Alguns hábitos sobrevivem à razão.
Ficam por afeto, por memória, por medo de mudar.
Eles não atrapalham, mas também não ajudam.
Apenas ocupam um espaço confortável no nosso dia a dia.
Quantos hábitos me acompanham pela vida inteira, mesmo agora, com mais de noventa anos completos.
Já morei fora de Cuiabá, viajei por cidades do Estado, pelo Brasil e conheci três continentes.
Muita coisa mudou.
Os hábitos, nem tanto.
Nunca dormi em quarto totalmente escuro.
Preciso de uma mínima claridade, ainda que seja a luz tímida do ar-condicionado.
Meus companheiros de quarto, adeptos da escuridão absoluta, sempre sofreram comigo.
Adquiri esse costume na infância, assim como meus irmãos.
Desconheço o motivo.
Meus pais nunca explicaram a causa.
Na antiga casa da rua do Campo, o dormitório tinha duas telhas de vidro.
Talvez venha daí.
Ou talvez não.
Admito que, antigamente, muitos possuíam esse hábito.
Carrego-o até hoje, talvez por afeto, pois não fede nem cheira.
Apenas me acostumei a ele e não pretendo largá-lo com mais de noventa anos.
Quantos penduricalhos acumulamos ao longo da vida sem saber exatamente porquê — e não largamos.
Os hábitos também não nos abandonam.
Envelhecem conosco.
Na natureza, alguns órgãos perdem a função com o tempo.
Certos hábitos também.
Nem por isso sentimos falta deles.
Ou sentimos.
Acordar, rezar, tomar o cafezinho, escrever: são hábitos bons, úteis, necessários.
Já outros ficam ali, sem função alguma, apenas nos lembrando que nem tudo precisa fazer sentido.
No fim das contas, talvez o hábito mais difícil de abandonar seja este: achar que ainda mandamos neles.
Gabriel Novis Neves
20-01-2026
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