quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O HÁBITO QUE FICOU SEM FUNÇÃO


Continuei fazendo por costume. 

 

Não havia mais necessidade, nem utilidade clara. 

 

Era um hábito antigo, desses que atravessam os anos sem pedir explicação. 

 

Percebi isso numa manhã comum, enquanto repetia o gesto automaticamente. 

 

Parei por um instante e me perguntei por quê. 

 

Não soube responder. 

 

Alguns hábitos sobrevivem à razão. 

 

Ficam por afeto, por memória, por medo de mudar. 

 

Eles não atrapalham, mas também não ajudam. 

 

Apenas ocupam um espaço confortável no nosso dia a dia.

 

Quantos hábitos me acompanham pela vida inteira, mesmo agora, com mais de noventa anos completos.

 

Já morei fora de Cuiabá, viajei por cidades do Estado, pelo Brasil e conheci três continentes.

 

Muita coisa mudou.

 

Os hábitos, nem tanto.

 

Nunca dormi em quarto totalmente escuro.

 

Preciso de uma mínima claridade, ainda que seja a luz tímida do ar-condicionado.

 

Meus companheiros de quarto, adeptos da escuridão absoluta, sempre sofreram comigo.

 

Adquiri esse costume na infância, assim como meus irmãos.

 

Desconheço o motivo.

 

Meus pais nunca explicaram a causa.

 

Na antiga casa da rua do Campo, o dormitório tinha duas telhas de vidro.

 

Talvez venha daí.

 

Ou talvez não.

 

Admito que, antigamente, muitos possuíam esse hábito.

 

Carrego-o até hoje, talvez por afeto, pois não fede nem cheira.

 

Apenas me acostumei a ele e não pretendo largá-lo com mais de noventa anos.

 

Quantos penduricalhos acumulamos ao longo da vida sem saber exatamente porquê — e não largamos.

 

Os hábitos também não nos abandonam.

 

Envelhecem conosco.

 

Na natureza, alguns órgãos perdem a função com o tempo.

 

Certos hábitos também.

 

Nem por isso sentimos falta deles.

 

Ou sentimos.

 

Acordar, rezar, tomar o cafezinho, escrever: são hábitos bons, úteis, necessários.

 

 Já outros ficam ali, sem função alguma, apenas nos lembrando que nem tudo precisa fazer sentido.

 

No fim das contas, talvez o hábito mais difícil de abandonar seja este: achar que ainda mandamos neles.

 

Gabriel Novis Neves

20-01-2026




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