O copo ficou ali, esquecido sobre a mesa com água até a metade.
Não foi falta de sede, foi distração.
Levantei, caminhei pela casa, fiz outras coisas, e ele permaneceu no mesmo lugar, silencioso.
Olhei para o copo algumas vezes ao longo do dia, como quem reconhece algo familiar.
Pensei em quantas coisas deixamos pela metade sem perceber.
Conversas que param no meio, decisões adiadas, promessas feitas a nós mesmos.
O copo não reclamava.
Esperava.
Como tantas coisas na vida que ficam aguardando nossa atenção.
É verdade: adiamos tantos projetos, esquecendo que o tempo passa — e nós também.
Quantas viagens ficaram para depois, e o depois é hoje, quando já não tenho mais condições físicas de realizá-las.
Trabalhei muito no início da minha carreira profissional, sonhando que, mais adiante, gozaria a vida ao lado da minha esposa viajando pelo mundo.
Ela partiu cedo, deixando–me sozinho a ver navios.
Convivo com os fantasmas das decisões adiadas.
Vejo meus filhos, netos e até bisnetos como o oposto daquele copo esquecido sobre a mesa.
Eles não se distraem, não deixam projetos para trás, nem decisões suspensas.
Estão certos, pois ninguém sabe do dia de amanhã.
Eu tive a sorte de beber o resto da água do copo, lavá-lo e guardá-lo na cristaleira.
Minha parceira partiu cedo e deixou sobre a mesa um copo pela metade: conversas interrompidas, projetos abandonados, palavras que não voltam.
Invejo meus filhos e netos por estarem fazendo tudo no tempo certo, ensinando o caminho aos bisnetos.
Hoje me sinto como a água que sobra no copo: incolor, inodora, insípida e morna.
Não segui ninguém no meu caminho, nem soube ensinar.
Passados noventa anos, confesso em silêncio que errei.
Se pudesse recomeçar, não deixaria a água esfriar.
Beberia o copo inteiro, antes que a vida passasse.
Gabriel Novis Neves
16-01-2025
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