quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

CONSELHO BOM SE VENDE


Ouvi atentamente. 

 

A pessoa falava, talvez esperando uma orientação, uma palavra final. 

 

Desta vez não dei conselho. 

 

Fiquei em silêncio, apenas acompanhando. 

 

Percebi como temos mania de ensinar, corrigir, orientar. 

 

Como se soubéssemos sempre o melhor caminho. 

 

Naquele dia, escolhi apenas escutar. 

 

Não foi omissão. 

 

Foi respeito. 

 

Cada um tem seu tempo de entender. 

 

Ao sair, senti que o silêncio havia sido mais honesto do que qualquer conselho apressado.

 

Os antigos, mais do que hoje, tinham essa mania de dar conselhos.

 

Os livros escolares de História Geral estão repletos de conselheiros de reis e rainhas.

 

O Brasil Império teve inúmeros conselheiros, pessoas preparadas para orientar decisões.

 

Os reis de Portugal eram cercados por conselheiros, cuja sabedoria ajudava a decidir destinos.

 

Os conselheiros do Império eram figuras respeitadas, presença obrigatória nas grandes decisões.

 

Ensinar, corrigir e orientar, com o tempo, tornou-se missão dos pais e professores.

 

Mas os brasileiros — e os cuiabanos, em especial — gostam de ouvir conselhos sobre os mais variados assuntos.

 

Aprendi que ouvir atentamente também é uma forma de aconselhar.

 

Quando completei quinze anos, minha mãe pediu que eu ouvisse Dom Aquino Correa sobre minha pretensão de ser médico.

 

Dom Aquino foi o grande conselheiro dos cuiabanos, dono de uma sabedoria múltipla.

 

Gostava de aconselhar no Palácio Episcopal.

 

Recebia à tarde jovens e idosos, de todas as classes sociais.

 

Aconselhou-me a não cursar o segundo grau no Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro, e aceitei.

 

Mais tarde, descobri que ele tinha toda a razão.

 

Quanto a ser médico do corpo ou da alma, não segui seu conselho.

 

Durante sessenta e cinco anos, fui médico do corpo e, muitas vezes, também da alma, sem exercer o sacerdócio.

 

Trabalhei em vários conselhos — de ensino, de pesquisa, de educação — e sempre admirei o Tribunal de Contas com seus conselheiros.

 

Hoje sei que nem todo conselho precisa ser dado.

 

Às vezes, o melhor gesto é ouvir em silêncio e deixar que o outro encontre, sozinho, o próprio caminho.

 

Gabriel Novis Neves

22-01-2026




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