segunda-feira, 31 de agosto de 2026

A TOALHA DOBRADA


Hoje encontrei a toalha dobrada sobre a cadeira do quarto.

 

Não me lembro de tê-la colocado ali.

 

Talvez tenha sido ontem à noite, talvez pela manhã.

 

Pequenos gestos se acumulam na casa sem que percebamos.

 

A toalha esperava silenciosa, como se ainda guardasse a umidade do banho e a pressa discreta do dia.

 

Fiquei olhando para ela mais tempo do que seria necessário.

 

Quantos movimentos repetimos sem notar? Quantos hábitos se instalam como móveis invisíveis da rotina?

 

O meio-dia passou enquanto eu escrevia, desiquilibrando as tarefas reservadas para a tarde.

 

Foi então que pensei: a manhã parece sempre mais curta.

 

Os antigos insistiam que nela o aprendizado era mais fácil, e que a noite nascera apenas para o descanso.

 

Na preparação para o vestibular de Medicina, descobri que isso nem sempre era verdade.

 

Pela manhã e à tarde frequentava aulas teóricas; restava-me a noite para estudar.

 

O exame acontecia logo após o carnaval.

 

Morando na capital do samba, ouvia ao longe as marchinhas ecoando pelas ruas, enquanto eu me debruçava sobre livros.

 

Depois de aprovado, conheci o leque de oportunidades que o carnaval oferecia.

 

Não me recordo dos carnavais que deixei passar.

 

Fui, pouco a pouco, aproximando-me da festa — primeiro espiando, depois participando. Regina levou-me aos salões.

 

Nunca usei fantasia, nem mesmo um simples disfarce.

 

E, no entanto, aqueles sons distantes da década de cinquenta — o rufar dos tamborins ouvido de longe — acabaram transformando-se, anos depois na criação da Mocidade Independente Universitária, em Cuiabá.

 

Tornei-me presidente da escola mais famosa da cidade, movido não por ambição, mas por um desses gestos quase imperceptíveis que mudam destinos.

 

O filósofo Eduardo Portela já afirmou que o carnaval é a maior manifestação da cultura popular brasileira.

 

Concordo.

 

Às vezes, o que começa como distração distante torna-se compromisso, identidade, memória coletiva.

 

A toalha dobrada sobre a cadeira me ensinou isso hoje.

 

Nada é pequeno demais.

 

Um gesto esquecido pode guardar o início de uma história inteira.

 

E a vida, silenciosa como aquela toalha, vai se dobrando sobre nós — esperando apenas que a descubramos.

 

Gabriel Novis Neves

17-02-2025




domingo, 30 de agosto de 2026

DOMINGOS DE ESTUDANTE


Nem todos os domingos eram de passeio para os estudantes de Medicina.

 

Muitas vezes, o dia era reservado para colocar a matéria em dia.

 

Eu ficava no quarto da pensão lendo livros e revisando as anotações da semana.

 

O silêncio dominical ajudava na concentração.

 

Às vezes, eu parava um pouco, olhava pela janela e pensava na família distante.

 

Depois, voltava aos livros, sabendo que aquele esforço fazia parte do caminho que eu havia escolhido.

 

Que profissão era a Medicina, exigindo tamanha dedicação de seus alunos!

 

Na pensão, uns estimulavam os outros ao estudo continuado.

 

No nosso grupo, porém, um deles deixou de nos acompanhar, vítima fatal de um acidente de bonde, ao saltar com ele ainda em movimento.

 

Sofreu traumatismo de crâneo, no quarto ano da faculdade.

 

Durante o tempo de estudante soube também do suicídio de dois colegas: um no início do curso e o outro no sexto ano, com quem tive mais convivência, pois éramos plantonistas no mesmo hospital.

 

A responsabilidade de nos tornarmos bons médicos era um peso que alguns não suportaram, a ponto de abandonarem a própria vida.

 

Apesar dessas dores, a minha turma espalhou bons profissionais por esse Brasil.

 

 Naquele tempo, existiam poucas escolas de Medicina no país, quase todas públicas, situadas em cidades banhadas por água salgada.

 

No início da década de 1950, o Brasil contava com cerca de treze escolas médicas, todas públicas.

 

Naquela mesma década, houve crescimento, e mais catorze escolas foram criadas, sendo cinco particulares.

 

Hoje, existem em funcionando quinhentas e treze escolas de Medicina no Brasil, das quais trezentas e noventas são particulares.

 

Nosso Estado possui seis faculdades de Medicina, duas delas particulares.

 

Hoje, já não é preciso deixar o próprio Estado para estudar Medicina.

 

Cuiabá, com suas três faculdades, vêm formando excelentes médicos.

 

Tenho disso um belo exemplo em minha própria família: uma neta e o marido estudaram em escola particular e se tornaram excelentes profissionais.

 

Estudar longe de casa tornou-se tema frequente das minhas crônicas.

 

E talvez porque, no silêncio de um quarto de pensão, a saudade também ajudasse a formar o homem que o médico viria a ser.

 

Gabriel Novis Neves

02-04-2026




OS PRIMEIROS PROFESSORES CHEGARAM DE LONGE


Os primeiros professores da UFMT desembarcavam em Cuiabá trazendo livros, sotaques diferentes e disposição para enfrentar desafios.

 

Muitos deixavam grandes centros urbanos para morar numa cidade ainda pequena, quente e distante das grandes capitais culturais do país.

 

Alguns estranhavam o calor cuiabano, as ruas tranquilas e o ritmo da vida local.

 

Mesmo assim, permaneceram.

 

Vieram ajudar a construir uma universidade praticamente do zero.

 

Com eles chegaram novas ideias, experiências acadêmicas e uma enorme vontade de ensinar numa terra ainda carente de oportunidades no ensino superior.

 

Foi difícil explicar que a universidade não era mais uma repartição pública federal destinada a oferecer bons empregos aos filhos da elite cuiabana.

 

Ela nascera para oferecer oportunidades a todos e romper uma antiga tradição: a de que o filho do médico deveria ser médico e o filho do sapateiro, sapateiro.

 

Ouvi muitas críticas por aproveitar um professor vindo de longe em lugar de um filho da terra.

 

Sempre procurei escolher professores pelo currículo, pela competência e pela capacidade de ensinar, e não pelo sobrenome ou pelo lugar onde haviam nascido.

 

Graças a essa luta, em pouco tempo implantamos uma universidade respeitada no país.

 

Seus cursos, inclusive os considerados nobres — Direito, Engenharia e Medicina —alcançaram excelentes avaliações do Ministério da Educação.

 

Praticávamos a política educacional.

 

A política partidária não tinha lugar dentro da universidade.

 

Cheguei, inclusive, a perder o cargo de reitor, sendo posteriormente reconduzido.

 

Passados mais de cinquenta anos da criação da UFMT, é emocionante ouvir os depoimentos daqueles primeiros professores que chegaram de longe para nos ajudar.

 

Muitos permaneceram e adotaram Cuiabá como sua própria cidade.

 

Em reconhecimento à participação naquela aventura educacional, receberam o título de professores fundadores.

 

Tenho hoje o prazer de conviver com gerações mais novas que nem me conheceram e pouco sabem sobre os primeiros tempos de nossa universidade.

 

A atual reitora, professora doutora Marluce, zelosa com a preservação, procura do nosso passado, procura reconstruir e valorizar essa bonita história.

 

Um dos primeiros atos de sua gestão foi retomar o Projeto Memória, com a inauguração da placa da Sala de Parto, sede da primeira reitoria da nossa universidade —fato ainda desconhecido por muitos.

 

Aqueles professores chegaram de longe trazendo livros nas malas e sonhos na cabeça.

 

Com o passar dos anos, deixaram de ser professores de fora.

 

Tornaram-se parte da história de Cuiabá.

 

E ficaram para sempre na memória da nossa Universidade.

 

Gabriel Novis Neves

25-08-2026




sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O SONHO DE ESTUDAR EM MATO GROSSO


Durante muitos anos, estudar Medicina, Engenharia ou Direito significava deixar Mato Grosso.

 

As famílias se sacrificavam para manter os filhos em cidades distantes, como Rio de Janeiro, São Paulo ou Belo Horizonte.

 

A implantação da UFMT começou a mudar esse destino.

 

Pela primeira vez, muitos jovens puderam cursar uma universidade sem abandonar suas raízes.

 

O sonho do diploma ficou mais próximo também das famílias simples do interior.

 

A universidade representou economia para os pais, esperança para os filhos e desenvolvimento para todo o Estado, que começava a crescer rapidamente.

 

E o ensino superior já não era um espaço reservado apenas aos homens.

 

Antes, os filhos de famílias pobres que desejavam prosseguir nos estudos tinham poucas alternativas.

 

Alguns procuravam o seminário, onde se preparavam para seguir a vida religiosa.

 

Outros ingressavam nos colégios militares, buscando a carreira de oficial.

 

Dutra, Rondon e Anísio Botelho seguiram a carreira militar.

 

Dom Aquino Correa concluiu seus estudos superiores em Roma.

 

No início da Universidade, muitos dos nossos professores, eram ex-seminaristas e ex-freiras, extremamente qualificados para exercer a docência universitária.

 

As primeiras colações de grau eram unificadas e realizadas no ginásio de esportes, que ficava repleto de familiares dos formandos.

 

Até hoje guardo na memória a alegria daquelas famílias que chegavam de todas as partes do interior do Estado.

 

Depois da solenidade, muitos faziam questão de tirar uma fotografia com o reitor, para guardar para a posteridade aquele momento tão sonhado.

 

Era mais do que uma formatura.

 

Para muitas famílias, representava a realização de um sonho que atravessara gerações.

 

Ninguém mais precisava deixar Cuiabá ou Mato Grosso para se tornar desembargador, engenheiro ou médico.

 

A Universidade também começou a preparar seus próprios professores, deixando de depender exclusivamente daqueles que vinham de longe.

 

Meus médicos atuais são antigos alunos ou professores que chegaram de outros lugares para lecionar e acabaram ficando por aqui.

 

Todos são professores universitários.

 

Hoje, Mato Grosso possui universidades e centros de ensino espalhados por várias cidades.

 

O jovem já pode estudar Medicina em Cuiabá, Sinop, Rondonópolis ou Cáceres sem precisar deixar o Estado.

 

O sonho do ensino superior em Mato Grosso vem de longe.

 

Em 1808, em Vila Bela da Santíssima Trindade, surgiu a histórica Aula de Anatomia.

 

Mais de um século e meio depois, com a criação da UFMT em 10-12-1970, aquele antigo sonho ganhou casa, professores e alunos.

 

E Mato Grosso começou a formar, em sua própria terra, os filhos que antes precisava mandar para longe.

 

Gabriel Novis Neves

26-08-2026




RESPEITAR OS RIOS


No período das chuvas o rio Cuiabá mudava de aparência.

 

Suas águas ganhavam força e despertavam respeito nos moradores.

 

O menino observava aquele espetáculo da natureza e aprendia, com os mais velhos, que a coragem nunca deve caminhar separada da prudência.

 

Ouvi falar de muitas enchentes do rio Cuiabá e presenciei algumas delas.

 

A maior de todas aconteceu em 1974, quando as salas de aulas da Universidade Federal serviram de abrigo aos desabrigados.

 

Os alunos perderam o primeiro semestre das aulas, bairros ribeirinhos foram tomados pela força das águas e muita gente perdeu tudo o que possuía.

 

Depois da construção da barragem de Manso, o rio Cuiabá nunca mais apresentou enchentes daquela proporção.

 

Na Várzea de Ana Poupina e no Grande Terceiro, atrás do quartel da Polícia Militar, os moradores transitavam de canoa durante as cheias.

 

O mesmo acontecia na avenida 15 de Novembro, até as proximidades da igreja de São Gonçalo.

 

Em Várzea Grande, na região do antigo Matadouro Municipal, a estrada de chão batido também foi levada pelas águas.

 

Naquela época, existia apenas uma ponte de concreto armado ligando os dois maiores municípios do Estado.

 

As canoas, transportando pessoas e mercadorias, funcionavam o tempo todo.

 

As embarcações de pequeno e médio porte não conseguiam chegar até a capital, e todos sofriam com o desabastecimento.

 

Os pais levavam os filhos menores para apreciar o espetáculo impressionante da enchente do rio Cuiabá.

 

Fotógrafos profissionais registravam as águas e vendiam álbuns aos órgãos públicos, que os colocavam sobre as mesas das salas de espera.

 

Hoje existem poucos remanescentes da última grande enchente para contar sua história e lembrar como a prudência dos ribeirinhos era essencial.

 

O mesmo rio que, no período da seca, permitia travessias a pé, durante as grandes cheias transformava-se num verdadeiro mar.

 

A natureza oferecia um espetáculo de beleza e força, mas também ensinava seus limites.

 

O menino nunca esqueceu os moradores do Porto navegando de canoa pelas ruas.

 

Foi assim que aprendeu: o rio pode ser amigo, mas merece respeito.

 

Gabriel Novis Neves

17-08-2026











quarta-feira, 26 de agosto de 2026

ÁRVORES QUE MUDAVAM A PAISAGEM


Setembro chegava quase sem pedir licença.

 

Algumas árvores perdiam as folhas, outras começavam a florescer, e o menino percebia pequenas mudanças na paisagem da cidade.

 

Não havia necessidade de consultar o calendário para saber que o ano caminhava depressa.

 

Bastava observar os quintais, as praças e o comportamento dos passarinhos.

 

A natureza possuía seu próprio relógio e, silenciosamente, avisava que mais uma estação estava chegando à velha Cuiabá.

 

A nova estação chegava cheia de novidades, especialmente para os costureiros, que preparavam roupas mais leves e coloridas para a sociedade cuiabana.

 

Setembro também era considerado o mês das noivas e dos casamentos elegantes.

 

Hoje, muitos deles são realizados longe da residência dos noivos, em cidades litorâneas ou até no exterior.

 

Os pais das noivas costumam justificar que sai mais barato do que uma grande recepção nos salões da cidade natal.

 

Para mim, setembro sempre foi um mês muito ligado à família.

 

É o mês de aniversário da minha mãe, de um irmão, de dois dos meus três filhos, de uma neta e de dois bisnetos.

 

É também o mês que anuncia a primavera e nos lembra que o fim do ano já não está tão distante.

 

Logo chegarão dezembro, as férias escolares, as festas de formatura, o Natal e o Ano-Novo.

 

Chegarão também as chuvas de verão, lavando a poeira das folhas e devolvendo aos quintais aquele verde vivo de dá alegria à cidade.

 

Nas férias, algumas famílias viajam para cidades distantes.

 

Outras permanecem por aqui, aproveitando as riquezas que a natureza colocou tão perto de nós: o Pantanal, a Chapada dos Guimarães, a Serra de São Vicente.

 

Temos rios, riachos, córregos, peixes, árvores frutíferas e tantos lugares bonitos para contemplar que, às vezes me pergunto por que procuramos tão longe as belezas que moram ao nosso lado.

 

Talvez o menino já soubesse disso.

 

Em setembro ele não precisava viajar para descobrir um mundo novo.

 

Bastava abrir a janela.

 

As árvores mudavam a paisagem, os passarinhos festejavam entre os galhos e Cuiabá costumava a vestir novamente o seu verde.

 

O mesmo verde que acompanhou a minha infância e que, tantos setembros depois, ainda floresce dentro de mim.

 

Gabriel Novis Neves

24-08-2026




terça-feira, 25 de agosto de 2026

MANGUEIRAS SE PREPARARAM PARA O VERÃO


Antes de aparecerem as primeiras mangas havia um espetáculo silencioso acontecendo nos quintais.

 

As mangueiras começavam a mudar, surgiam pequenas flores e o menino sabia que os frutos não demorariam.

 

Passava debaixo das árvores olhando para cima, imaginando quantas mangas nasceriam naquele ano.

 

Ninguém precisava explicar o calendário da natureza.

 

As árvores anunciavam as estações e ensinavam às crianças que cada coisa chegava exatamente no seu tempo.

 

Na Cuiabá da minha infância quase toda casa tinha uma mangueira no quintal.

 

Algumas eram enormes, antigas moradoras do lugar, oferecendo sombra durante o calor e frutos quando chegava a estação.

 

O menino conhecia cada uma delas.

 

Sabia qual produzia manga mais doce, qual amadurecia primeiro e aquela cujos galhos eram mais fáceis de subir.

 

Quando começavam a florir, um perfume discreto anunciava que o verão estava a caminho.

 

Depois vinham os pequenos frutos verdes, quase escondidos entre as folhas.

 

Era preciso esperar.

 

E como era difícil para uma criança compreender a paciência!

 

Todos os dias o menino examinava as mangas, procurando descobrir se alguma já estava no ponto de ser colhida.

 

Às vezes a natureza se antecipava,

 

Uma manga madura despencava no quintal durante a madrugada e, pela manhã, começava a disputa para saber quem a encontraria primeiro.

 

Não existiam supermercados oferecendo frutas durante o ano inteiro.

 

Havia o tempo da manga, do caju, da goiaba e da jabuticaba.

 

Cada fruta possuía sua estação e, talvez por isso, fosse tão esperada e saborosa.

 

Hoje encontro mangas bonitas nas bancas, quase em qualquer época.

 

Mas nenhuma possuía o mesmo sabor daquela que o menino esperava amadurecer no quintal.

 

Talvez porque algumas frutas alimentam o corpo.

 

Outras alimentam a memória.

 

E essas nunca saem da estação.

 

Gabriel Novis Neves

23-08-2026




segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A UNIVERSIDADE QUE MUDOU A CIDADE


Cuiabá era outra cidade antes da chegada da UFMT.

 

A vida universitária ainda era pequena e muitos jovens precisavam sair do Estado para estudar.

 

A implantação da universidade trouxe movimento, novos bairros, ônibus lotados de estudantes e uma juventude cheia de sonhos.

 

Aos poucos, a cidade passou a conviver com professores vindos de várias regiões do Brasil. Surgiram debates, eventos culturais, bibliotecas e novas profissões.

 

A universidade não mudou apenas o ensino: modificou o jeito de pensar de toda uma geração mato-grossense.

 

Muitos cuiabanos ilustres temiam que os filhos da terra não fossem capazes de implantar um projeto tão complexo: uma universidade federal em uma cidade de aproximadamente oitenta mil habitantes, distante dos grandes centros de educação, cultura e artes.

 

Viviam cochichando pela cidade, defendendo a vinda de técnicos do Rio de Janeiro e de São Paulo para executar a missão.

 

Dos três maiores responsáveis pelo trabalho, apenas o reitor havia estudado fora de Cuiabá, onde cursou Medicina.

 

Os vice-reitores acadêmico e administrativo, haviam cursado Direito em nossa Faculdade de Direito.

 

Aos poucos a universidade atraiu professores e pesquisadores de vários estados do Brasil e até do exterior.

 

Muitos ex-alunos foram aproveitados como professores e servidores da instituição federal.

 

Na época da implantação, não possuíamos nenhum professor com pós-graduação.

 

Hoje, todos têm doutorado e muitos pós-doutorado.

 

Ninguém mais precisa sair de Cuiabá para se tornar mestre ou doutor.

 

No início das atividades universitárias, professores eram enviados aos melhores centros de pós-graduação do Brasil e do exterior.

 

A inversão do binômio ensino e pesquisa para pesquisa e ensino foi fundamental para a captação de recursos destinados para o projeto Humboldt, do Ministério do Planejamento.

 

Nossa universidade nasceu como fundação, e não como autarquia, o que favoreceu muito sua instalação no Coxipó da Ponte.

 

Foi protagonista do desenvolvimento de Cuiabá e de toda a região sul da Amazônia.

 

Participou também de momentos decisivos da história de Mato Grosso, inclusive do período que antecedeu a divisão territorial do Estado em 1977.

 

Em 1974 o presidente Ernesto Geisel esteve na universidade e assistiu à nossa palestra, numa sala de aula do primeiro bloco da área tecnológica.

 

Contar a história da UFMT, prestes a completar cinquenta e seis anos, só é possível em conta gotas.

 

São muitas histórias, personagens, sonhos e dificuldades vencidas para caberem numa única crônica.

 

A universidade cresceu junto com Cuiabá.

 

E Cuiabá nunca mais foi a mesma depois dela.

 

Gabriel Novis Neves

22-08-2026









ESPERANDO AS PRIMEIRAS CHUVAS


Depois de muitos meses de céu azul, poeira e calor intenso, o menino começava a procurar no céu os primeiros sinais de chuva.

 

Observava as nuvens, sentia a mudança do vento e esperava, ansioso, ouvir os primeiros trovões.

 

Quando finalmente as gotas grossas batiam no telhado e faziam subir o cheiro da terra molhada, parecia que toda a cidade respirava aliviada.

 

Era o anúncio de um novo tempo, recebido com alegria pelos quintais de Cuiabá.

 

Antigamente as chuvas eram motivo de satisfação para os cuiabanos.

 

Com o crescimento da cidade, nem sempre acompanhado de planejamento e infraestrutura, tornaram-se também motivo de preocupação.

 

Aprendi com os mais antigos que administrador público não gosta de fazer obra enterrada, porque ninguém vê.

 

Talvez por isso sejam tão frequentes os alagamentos, produzindo transtornos no transito e dificultando a chegada do trabalhador ao serviço.

 

Táxis e carros de aplicativos desaparecem das ruas para evitar prejuízos, enquanto o transporte público, insuficiente, agrava ainda mais a situação.

 

A chuva tão esperada de antigamente passou a ser recebida também com receio.

 

A primeira chuva depois de longa estiagem era chamada de chuva das mangas.

 

Parecia que bastavam as primeiras gotas para as mangueiras florescerem e, pouco depois, os frutos começarem a amadurecer.

 

O quintal da minha casa, repleto de mangueiras, transformava-se num espetáculo. Depois das chuvas, eu enchia cestas e até latões de manga para vender nos armazéns da rua do Meio, por preços simbólicos.

 

Era uma festa voltar para casa, com algumas moedas no bolso, fruto daquele pequeno comércio da infância.

 

Assim era agosto: tempo das primeiras chuvas e das mangas.

 

Depois vinham as chuvas de caju, obedecendo ao nosso antigo calendário folclórico.

 

Na Cuiabá de antigamente, tudo tinha apelido. Até as chuvas.

 

O cheiro da terra molhada permanece como uma das lembranças mais bonitas que guardo da infância.

 

Naqueles dias, depois de meses de poeira e calor, parecia que as pessoas, as árvores, os passarinhos e a própria cidade respiravam aliviados.

 

Hoje, muitas vezes, sei que choveu pelos noticiários da televisão.

 

Tudo passa.

 

Tudo muda.

 

Mas, quando a memória traz de volta o cheiro da terra molhada, ainda escuto a primeira chuva caindo no quintal da minha infância.

 

Gabriel Novis Neves

20-08-2026




domingo, 23 de agosto de 2026

AGOSTO NÃO ACABA


Agosto chegava trazendo dias secos, poeira nas ruas e um céu quase sempre sem nuvens.

 

O menino não conhecia umidade do ar nem previsão do tempo, mas percebia tudo pelo corpo e pela natureza.

 

As folhas ficavam cobertas de pó, os quintais pediam água e todos procuravam uma sombra. Naquele tempo, cada mês possuía sua própria personalidade, e agosto parecia comprido, quente e cheio de histórias.

 

Popularmente conhecido como o mês do desgosto, tinha ainda um dia cercado de temores: o treze.

 

E, quando caía numa sexta-feira, muita gente achava melhor ficar em casa.

 

Eram superstições da antiga Cuiabá que, curiosamente, ainda sobrevivem na memória e no receio de muita gente.

 

Meu pai nasceu no dia 23 de agosto de 1894, numa quinta-feira, e foi muito feliz.

 

Brincava dizendo que, embora tivesse nascido no mês do desgosto, fora presenteado com uma vida tranquila e sentia orgulho daquilo que havia plantado.

 

Já uma irmã, também nascida em agosto, nos deixou prematuramente.

 

Conheci homens públicos vitoriosos, nascidos nesse mês, entre eles Fernando Corrêa da Costa e Pedro Pedrossian, que governaram nosso Estado.

 

Para os estudantes, agosto sempre pareceu um mês antipático e comprido, talvez porque chegasse logo depois das férias de julho.

 

Todos os meses têm suas histórias, mas agosto ficou especialmente ligado às superstições. Ganhou até a fama de ‘mês do cachorro louco’.

 

Mas agosto também trazia coisas bonitas.

 

Era tempo de mangas.

 

Os grandes quintais cuiabanos exibiam mangueiras com galhos arqueados pelo peso dos frutos, que também apareciam nas árvores das ruas.

 

Colhi muita manga madura quando voltava da escola primária, na Praça Ipiranga.

 

O menino daquele tempo usava a funda para acertar o talo da manga escolhida e corria para apará-la antes que tocasse o chão e se amassasse.

 

Havia também os cajueiros, que cresciam quase como mato pelos quintais e pelas ruas.

 

Com o passar dos anos, descobri que existem meses até mais difíceis.

 

Outubro, por exemplo, costuma castigar Cuiabá com a qualidade ruim do ar e a dificuldade para respirar.

 

Mas é agosto que continua carregando a fama de pior mês do ano.

 

Talvez seja uma injustiça.

 

Afinal, um mês que nos dava mangas maduras, cajus nos quintais e tardes inteiras de infância não poderia ser apenas o mês do desgosto.

 

Na memória do menino, agosto tinha também gosto de manga.

 

Gabriel Novis Neves

21-08-2026




sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A UNIVERSIDADE NO MEIO DO MATO


Quando começaram as obras da Universidade Federal de Mato Grosso, muita gente estranhou a escolha do lugar.

 

Diziam que o campus ficava longe demais da cidade, cercado apenas por mato, poeira e silêncio.

 

Poucos imaginavam que ali surgiria uma das maiores transformações culturais e educacionais do Estado.

 

Os primeiros prédios eram simples, as dificuldades enormes, mas existia entusiasmo entre professores, estudantes e servidores.

 

A universidade nascia cercada de esperança e coragem, como acontece com quase todas as grandes obras humanas.

 

Foi implantada em parte do terreno da antiga chácara do doutor Melo, um engenheiro que morava na avenida 15 de Novembro, no Porto.

 

 A escolha do local foi do governador, engenheiro Pedro Pedrossian.

 

Ficava à margem de uma estrada ainda não asfaltada, que seguia em direção ao sul do Brasil.

 

No terreno foi colocada uma enorme placa:

 

‘Futuras instalações da Universidade Federal de Mato Grosso. ’

 

Pedrossian estudara Engenharia em São Paulo e eu, seu secretário de Educação, Medicina no Rio de Janeiro.

 

Naquela época as cidades universitárias ainda eram novidade no Brasil.

 

Oscar Niemeyer havia projetado a Universitária de Brasília, e o governador desejava que ele também projetasse a futura cidade universitária de Cuiabá.

 

Pedrossian procurou o escritório de Niemeyer no Rio de Janeiro.

 

O arquiteto, entretanto, estava trabalhando fora do Brasil, em razão da situação política do país.

 

Não existiam celulares, internet ou vídeo chamadas.  

 

A comunicação a distância era difícil e demorada.

 

Depois de longa espera, o encontro entre o governador e o arquiteto finalmente aconteceu.

 

Ao ouvir de Pedrossian o desejo de que projetasse a cidade universitária de Cuiabá, Niemeyer perguntou:

 

—A universidade é particular?

 

Ao saber que era do Governo Federal, explicou que estava exilado e trabalhando em Argel, na Argélia, onde projetava uma universidade.

 

Como ficaria aquele trabalho?

 

Pedrossian respondeu, com a firmeza que lhe era característica, que não haveria problema. Meses depois, o escritório de Niemeyer, no Rio de Janeiro, encaminhou o belo anteprojeto do campus de Cuiabá.

 

Era uma obra extraordinária, porém economicamente inviável.

 

Somente um dos grandes edifícios, apelidado de ‘minhocão’ tinha orçamento superior ao do próprio Estado de Mato Grosso.

 

O sonho precisou adaptar-se à realidade.

 

Pedrossian assumiu o comando do projeto de implantação da UFMT até 10-12-1970, quando a Universidade foi oficialmente criada.

 

Depois, coube a mim continuar aquela caminhada.

 

Durante anos vi o mato desaparecer, os prédios surgirem, os estudantes chegarem e a Universidade crescer.

 

Continuei escrevendo essa história até fevereiro de 1982.

 

Hoje, quando recordo aquele terreno distante, coberto de mato e marcado apenas por uma grande placa, penso em quantos sonhos nasceram ali.

 

Onde muito enxergavam apenas mato, nós enxergávamos uma Universidade.

 

Gabriel Novis Neves

18-08-2026