Agosto chegava trazendo dias secos, poeira nas ruas e um céu quase sempre sem nuvens.
O menino não conhecia umidade do ar nem previsão do tempo, mas percebia tudo pelo corpo e pela natureza.
As folhas ficavam cobertas de pó, os quintais pediam água e todos procuravam uma sombra. Naquele tempo, cada mês possuía sua própria personalidade, e agosto parecia comprido, quente e cheio de histórias.
Popularmente conhecido como o mês do desgosto, tinha ainda um dia cercado de temores: o treze.
E, quando caía numa sexta-feira, muita gente achava melhor ficar em casa.
Eram superstições da antiga Cuiabá que, curiosamente, ainda sobrevivem na memória e no receio de muita gente.
Meu pai nasceu no dia 23 de agosto de 1894, numa quinta-feira, e foi muito feliz.
Brincava dizendo que, embora tivesse nascido no mês do desgosto, fora presenteado com uma vida tranquila e sentia orgulho daquilo que havia plantado.
Já uma irmã, também nascida em agosto, nos deixou prematuramente.
Conheci homens públicos vitoriosos, nascidos nesse mês, entre eles Fernando Corrêa da Costa e Pedro Pedrossian, que governaram nosso Estado.
Para os estudantes, agosto sempre pareceu um mês antipático e comprido, talvez porque chegasse logo depois das férias de julho.
Todos os meses têm suas histórias, mas agosto ficou especialmente ligado às superstições. Ganhou até a fama de ‘mês do cachorro louco’.
Mas agosto também trazia coisas bonitas.
Era tempo de mangas.
Os grandes quintais cuiabanos exibiam mangueiras com galhos arqueados pelo peso dos frutos, que também apareciam nas árvores das ruas.
Colhi muita manga madura quando voltava da escola primária, na Praça Ipiranga.
O menino daquele tempo usava a funda para acertar o talo da manga escolhida e corria para apará-la antes que tocasse o chão e se amassasse.
Havia também os cajueiros, que cresciam quase como mato pelos quintais e pelas ruas.
Com o passar dos anos, descobri que existem meses até mais difíceis.
Outubro, por exemplo, costuma castigar Cuiabá com a qualidade ruim do ar e a dificuldade para respirar.
Mas é agosto que continua carregando a fama de pior mês do ano.
Talvez seja uma injustiça.
Afinal, um mês que nos dava mangas maduras, cajus nos quintais e tardes inteiras de infância não poderia ser apenas o mês do desgosto.
Na memória do menino, agosto tinha também gosto de manga.
Gabriel Novis Neves
21-08-2026
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.