De tempos em tempos, as casas recebiam uma nova pintura.
O cheiro da tinta espalhava-se pelos cômodos, os móveis eram afastados das paredes e a rotina da família mudava por alguns dias.
Para as crianças era uma pequena aventura.
Ao final, a casa parecia renascer, como se também ganhasse novo ânimo para continuar acolhendo a vida de todos.
Pequenas reformas traziam uma alegria difícil de explicar.
Quando criança eu gostava de acompanhar minha mãe organizando a pintura da casa.
Ela promovia uma verdadeira dança dos cômodos.
O que era sala de visitas transformava-se em dormitório.
A varanda passava a ser sala de jantar.
As paredes internas recebiam novas cores, dando à casa um aspecto completamente diferente.
Nunca perguntei à minha mãe por que escolhia tons tão variados nem por que mudava tanto a disposição dos ambientes.
Hoje penso que aquela inquietação era apenas sua maneira de fugir da monotonia e renovar o lar.
Meu pai jamais interferia nos afazeres da casa.
Confiava plenamente no bom gosto e nas decisões de minha mãe.
Anos depois, estudando Medicina, aprendi que as cores exercem influência sobre o bem-estar das pessoas, podendo transmitir serenidade ou provocar maior estímulo.
Quando dirigi o Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, no Coxipó da Ponte, encontrei as enfermarias pintadas com cores fortes e escuras.
Disseram-me que assim a sujeira provocada pelos pacientes ficava menos aparente.
Determinei que todas fossem repintadas com cores suaves, capazes de proporcionar um ambiente mais tranquilo, acolhedor e digno, sem abrir mão da higiene.
Ao regressar do Rio de Janeiro, em 1964, aluguei uma pequena casa cujos cômodos tinham cores diferentes.
Anos mais tarde, quando construí minha própria residência, escolhi o bege para todas as dependências.
Há mais de trinta anos moro em um apartamento cujas paredes continuam da mesma cor.
Também nunca mais fiz mudanças radicais nas disposições dos ambientes.
O bege sempre me transmitiu tranquilidade, especialmente nas horas silenciosas em que escrevo minhas crônicas.
Talvez por isso as construções modernas tenham adotado cores claras e discretas.
No fim das contas, descobrimos que uma casa não se renova apenas com tinta nova.
Renova-se, sobretudo, pela paz que suas paredes conseguem guardar.
Gabriel Novis Neves
26-06-2026