terça-feira, 11 de agosto de 2026

ARREBALDES


Na Cuiabá antiga, boa parte dos moradores possuía um pequeno sítio ou uma chácara nas cercanias da cidade.

 

Tinham um caseiro de confiança e era ali que passavam os fins de semana.

 

Mantinham também uma pequena criação de porcos, galinhas e, mais raramente, uma vaca, além de uma horta sempre produtiva.

 

Essas propriedades localizavam-se às margens do rio Cuiabá, do Coxipó da Ponte, ou do rio Coxipó do Ouro, na grande Cuiabá.

 

Para entrar no sítio, era necessário abrir e fechar a porteira.

 

Essa missão cabia ao menino, que saltava do veículo da família para abrir a porteira e, logo em seguida, fechá-la.

 

Era uma responsabilidade levada muito a sério.

 

O menino aprendia cedo que um simples descuido poderia permitir a fuga dos animais ou causar transtornos à vizinhança.

 

Pequenos gestos como esse ensinavam compromisso, atenção e respeito pelas tarefas confiadas pelos adultos.

 

Nem sempre a missão era executada com prazer, embora o menino soubesse da importância da incumbência.

 

Mais tarde compreendeu que esses pequenos gestos ajudavam a formar o caráter e o senso de responsabilidade.

 

Meus pais nunca possuíram chácara ou sítio, mas eu sempre os frequentei.

 

Ia de carona no caminhão de parentes ou amigos e, por isso, quase sempre escolhido para abrir e fechar as porteiras.

 

Estas eram muito diferentes das portas.

 

Não possuíam chaves.

 

Sua abertura e seu fechamento exigiam paciência, habilidade e atenção.

 

O gado percebia a chegada dos veículos e costumava permanecer próximo à porteira.

 

Qualquer distração permitia a fuga de um animal, e a responsabilidade recaia sobre quem a havia aberto.

 

Hoje tudo mudou.

 

Os antigos sítios transformaram-se em bairros da cidade.

 

Cuiabá tornou-se uma das capitais do agronegócio, com fazendas altamente mecanizadas, tecnologia de ponta e até aeroportos privados para receber jatinhos. Mesmo assim, sempre que me lembro de uma porteira de madeira, volto a ser aquele menino encarregado de abri-la e fechá-la, aprendendo, sem perceber, que as maiores lições da vida costumam nascer das tarefas mais simples.

 

Gabriel Novis Neves

08-08-2026




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