O sino da igreja marcava o ritmo da vida cuiabana.
Anunciava missas, festas, casamentos, procissões e até momentos de tristeza.
O menino aprendia a reconhecer cada toque e, mesmo sem olhar o relógio, sabia a hora de voltar para casa.
Eram sons que organizavam o cotidiano e aproximavam toda a comunidade.
O sino da Matriz era patrimônio de toda a pequena cidade de Cuiabá.
A cidade ficava triste com o silêncio dos sinos, fato que só acontecido na Sexta-Feira Santa.
Sem eles, parecia que ficávamos sem rumo e até perdíamos a hora de voltar para casa.
A Matriz ficava em frente à Praça da República. Possuía uma única torre, com dois sinos, e um grande relógio redondo ao lado.
De hora em hora, o relógio anunciava o tempo com suas badaladas, ouvidas à distância.
Na minha casa da rua de Baixo, ouvia perfeitamente as batidas do relógio da Matriz.
Os sons dos sinos aproximavam toda a comunidade.
Quando a Matriz foi elevada à categoria de Catedral, a igreja ganhou mais uma torre, porém sem sino.
Outras igrejas de Cuiabá também possuíam seus sinos, espalhando pela cidade seus chamados de fé.
Na minha infância, além dos sinos da Matriz, lembro-me dos sinos das igrejas do Senhor dos Passos, do Rosário, da Boa Morte, da Mãe dos Homens, de Nossa Senhora Auxiliadora e de São Gonçalo, além dos que soavam nas proximidades da Arquidiocese de Cuiabá.
As igrejas menores, chamadas capelas, geralmente não possuíam sinos.
Os sinos eram parte da alma das pequenas cidades.
Seus sons atravessavam ruas, entravam pelas janelas e aproximavam as pessoas.
Como era doce acordar com o sino da cidadezinha onde nasci, convidando seus moradores para a missa das cinco da manhã, cada qual levando consigo a devoção ao seu santo preferido!
Tenho saudade daquele tempo da infância, quando tudo parecia novo, simples e bonito.
Se eu pudesse voltar a ser criança, gostaria de acordar novamente com os sinos da manhã chamando para a missa e ouvir, ao cair da tarde, suas badaladas convidando para a reza.
Talvez eu não tenha saudade apenas dos sinos.
Tenho saudade do menino que parava para ouvi-los.
Gabriel Novis Neves
11-08-2026
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