Chegar aos 91 anos é ter o privilégio de acompanhar transformações que pareciam impossíveis na juventude.
Vi o mundo trocar cartas por mensagens instantâneas e fotografias de papel por imagens que chegam pelo telefone.
Aprendi a conviver com essas novidades.
Mas minhas necessidades mais profundas continuam simples: o carinho da família, a amizade e a alegria de estar perto de quem amo.
Há vinte anos sem Regina, minha companheira, compreendo ainda melhor o valor dessas presenças.
Sinto falta dos filhos, netos e bisnetos.
Cada um tem seus compromissos, sua casa, suas responsabilidades.
Compreendo tudo isso, embora a compreensão não diminua a saudade.
Nas festas de fim de ano, essa falta aumenta.
Basta ouvir um cântico de Natal para recordar pessoas, encontros e celebrações.
Fico mais sensível.
Lembro das vozes que conheci tão bem e gostaria de ouvi-las novamente.
Conheço o sofrimento da distância desde os anos de estudante no Rio de Janeiro.
Foram onze anos longe dos meus.
Voltei casado para Cuiabá, em 1964, disposto a constituir família e trabalha na Medicina.
Naquele tempo a cidade ainda não tinha universidade.
Mais tarde, minha filha pôde estudar Direito aqui.
Meus filhos partiram: um cursou Odontologia em Brasília; o outro, Medicina no Rio.
Durante a formação, os estágios muitas vezes os mantinham longe no Natal e no Ano Novo.
Depois vieram os casamentos, os compromissos com outras famílias e a necessidade de dividir as datas.
Assim acontece em muitas casas.
Os filhos crescem, seguem seus caminhos, e os pais aprendem a esperar pelas visitas.
Hoje, o mundo continua apressado.
Eu caminho devagar e tenho tempo para sentir a ausência da Regina e desejar companhia dos nossos.
Quando a família chega, gosto de ouvir as conversas, acompanhar as crianças e prolongar a despedida.
Aos 91 anos, ainda peço o mais simples: fiquem mais um pouco.
Gabriel Novis Neves
31-10-2026
