segunda-feira, 24 de agosto de 2026

ESPERANDO AS PRIMEIRAS CHUVAS


Depois de muitos meses de céu azul, poeira e calor intenso, o menino começava a procurar no céu os primeiros sinais de chuva.

 

Observava as nuvens, sentia a mudança do vento e esperava, ansioso, ouvir os primeiros trovões.

 

Quando finalmente as gotas grossas batiam no telhado e faziam subir o cheiro da terra molhada, parecia que toda a cidade respirava aliviada.

 

Era o anúncio de um novo tempo, recebido com alegria pelos quintais de Cuiabá.

 

Antigamente as chuvas eram motivo de satisfação para os cuiabanos.

 

Com o crescimento da cidade, nem sempre acompanhado de planejamento e infraestrutura, tornaram-se também motivo de preocupação.

 

Aprendi com os mais antigos que administrador público não gosta de fazer obra enterrada, porque ninguém vê.

 

Talvez por isso sejam tão frequentes os alagamentos, produzindo transtornos no transito e dificultando a chegada do trabalhador ao serviço.

 

Táxis e carros de aplicativos desaparecem das ruas para evitar prejuízos, enquanto o transporte público, insuficiente, agrava ainda mais a situação.

 

A chuva tão esperada de antigamente passou a ser recebida também com receio.

 

A primeira chuva depois de longa estiagem era chamada de chuva das mangas.

 

Parecia que bastavam as primeiras gotas para as mangueiras florescerem e, pouco depois, os frutos começarem a amadurecer.

 

O quintal da minha casa, repleto de mangueiras, transformava-se num espetáculo. Depois das chuvas, eu enchia cestas e até latões de manga para vender nos armazéns da rua do Meio, por preços simbólicos.

 

Era uma festa voltar para casa, com algumas moedas no bolso, fruto daquele pequeno comércio da infância.

 

Assim era agosto: tempo das primeiras chuvas e das mangas.

 

Depois vinham as chuvas de caju, obedecendo ao nosso antigo calendário folclórico.

 

Na Cuiabá de antigamente, tudo tinha apelido. Até as chuvas.

 

O cheiro da terra molhada permanece como uma das lembranças mais bonitas que guardo da infância.

 

Naqueles dias, depois de meses de poeira e calor, parecia que as pessoas, as árvores, os passarinhos e a própria cidade respiravam aliviados.

 

Hoje, muitas vezes, sei que choveu pelos noticiários da televisão.

 

Tudo passa.

 

Tudo muda.

 

Mas, quando a memória traz de volta o cheiro da terra molhada, ainda escuto a primeira chuva caindo no quintal da minha infância.

 

Gabriel Novis Neves

20-08-2026




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