sexta-feira, 28 de agosto de 2026

RESPEITAR OS RIOS


No período das chuvas o rio Cuiabá mudava de aparência.

 

Suas águas ganhavam força e despertavam respeito nos moradores.

 

O menino observava aquele espetáculo da natureza e aprendia, com os mais velhos, que a coragem nunca deve caminhar separada da prudência.

 

Ouvi falar de muitas enchentes do rio Cuiabá e presenciei algumas delas.

 

A maior de todas aconteceu em 1974, quando as salas de aulas da Universidade Federal serviram de abrigo aos desabrigados.

 

Os alunos perderam o primeiro semestre das aulas, bairros ribeirinhos foram tomados pela força das águas e muita gente perdeu tudo o que possuía.

 

Depois da construção da barragem de Manso, o rio Cuiabá nunca mais apresentou enchentes daquela proporção.

 

Na Várzea de Ana Poupina e no Grande Terceiro, atrás do quartel da Polícia Militar, os moradores transitavam de canoa durante as cheias.

 

O mesmo acontecia na avenida 15 de Novembro, até as proximidades da igreja de São Gonçalo.

 

Em Várzea Grande, na região do antigo Matadouro Municipal, a estrada de chão batido também foi levada pelas águas.

 

Naquela época, existia apenas uma ponte de concreto armado ligando os dois maiores municípios do Estado.

 

As canoas, transportando pessoas e mercadorias, funcionavam o tempo todo.

 

As embarcações de pequeno e médio porte não conseguiam chegar até a capital, e todos sofriam com o desabastecimento.

 

Os pais levavam os filhos menores para apreciar o espetáculo impressionante da enchente do rio Cuiabá.

 

Fotógrafos profissionais registravam as águas e vendiam álbuns aos órgãos públicos, que os colocavam sobre as mesas das salas de espera.

 

Hoje existem poucos remanescentes da última grande enchente para contar sua história e lembrar como a prudência dos ribeirinhos era essencial.

 

O mesmo rio que, no período da seca, permitia travessias a pé, durante as grandes cheias transformava-se num verdadeiro mar.

 

A natureza oferecia um espetáculo de beleza e força, mas também ensinava seus limites.

 

O menino nunca esqueceu os moradores do Porto navegando de canoa pelas ruas.

 

Foi assim que aprendeu: o rio pode ser amigo, mas merece respeito.

 

Gabriel Novis Neves

17-08-2026











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