No período das chuvas o rio Cuiabá mudava de aparência.
Suas águas ganhavam força e despertavam respeito nos moradores.
O menino observava aquele espetáculo da natureza e aprendia, com os mais velhos, que a coragem nunca deve caminhar separada da prudência.
Ouvi falar de muitas enchentes do rio Cuiabá e presenciei algumas delas.
A maior de todas aconteceu em 1974, quando as salas de aulas da Universidade Federal serviram de abrigo aos desabrigados.
Os alunos perderam o primeiro semestre das aulas, bairros ribeirinhos foram tomados pela força das águas e muita gente perdeu tudo o que possuía.
Depois da construção da barragem de Manso, o rio Cuiabá nunca mais apresentou enchentes daquela proporção.
Na Várzea de Ana Poupina e no Grande Terceiro, atrás do quartel da Polícia Militar, os moradores transitavam de canoa durante as cheias.
O mesmo acontecia na avenida 15 de Novembro, até as proximidades da igreja de São Gonçalo.
Em Várzea Grande, na região do antigo Matadouro Municipal, a estrada de chão batido também foi levada pelas águas.
Naquela época, existia apenas uma ponte de concreto armado ligando os dois maiores municípios do Estado.
As canoas, transportando pessoas e mercadorias, funcionavam o tempo todo.
As embarcações de pequeno e médio porte não conseguiam chegar até a capital, e todos sofriam com o desabastecimento.
Os pais levavam os filhos menores para apreciar o espetáculo impressionante da enchente do rio Cuiabá.
Fotógrafos profissionais registravam as águas e vendiam álbuns aos órgãos públicos, que os colocavam sobre as mesas das salas de espera.
Hoje existem poucos remanescentes da última grande enchente para contar sua história e lembrar como a prudência dos ribeirinhos era essencial.
O mesmo rio que, no período da seca, permitia travessias a pé, durante as grandes cheias transformava-se num verdadeiro mar.
A natureza oferecia um espetáculo de beleza e força, mas também ensinava seus limites.
O menino nunca esqueceu os moradores do Porto navegando de canoa pelas ruas.
Foi assim que aprendeu: o rio pode ser amigo, mas merece respeito.
Gabriel Novis Neves
17-08-2026
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