sábado, 31 de janeiro de 2026

TOALHAS AO VENTO


Sem ter o que fazer numa manhã de domingo, pus-me a pensar na minha infância distante, na doce Cuiabá.

 

Tudo era simples e exalava poesia naquela casa modesta da rua do Campo.

 

Escrevo agora como quem assiste a um filme comum: estender a toalha ainda úmida na varanda para secar.

 

O sol já batia direto.

 

Pendurei-a com dois prendedores e ajeitei bem o tecido.

 

Ela ficou balançando um pouco com o vento.

 

Voltei para dentro e deixei a porta aberta.

 

De tempos em tempos, olhava para ver se já havia secado.

 

A toalha cumpria sua parte.

 

O resto ficava por conta do sol cuiabano e do vento.

 

Naquele tempo ainda não existiam empresas de lavanderia.

 

O serviço era feito em bacias de alumínio, com água tirada do poço do quintal.

 

Depois de seca na varanda, a toalha era passada no quartinho ao lado da cozinha, com ferro em brasa.

 

Com a família aumentando e a situação financeira do meu pai melhorando, minha mãe terceirizou a lavagem das roupas para as famosas passadeiras e engomadeiras do bairro do Baú.

 

O tanque do Baú atendia as lavadeiras da região.

 

Quantas boas recordações nos trazem esses domingos de solidão!

 

A casa cheia da infância foi se esvaziando com o tempo.

 

E chegamos sozinhos à velhice.

 

Já não moramos mais em casas com varanda para estender toalhas ao sol.

 

No apartamento, o quarto por onde entra a claridade é proibido para esse fim, por normas do condomínio.

 

Penso no que passa pela cabeça da minha bisneta de dois anos, esquiando na Suíça.

 

Que recordação ela guardará desse passeio quando tiver a minha idade?

 

O mundo em que nasci e fui criado era tão pequeno, que se resumia ao antigo Centro Histórico de Cuiabá: as praças da República e Alencastro, as ruas de Baixo, do Meio, de Cima e do Campo.

 

Tudo passou depressa demais.

 

E hoje, com mais de noventa anos, sigo vivendo de lembranças — como quem ainda estende, em pensamento, uma toalha na varanda da memória, esperando que o tempo a seque com cuidado.

 

Gabriel Novis Neves

26-01-2026






sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

ENVELHECER COM SABEDORIA


Só percebi depois de andar um pouco.

 

Um chinelo era de um par diferente.

 

Voltei, troquei e segui.

 

Pequenos descuidos acontecem sem aviso.

 

Continuei caminhando pela casa, como sempre faço.

 

Nos últimos anos, cai quatro vezes no meu dormitório.

 

Não tive fraturas, mas fiquei com hematomas.

 

Uma dessas quedas aconteceu por causa do chinelo trocado.

 

As outras, pela disautonomia.

 

Hoje, só me levanto da cama para caminhar depois que a cuidadora atende ao chamado da campainha.

 

Só ando pela casa apoiado no braço forte da cuidadora ou de alguém por perto.

 

Para sair, apenas de cadeira de rodas.

 

Bengala e andador são auxílios contraindicados para mim, e o chinelo trocado virou sinônimo de queda.

 

Uma das três principais causas de morte em idosos é a queda.

 

Por isso, pequenos cuidados são indispensáveis.

 

Um deles é caminhar pela casa sempre apoiado no braço de alguém.

 

Faço fisioterapia duas vezes por semana para fortalecer os músculos das pernas e não sinto melhoras significativas.

 

Na minha rotina, ou estou sentado na cadeira de rodas do meu escritório, ou deitado na cama.

 

Já pensei em colocar próteses nos dois joelhos para melhorar minha qualidade de vida.

 

Assim, me livraria das artroses e voltaria a caminhar.

 

A cirurgia é realizada com sucesso e costuma apresentar bons resultados.

 

Mas temo a minha idade avançada e não me animo a arriscar.

 

Com os anos, acumulei uma série de ‘doenças chatas’, que não matam e não têm cura.

 

Sei que minha qualidade de vida melhoraria muito, se eu conseguisse andar o suficiente para, ao menos, almoçar na casa de um filho.

 

Graças a Deus,não tenho nenhuma doença de base maligna e estou bem, sem sintomas graves.

 

Arriscar uma cirurgia a esta altura da vida seria brincar com a sorte.

 

Por isso, sigo atento aos detalhes.

 

Não trocar os chinelos, pedir ajuda, aceitar o braço amigo.

 

Às vezes, envelhecer é isso: aprender que continuar de pé depende menos das pernas e mais do cuidado — próprio e dos outros.

 

Gabriel Novis Neves

28-01-2026




A ALEGRIA DE CHEGAR ANTES


Chegar antes é um privilégio silencioso. 

 

É entrar quando a sala ainda respira vazia, quando as cadeiras guardam o formato de quem ainda não sentou. 

 

Chegar antes permite observar sem pressa, escolher o lugar, acomodar o corpo e o pensamento. 

 

A vida, por vezes, recompensa quem não corre.

 

Há uma alegria discreta em antecipar o tempo, como se o relógio, por alguns minutos, resolvesse nos obedecer. 

 

Ninguém percebe, mas ali já começou um instante de felicidade mansa, dessas que não fazem barulho. 

 

Sempre gostei de chegar antes. 

 

Ao consultório, à missa, ao compromisso social, à sala de aula. 

 

Chegar depois me causava certo constrangimento, como se eu interrompesse algo que já seguia seu curso. 

 

Chegar antes era diferente: dava tempo para respirar, para olhar em volta, para reconhecer os detalhes que se perdem na pressa. 

 

O banco vazio, a janela aberta, o ventilador desligado esperando ser acionado. 

 

Chegar antes também é uma forma de respeito — com o outro e comigo mesmo. 

 

Não obriga ninguém a esperar, não pede desculpas pela entrada apressada, não traz justificativas. 

 

É um gesto simples, quase invisível, mas cheio de significado. 

 

Quem chega antes carrega menos culpa e mais serenidade. 

 

Com o passar dos anos, percebi que chegar antes não é apenas uma questão de relógio. 

 

É um estado de espírito. 

 

É preparar o coração para o encontro, seja ele com pessoas, ideias ou lembranças. 

 

É chegar antes até mesmo às próprias emoções, percebendo-as quando ainda são suaves, antes que endureçam. 

 

Hoje, aos noventa anos, continuo chegando antes. 

 

Não por obrigação, mas por escolha. 

 

Gosto desse tempo que sobra, dessa espera tranquila. 

 

Chegar antes me ensinou que a vida não exige corrida. 

 

Às vezes, basta estar presente um pouco antes do mundo chegar. 

 

Gabriel Novis Neves 

09-01-2026




quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

CONSELHO BOM SE VENDE


Ouvi atentamente. 

 

A pessoa falava, talvez esperando uma orientação, uma palavra final. 

 

Desta vez não dei conselho. 

 

Fiquei em silêncio, apenas acompanhando. 

 

Percebi como temos mania de ensinar, corrigir, orientar. 

 

Como se soubéssemos sempre o melhor caminho. 

 

Naquele dia, escolhi apenas escutar. 

 

Não foi omissão. 

 

Foi respeito. 

 

Cada um tem seu tempo de entender. 

 

Ao sair, senti que o silêncio havia sido mais honesto do que qualquer conselho apressado.

 

Os antigos, mais do que hoje, tinham essa mania de dar conselhos.

 

Os livros escolares de História Geral estão repletos de conselheiros de reis e rainhas.

 

O Brasil Império teve inúmeros conselheiros, pessoas preparadas para orientar decisões.

 

Os reis de Portugal eram cercados por conselheiros, cuja sabedoria ajudava a decidir destinos.

 

Os conselheiros do Império eram figuras respeitadas, presença obrigatória nas grandes decisões.

 

Ensinar, corrigir e orientar, com o tempo, tornou-se missão dos pais e professores.

 

Mas os brasileiros — e os cuiabanos, em especial — gostam de ouvir conselhos sobre os mais variados assuntos.

 

Aprendi que ouvir atentamente também é uma forma de aconselhar.

 

Quando completei quinze anos, minha mãe pediu que eu ouvisse Dom Aquino Correa sobre minha pretensão de ser médico.

 

Dom Aquino foi o grande conselheiro dos cuiabanos, dono de uma sabedoria múltipla.

 

Gostava de aconselhar no Palácio Episcopal.

 

Recebia à tarde jovens e idosos, de todas as classes sociais.

 

Aconselhou-me a não cursar o segundo grau no Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro, e aceitei.

 

Mais tarde, descobri que ele tinha toda a razão.

 

Quanto a ser médico do corpo ou da alma, não segui seu conselho.

 

Durante sessenta e cinco anos, fui médico do corpo e, muitas vezes, também da alma, sem exercer o sacerdócio.

 

Trabalhei em vários conselhos — de ensino, de pesquisa, de educação — e sempre admirei o Tribunal de Contas com seus conselheiros.

 

Hoje sei que nem todo conselho precisa ser dado.

 

Às vezes, o melhor gesto é ouvir em silêncio e deixar que o outro encontre, sozinho, o próprio caminho.

 

Gabriel Novis Neves

22-01-2026




terça-feira, 27 de janeiro de 2026

"DÁ LICENÇA, MEU SINHÔ"


Dizer “com licença” não abre só passagem física.

 

Revela respeito, educação e um tempo em que as pessoas se olhavam mais.

 

Pedir licença era mais do que um gesto educado.

 

Era um modo de reconhecer o outro, de avisar a presença, de não invadir.

 

Aprendi isso cedo, observando os mais velhos, que pediam licença até para atravessar uma conversa ou passar entre duas pessoas sentadas.

 

A palavra vinha acompanhada de um leve sorriso, um aceno de cabeça, às vezes até de um pedido de desculpa antecipado.

 

Ninguém se sentia menor por pedir licença.

 

Ao contrário, quem pedia se engrandecia.

 

Era assim que a convivência se tornava mais leve, mais humana, mais respeitosa.

 

Nas casas antigas, pedir licença fazia parte do cotidiano.

 

Para entrar em um quarto, para abrir uma porta encostada, para interromper um diálogo.

 

Mesmo entre familiares o costume era mantido.

 

Era uma forma silenciosa de dizer: “eu te vejo”, “eu te respeito”, “não cheguei impondo”.

 

As crianças aprendiam pelo exemplo, repetindo o gesto com naturalidade, sem perceber que estavam sendo educadas para a vida.

 

Com o tempo, o costume foi se perdendo.

 

Hoje as pessoas chegam falando alto, atravessam espaços alheios, interrompem conversas como se tudo lhes fosse devido.

 

O pedir licença parece ter sido substituído pela pressa, pela urgência, pela falsa ideia de que o mundo pertence a quem fala mais alto.

 

Perdemos a delicadeza dos pequenos gestos, achando que eles não fazem falta.

 

Sinto falta desse hábito simples.

 

Pedir licença não atrasa ninguém.

 

Não diminui quem pede.

 

Não fragiliza.

 

Ao contrário, organiza a convivência e suaviza os encontros.

 

É um gesto que cabe em qualquer idade e em qualquer tempo.

 

Continuo pedindo licença.

 

Ao passar, ao falar, ao entrar.

 

Mesmo quando ninguém mais pede.

 

Faço isso por respeito ao outro — e também por respeito à minha própria história

 

Gabriel Novis Neves

11-01-2026




segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

SEM ESPERAR RESPOSTA


Enviei a mensagem sem esperar resposta. 

 

No início foi estranho, quase um exercício de desapego. 

 

Estamos acostumados a falar e aguardar retorno, aprovação, confirmação.

 

A palavra lançada parece pedir eco, como se só existisse plenamente quando alguém a devolve. 

 

Naquele dia, escrevi apenas porque senti vontade. 

 

Depois, deixei o telefone de lado. 

 

Não fiquei olhando a tela, nem contando minutos.

 

Não esperei o sinal, nem o som. 

 

A mensagem já havia cumprido seu papel. 

 

Percebi como é cansativo esperar respostas o tempo todo. 

 

Esperar cansa mais do que falar. 

 

E naquele silêncio encontrei uma inesperada sensação de liberdade.

 

Escrever nos dá a ilusão de criar algo nosso, embora a resposta a uma postagem aumente a autoestima, como se confirmasse nossa existência diante do outro.

 

Estou acostumado a aguardar retorno ao que publico no blog, assim como às mensagens do convívio pessoal.

 

Aprendi desde cedo que não responder era falta de educação.

 

Procuro entender o silêncio dos amigos que recebem diariamente meus textos.

 

Às vezes, nem um simples bom dia como resposta.

 

No início doeu.

 

Depois, compreendi como é exaustivo viver na expectativa.

 

Deixei para lá.

 

As pessoas são complicadas, e viver nunca foi simples.

 

Hoje vivo ‘trancado’ em um quarto e é frequente o telefone não tocar — sinal de que ninguém está interessado em saber minhas notícias.

 

Para quem, durante anos, recebeu chamadas o dia inteiro, esse silêncio foi um aprendizado pleno de sabedoria.

 

Diante da tela do computador, as palavras vão surgindo, formando frases cujo destino, desconheço, se é que existe destinatário para o que escrevo.

 

O teclado guiado pela memória, conduz ao sentimento de liberdade.

 

Escrevo com o som distante da rua, o ar-condicionado desligado, numa tarde de fim de semana.

 

A tarde se despede lentamente, e o sol caminha para se esconder, iluminando outras partes do planeta.

 

Leva consigo mensagens que talvez fiquem sem resposta — e está tudo bem.

 

Algumas palavras nascem apenas para existir, não para serem devolvidas.

 

Gabriel Novis Neves

16-01-2025






domingo, 25 de janeiro de 2026

JANELAS ABERTAS


A janela estava aberta quando acordei.

 

O vento entrava leve, mexendo a cortina devagar, como se a casa respirasse antes de mim.

 

Não lembro a que horas a abri.

 

Talvez ainda estivesse escuro.

 

O dia já tinha clareado bastante, e o barulho da rua chegava sem esforço.

 

Fechei um pouco, só o suficiente.

 

A luz continuou entrando.

 

A casa parecia acordada antes de mim.

 

Tenho acordado, ultimamente, bem depois do dia, ainda com sono acumulado.

 

Os palpiteiros dizem ser efeito do ansiolítico que tomo para dormir, antes das nove da noite.

 

Os especialistas garantem que ganhei, para me acompanhar na velhice, a disautonomia — doença sem cura, mas que não mata.

 

A minha casa acorda sempre antes de mim.

 

A claridade do dia não interfere no meu despertar, pois detesto luminosidade para dormir.

 

Mesmo zonzo, procuro o escritório para escrever sobre o cotidiano.

 

Depois de uma breve sesta, mais desperto, retorno ao trabalho até o dia se recolher.

 

Tento levar meus dias com resignação, aceitando o que me foi oferecido.

 

É melhor assim.

 

Descobri, observando o cotidiano, a riqueza que existe em compreender as coisas simples do tempo.

 

As pequenas rotinas, os silêncios da casa, a luz entrando pela fresta da janela.

 

Espero com alegria a chegada dos meus dois filhos e de suas famílias para o almoço especial deste sábado.

 

Vamos celebrar os vinte e cinco anos do meu único neto, bacharel em Direito pela Universidade Mackenzie de São Paulo, aprovado na OAB ainda no último ano do curso.

 

Hoje trabalha em um escritório de advocacia em Cuiabá.

 

Seus pais me homenagearam ao lhe darem o meu nome.

 

Há expectativa da presença da namorada, médica, para o almoço, os parabéns e as fotos do álbum da família.

 

Ele soprará as velinhas e cortará o bolo, como manda o ritual.

 

O avô lhe dará um presente moderno: um envelope perfumado, chamado PIX.

 

E assim seguimos para a festa, com votos simples — que são sempre os mais sinceros: saúde, serenidade e felicidade.

 

Enquanto isso, a janela continua aberta, deixando o dia entrar devagar, como quem sabe esperar.

 

Gabriel Novis Neves

24-01-2026




sábado, 24 de janeiro de 2026

MANHÃ SEM PRESSA


A manhã nasceu calma, sem pedir pressa. 

 

O sol entrou pela janela com delicadeza, como quem pede licença. 

 

Não havia compromissos imediatos, nem horários marcados. 

 

Levantei devagar, respeitando o ritmo do corpo. 

 

O café foi preparado sem ansiedade. 

 

Sentei-me à mesa e fiquei ali por alguns minutos, apenas olhando o dia começar. 

 

Pensei em como raramente nos permitimos esse luxo: viver sem urgência. 

 

A manhã parecia agradecer o silêncio. 

 

E eu agradeci por poder acompanhá-la sem correria, como quem não precisa chegar antes de si mesmo.

 

Vivemos hoje no mundo da pressa.

 

Acordamos com a sensação de tempo perdido, como se o dia já começasse atrasado.

 

Travamos uma guerra contra o relógio e, nessa batalha inútil, deixamos de apreciar a beleza da lentidão da natureza quando ela não exige rapidez.  

 

O sol nasce todos os dias no mesmo lugar, no mesmo horário, e se recolhe com igual tranquilidade.

 

Não demonstra pressa em cumprir seu percurso.

 

Parei para pensar na disciplina silenciosa do mundo animal, onde a pressa é desconhecida e tudo funciona em perfeita harmonia.

 

Cada ser sabe o que fazer, no espaço que lhe é destinado.

 

É reconfortante pensar nisso — e também na vida que se move sob os rios e oceanos, ou na rotina daqueles que habitam os polos Norte e Sul.

 

Ao lembrar desses ambientes, percebo como nós, humanos apressados, somos pobres em paciência.

 

Minha filha e sua família estão visitando a Suíça.

 

Além da beleza das cidades, que parecem cartões-postais, chama atenção a educação do povo e a eficiência dos serviços públicos — tudo funcionando sem atropelos, com conforto e respeito ao tempo.

 

Alugaram automóveis, símbolo moderno da pressa, mas os deixaram na garagem dos hotéis, preferindo o VLT para circular com quatro crianças.

 

Em contraste, a imagem de Cuiabá é da cidade apressada: trânsito engarrafado e transporte público de qualidade sofrível.

 

Essa pressa, afinal, herdamos de quem?

 

Dos indígenas, primeiros habitantes desta terra, que nunca tiveram pressa?

 

Ou dos portugueses nossos colonizadores, para quem a vida também corria devagar, quase parando?

 

Talvez a pressa seja invenção recente —um vício moderno que não combina com o corpo, nem com a alma.

 

Naquela manhã sem urgência, aprendi que desacelerar não é perder tempo.

 

É, antes, reaprender a habitá-lo.

 

Gabriel Novis Neves

22-01-2026




sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

CONVITE RECUSADO COM PAZ


O convite chegou como tantos outros. 

 

Li com atenção, pensei por alguns minutos e respondi que não iria. 

 

Sem desculpas longas, sem justificativas. 

 

A resposta foi simples. 

 

O mais curioso foi a sensação que veio depois. 

 

Não senti culpa, nem arrependimento. 

 

Senti paz. 

 

Aprender a recusar é um exercício difícil. 

 

Passamos a vida aceitando compromissos por obrigação. 

 

Dizer não, às vezes, é um gesto de cuidado. 

 

Com o tempo aprendi que presença forçada não é presença verdadeira.

 

Fui obrigado a aceitar inúmeros convites por dever de ofício.

 

Eram solenidades e atos oficiais.

 

Depois que me vi livre desses cargos, aposentei-me também dos convites.

 

Passei o restante da vida distante dos holofotes sociais.

 

Prefiro ser procurado em casa.

 

Como sou longevo, quase ninguém mais me convida, e eu raramente convido alguém para me visitar.

 

Passo os dias no escritório escrevendo e lendo, à espera do sábado.

 

É quando a família se reúne para o almoço semanal.

 

Os bisnetos sempre têm novidades a contar.

 

Vivem uma infância que eu nunca imaginei existir.

 

As meninas, com dois, oito e nove anos, e o menino, com cinco, estão na Suíça esquiando.

 

Segundo a avó que os acompanha, contou-me por telefone, que o comportamento deles tem sido exemplar.

 

Com exceção da menorzinha, os outros estudam em escola inglesa, o suficiente para se comunicarem na estação de esqui.

 

Aliás, as crianças se entendem em qualquer lugar do mundo.

 

Parece que o idioma da infância é único.

 

Fico encantado com o encontro entre crianças.

 

Meus pais, com baixa escolaridade e poucos recursos financeiros, nos educaram e nos deram formação superior.

 

Nós aperfeiçoamos esse ensino e mostramos aos nossos filhos, netos e agora bisnetos outras culturas.

 

Quem possui esse tesouro em casa, como eu, não precisa aceitar convites para sair.

 

Basta esperá-los em paz.

 

Gabriel Novis Neves

21-01-2025




quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

COPO DEIXADO PELA METADE


O copo ficou ali, esquecido sobre a mesa com água até a metade.

 

Não foi falta de sede, foi distração.

 

Levantei, caminhei pela casa, fiz outras coisas, e ele permaneceu no mesmo lugar, silencioso.

 

Olhei para o copo algumas vezes ao longo do dia, como quem reconhece algo familiar.

 

Pensei em quantas coisas deixamos pela metade sem perceber.

 

Conversas que param no meio, decisões adiadas, promessas feitas a nós mesmos.

 

O copo não reclamava.

 

Esperava.

 

Como tantas coisas na vida que ficam aguardando nossa atenção.

 

É verdade: adiamos tantos projetos, esquecendo que o tempo passa — e nós também.

 

Quantas viagens ficaram para depois, e o depois é hoje, quando já não tenho mais condições físicas de realizá-las.

 

Trabalhei muito no início da minha carreira profissional, sonhando que, mais adiante, gozaria a vida ao lado da minha esposa viajando pelo mundo.

 

Ela partiu cedo, deixando–me sozinho a ver navios.

 

Convivo com os fantasmas das decisões adiadas.

 

Vejo meus filhos, netos e até bisnetos como o oposto daquele copo esquecido sobre a mesa.

 

Eles não se distraem, não deixam projetos para trás, nem decisões suspensas.

 

Estão certos, pois ninguém sabe do dia de amanhã.

 

Eu tive a sorte de beber o resto da água do copo, lavá-lo e guardá-lo na cristaleira.

 

Minha parceira partiu cedo e deixou sobre a mesa um copo pela metade: conversas interrompidas, projetos abandonados, palavras que não voltam.

 

Invejo meus filhos e netos por estarem fazendo tudo no tempo certo, ensinando o caminho aos bisnetos.

 

Hoje me sinto como a água que sobra no copo: incolor, inodora, insípida e morna.

 

Não segui ninguém no meu caminho, nem soube ensinar.

 

Passados noventa anos, confesso em silêncio que errei.

 

Se pudesse recomeçar, não deixaria a água esfriar.

 

Beberia o copo inteiro, antes que a vida passasse.

 

Gabriel Novis Neves

16-01-2025




quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O HÁBITO QUE FICOU SEM FUNÇÃO


Continuei fazendo por costume. 

 

Não havia mais necessidade, nem utilidade clara. 

 

Era um hábito antigo, desses que atravessam os anos sem pedir explicação. 

 

Percebi isso numa manhã comum, enquanto repetia o gesto automaticamente. 

 

Parei por um instante e me perguntei por quê. 

 

Não soube responder. 

 

Alguns hábitos sobrevivem à razão. 

 

Ficam por afeto, por memória, por medo de mudar. 

 

Eles não atrapalham, mas também não ajudam. 

 

Apenas ocupam um espaço confortável no nosso dia a dia.

 

Quantos hábitos me acompanham pela vida inteira, mesmo agora, com mais de noventa anos completos.

 

Já morei fora de Cuiabá, viajei por cidades do Estado, pelo Brasil e conheci três continentes.

 

Muita coisa mudou.

 

Os hábitos, nem tanto.

 

Nunca dormi em quarto totalmente escuro.

 

Preciso de uma mínima claridade, ainda que seja a luz tímida do ar-condicionado.

 

Meus companheiros de quarto, adeptos da escuridão absoluta, sempre sofreram comigo.

 

Adquiri esse costume na infância, assim como meus irmãos.

 

Desconheço o motivo.

 

Meus pais nunca explicaram a causa.

 

Na antiga casa da rua do Campo, o dormitório tinha duas telhas de vidro.

 

Talvez venha daí.

 

Ou talvez não.

 

Admito que, antigamente, muitos possuíam esse hábito.

 

Carrego-o até hoje, talvez por afeto, pois não fede nem cheira.

 

Apenas me acostumei a ele e não pretendo largá-lo com mais de noventa anos.

 

Quantos penduricalhos acumulamos ao longo da vida sem saber exatamente porquê — e não largamos.

 

Os hábitos também não nos abandonam.

 

Envelhecem conosco.

 

Na natureza, alguns órgãos perdem a função com o tempo.

 

Certos hábitos também.

 

Nem por isso sentimos falta deles.

 

Ou sentimos.

 

Acordar, rezar, tomar o cafezinho, escrever: são hábitos bons, úteis, necessários.

 

 Já outros ficam ali, sem função alguma, apenas nos lembrando que nem tudo precisa fazer sentido.

 

No fim das contas, talvez o hábito mais difícil de abandonar seja este: achar que ainda mandamos neles.

 

Gabriel Novis Neves

20-01-2026