Um vento que mexe apenas na cortina parece reorganizar lembranças que estavam quietas.
As casas cuiabanas de antigamente tinham seus quartos e salas ‘protegidos’ por cortinas.
Era o detalhe que não podia faltar na decoração.
Lembro-me da minha casa da rua do Campo, toda encortinada, como se estivesse sempre pronta para um dia de festa.
Como é raro ventar em Cuiabá — e como aquelas cortinas eram enfeites indispensáveis — um simples sopro que as movia parecia reviver memórias adormecidas.
Nos dias comuns ficavam amarradas no canto das portas, deixando o vento passar sem tocá-las.
Nas festas, porém, eram soltas, e balançavam com um charme próprio, emprestando beleza à casa com o seu leve ondular.
E bastava aquele suave movimento para que lembranças guardadas aflorassem no pensamento.
Quando crianças, quantas vezes nos enrolávamos nelas, para desespero da minha mãe!
E quantos beijos adolescentes, tímidos e apressados, buscavam refúgio justamente atrás das cortinas.
Minha mãe, atenta, sempre nos surpreendia — ora flagrávamos alguém enxugando as mãos nelas, ora escondendo alguma travessura.
A inocência de antigamente, quando atiçada, é doce de reviver.
Às vezes me pergunto se aquilo que desperta em mim — como num filme antigo que revisitamos — aconteceu de fato ou foi apenas delírio da lembrança.
Mas, seja como for, para quem tem o umbigo enterrado no quintal da rua de Baixo, recordar aos noventa anos é um privilégio.
É muito bom repassar a vida em Cuiabá, quando a expectativa de vida em 1935, era de cinquenta e cinco anos!
Sou um privilegiado: deixei minha cidadezinha de vinte e cinco mil habitantes e ruas de terra batida para estudar Medicina no Rio de Janeiro — e retornar ao meu torrão natal onze anos depois.
Hoje procuro aproveitar o mais simples solavanco da natureza — até um vento discreto que mexe na cortina da minha janela — para assistir ao maravilhoso filme que foi, e continua sendo, a minha vida.
Gabriel Novis Neves
23-11-2025