segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

CAUTELOSAMENTE INÉDITAS


Alguns textos nascem completos, mas não seguem adiante.

 

Permanecem guardados — não por medo, mas por respeito ao silêncio que carregam.

 

Como escrevo quase diariamente, acumulei um bom estoque de crônicas.

 

Gosto de todas elas.

 

Cada uma revela um fragmento da minha personalidade.

 

Algumas estão guardadas há mais de um ano.

 

Outras se tornam públicas assim que termino de escrevê-las.

 

Descobri, com o tempo, que escrevo antes de tudo para mim.

 

Essas, eu guardo.

 

Há textos que não divulgo por cautela.

 

Quando o motivo é covardia, arrependo-me — pois a covardia é um ato imoral.

 

Só escrevo sobre temas que considero úteis à sociedade e à memória.

 

Tenho pouca inclinação para registrar fatos históricos friamente, porque acredito que a própria existência já é uma história.

 

Gosto dos textos que nascem completos.

 

Parecem armazenados na memória e, de repente, pedem para sair.

 

Outros também nascem inteiros, mas permanecem guardados.

 

Respeito esse silêncio.

 

Para evitar conflitos interiores, há muito deixei de escrever sobre política e futebol.

 

No esporte, ainda escorrego ocasionalmente; na política, deixo o ofício aos profissionais da escrita especializada.

 

No momento atual, comentar política interna ou internacional tornou-se um risco: o que vale hoje, amanhã já não vale.

 

O pior é que vivemos nesse mundo real, longe de fantasias.

 

Dizem que os tempos são outros — e acredito que seja verdade.

 

Quem já viveu bastante, como eu, sabe que os valores de antes eram diferentes, e, ouso dizer, mais éticos.

 

Não sou saudosista, embora assim possa parecer para quem lê meus textos.

 

Apenas relato como a vida era —e para mim, era melhor.

 

Ficou difícil escrever sobre o cotidiano, tão descaracterizado ele se encontra, cedendo espaço à ficção.

 

As prateleiras das poucas livrarias restantes estão tomadas por romances.

 

O texto que não publiquei nasceu de uma catarse cerebral e permanece guardado por respeito ao silêncio de seus personagens.

 

Gabriel Novis Neves

14-12-2025




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