Sinto certo receio do novo, talvez porque já tenha me acostumado com o velho.
O ano que findou foi tão generoso comigo e com os meus, que, do fundo do coração, eu desejaria que continuasse por mais um tempo.
São tantas as superstições que precisamos cumprir na passagem do Ano Velho para o Novo, que só mesmo levando uma cola!
Começa pela cor da roupa: branco para a paz, amarelo para o dinheiro — as preferidas de sempre.
Depois vem a lista do que pode e do que não deve ser comido, além da posição do corpo no instante decisivo: de pé direito, abraçado, rezando ou dançando.
Enfrentar o desconhecido sempre traz inquietações.
Afinal, são 365 dias inteiros à nossa frente.
O pior, porém, é a repetição burocrática que se renova a cada ano: formulários e pagamentos do IPTU, da Receita Federal, do SOMATEM.
Prova de Vida, boletos das funcionárias, E Social, Carnê Leão, taxa de condomínio.
Somam-se as mensalidades do Instituto dos Cegos, da luz, da água, do telefone, da televisão, da internet, do fisioterapeuta com atendimento domiciliar — todas debitadas religiosamente em contas bancarias.
E ainda há os imprevistos: a instalação do chuveiro elétrico em dois dormitórios, troca do armário, colar a pia do banheiro do meu quarto.
O conserto da máquina de lavar roupas, a manutenção dos aparelhos de refrigeração.
Cuidar das plantas da casa e do jardim da cobertura.
Consertar as campainhas do dormitório, do escritório e da copa.
Fazer a lista mensal dos medicamentos que uso, e duas vezes por ano, visitar o cardiologista para aferir a validade da bateria do meu marca-passo cardíaco.
Como eu gostaria de ter alguém que substituísse a minha mulher nessa cansativa missão!
E assim os meses, vão passando, sem grandes incidentes, até que em dezembro próximo, o Ano Novo, se transforme novamente em Ano Velho, dando início a mais um ciclo.
Enfim, 2026 chegou.
Espero que, daqui há um ano, eu possa escrever uma crônica melhor do que esta — sobre o Ano Novo.
Gabriel Novis Neves
31-12-2025
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