quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

ANO NOVO


Sinto certo receio do novo, talvez porque já tenha me acostumado com o velho.

 

O ano que findou foi tão generoso comigo e com os meus, que, do fundo do coração, eu desejaria que continuasse por mais um tempo.

 

São tantas as superstições que precisamos cumprir na passagem do Ano Velho para o Novo, que só mesmo levando uma cola!

 

Começa pela cor da roupa: branco para a paz, amarelo para o dinheiro — as preferidas de sempre.

 

Depois vem a lista do que pode e do que não deve ser comido, além da posição do corpo no instante decisivo: de pé direito, abraçado, rezando ou dançando.  

 

Enfrentar o desconhecido sempre traz inquietações.

 

Afinal, são 365 dias inteiros à nossa frente.

 

O pior, porém, é a repetição burocrática que se renova a cada ano: formulários e pagamentos do IPTU, da Receita Federal, do SOMATEM.

 

Prova de Vida, boletos das funcionárias, E Social, Carnê Leão, taxa de condomínio.

 

Somam-se as mensalidades do Instituto dos Cegos, da luz, da água, do telefone, da televisão, da internet, do fisioterapeuta com atendimento domiciliar — todas debitadas religiosamente em contas bancarias.

 

E ainda há os imprevistos: a instalação do chuveiro elétrico em dois dormitórios, troca do armário, colar a pia do banheiro do meu quarto.

 

O conserto da máquina de lavar roupas, a manutenção dos aparelhos de refrigeração.

 

Cuidar das plantas da casa e do jardim da cobertura.

 

Consertar as campainhas do dormitório, do escritório e da copa.

 

Fazer a lista mensal dos medicamentos que uso, e duas vezes por ano, visitar o cardiologista para aferir a validade da bateria do meu marca-passo cardíaco.

 

Como eu gostaria de ter alguém que substituísse a minha mulher nessa cansativa missão!

 

E assim os meses, vão passando, sem grandes incidentes, até que em dezembro próximo, o Ano Novo, se transforme novamente em Ano Velho, dando início a mais um ciclo.

 

Enfim, 2026 chegou.

 

Espero que, daqui há um ano, eu possa escrever uma crônica melhor do que esta — sobre o Ano Novo.

 

Gabriel Novis Neves

31-12-2025








terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A CRÔNICA E O JARDIM


Publico diariamente uma crônica sobre o cotidiano, quase sempre acompanhada por uma flor do jardim da minha cobertura.

 

Curiosamente, há dias em que os comentários se detêm mais na beleza das flores do que no texto escrito.

 

Hoje, substitui a flor por um pé de jabuticaba do jardim, carregado de frutos maduros.

 

Os comentários foram unânimes: elogios às pequenas frutas pretas, deliciosas quando consumidas ao natural.

 

Acredito até que minha crônica sobre ‘Perguntas Repetidas’ tenha sido lida, mas o encantamento maior ficou mesmo com a beleza das jabuticabas do meu jardim.

 

Sempre convivi com flores, árvores e seus frutos.

 

Achava tudo isso absolutamente normal, pois as casas cuiabanas, com seus quintalões generosos, eram uma verdadeira festa para os olhos: árvores frondosas, chão úmido, sombras onde o sol raramente penetrava.

 

Ruas, avenidas e praças eram fartamente arborizadas, muitas delas com árvores frutíferas à disposição de todos.

 

Para os mais novos — que talvez não saibam — a rua de Cima, entre o bar do meu pai e a rua Cândido Mariano, tinha árvores em suas calçadas, protegendo do sol da tarde o Bar do Bugre, o Bar Pinheiro, a Prefeitura e a Câmara Municipal, o Café Suave e o Bar Sargentini.

 

No meu retorno à cidade natal, fui trabalhar como Diretor do Hospital Estadual Psiquiátrico, no Coxipó da Ponte.

 

Minhas duas primeiras obras foram a construção de um jardim interno no pátio de recreação e outro na entrada social do hospital.

 

Mais tarde, na implantação da nossa Universidade Federal, transformei sessenta hectares de cerrado em áreas de mata alta, criando sombras generosas entre os prédios de concreto.

 

Essa paixão pelas plantas herdei do meu bisavô materno, gaúcho, militar engenheiro, responsável pela construção do primeiro Jardim Público de Cuiabá, inaugurado como Praça Alencastro.

 

À época, o presidente da República era o Marechal Deodoro da Fonseca; o diretor das obras do Exército, o engenheiro militar Floriano Peixoto; e o governador de Mato-Grosso, o coronel Alencastro.

 

O avô do meu pai era Américo de Vasconcelos, que veio acompanhado de esposa argentina Leonarda e da filha única, Eugênia, carioca.

 

Eugênia casou-se com Gabriel de Souza Neves, com quem teve quinze filhos: dez homens e cinco mulheres.

 

Adoro jardins, plantas, árvores, flores e frutas.

 

Elas também ornamentam minhas crônicas.

 

Gabriel Novis Neves

29-12-2025






segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O MÉDICO QUE VIROU PACIENTE


Há um instante exato em que o jaleco troca de lado.

 

A sala de espera ensina lições que nenhum livro de Medicina descreveu.

 

Como médico, observo que somos, muitas vezes, clientes indesejados de nós mesmos.

 

Discutimos diagnósticos, interferimos na conduta terapêutica, criamos inseguranças na hipótese diagnóstica — e até no sucesso do tratamento.

 

Na sala de espera comportamo-nos como médicos dos outros pacientes.

 

Como professor no Hospital Universitário, descobri que o verdadeiro consultório era a sala de espera.

 

Lá, uma paciente conversava com as outras sobre sintomas que jamais revelava ao médico.

 

As confidências circulavam livres, sem o peso do jaleco.

 

Resolvi então sentar-me entre elas, como simples acompanhante, sem o uniforme branco que denuncia o médico.

 

Quando eram chamadas, eu entrava sorrateiramente e me colocava ao lado do interno — estudante do quinto e sexto ano da faculdade de Medicina.

 

As queixas que se ouviam lá fora eram cuidadosamente escondidas do médico — consideradas por elas, ‘pouco importantes’.

 

No entanto, ali estavam pistas valiosas para uma boa anamnese.

 

A sala de espera me ensinou o que os livros ignoram.

 

O jaleco branco tem o poder de transformar estudantes em sábios instantâneos, afastando-os dos pacientes.

 

Os pediatras sabem disso: atendem sem o branco para não assustar as crianças.

 

Criança tem medo do jaleco, não de quem o veste.

 

Deveria existir no curso de Medicina, a disciplina ‘Sala de Espera’ — a mais humana das que cursei, na vida.

 

É ali que o paciente se sente à vontade para expor o que guarda no fundo do coração,

 

facilitando o diagnóstico e aproximando o médico da sua verdadeira missão.

 

Os livros de Medicina ensinam tecnologias.

 

A sala de espera ensina humanidade.

 

E nenhuma página acadêmica descreveu, até hoje, a grande lição que ela oferece: é o único lugar onde o médico se comporta como paciente.

 

Gabriel Novis Neves

11-12-2025




domingo, 28 de dezembro de 2025

PERGUNTAS REPETIDAS


É delicado falar de memória, esquecimento, afeto e cuidado.

 

Quantas vezes encontramos pessoas que repetem a mesma pergunta e, conforme o grau de intimidade, somos colocados numa situação desconfortável.

 

Não sabemos se corrigimos, se respondemos novamente ou se silenciamos por respeito.

 

Trata-se também de um tema médico, pois envolve memória, esquecimento, afeto e carinho.

 

Com o avançar da idade e o envelhecimento do organismo, surge uma série de problemas, mais acentuados em determinados setores do corpo e da mente.

 

A memória com seus transtornos e lapsos; o afeto e o carinho, por vezes diminuídos, tornam-se alvos frequentes do envelhecer.

 

Tenho noventa anos e alguns meses.

 

Quando me queixo aos meus excelentes médicos das dores nos joelhos, da região plantar dos pés ou da possibilidade de a bateria do meu marca-passo cardíaco estar prestes a vencer, a resposta costuma ser única e reconfortante: — mas você está bem da memória.

 

Cuidar das próprias contas, escrever diariamente, tratar com afeto os seus — especialmente os bisnetos — parece compensar todos os outros incômodos da velhice.

 

Confesso que ninguém demonstra muita solidariedade com esses pequenos sofrimentos que o tempo impõe.

 

Com a evolução da medicina, a chamada ‘pergunta repetida’ passou a ser fortemente associada à doença de Alzheimer, que ainda não tem cura.

 

Quando esse sintoma aprece em jovens, deve ser prontamente investigado por um neuro-psiquiatra, sobretudo quando vem acompanhado de esquecimento e perda do afeto.

 

Confesso a dificuldade de conversar com alguém que repete as mesmas perguntas, recebendo sempre as mesmas respostas.

 

Nessas situações, é inevitável pensar — e afastar — algo mais grave, como tumores cerebrais.

 

A memória muitas vezes ignorada em consultas médicas de rotina, só é verdadeiramente valorizada quando começa a falhar.

 

O esquecimento quase sempre caminha junto com os distúrbios da memória.

 

Já a perda do afeto e do cuidado costuma estar mais relacionada as alterações da personalidade.

 

São patologias sérias, que podem acometer qualquer um de nós.

 

Fazer uma pergunta e repeti-la ocasionalmente é normal.

 

Repeti-la constantemente, porém, indica que a pessoa necessita de avaliação e ajuda médica.

 

Graças a Deus, ainda possuo uma memória privilegiada — embora os nomes próprios, vez ou outra, insistam em fugir.

 

Gabriel Novis Neves

06-12-2025






sábado, 27 de dezembro de 2025

EFEITOS DO NATAL


Acordei hoje cedo com uma mensagem de um amigo, um pouco mais novo do que eu.

 

Dizia que na semana de Natal era tomado por uma imensa tristeza.

 

Viúvo e solitário, passava esses dias afastado de todos, embora tivesse pais, filho, filha, tia e sobrinhos.

 

Refugiava-se na casa de campo, na companhia apenas de gatos e cachorros castrados.

 

Procuro compreender a minha tristeza natalina jogando a culpa na infância.

 

Nunca tive Natal.

 

Meu pai trabalhava no bar justamente na noite do nascimento de Jesus.

 

Agora, com noventa anos, faço uma concessão: dou uma passadinha rápida na casa da minha filha.

 

Logo retorno para casa, morrendo de sono — e um pouco triste.

 

O próximo Natal só virá no fim do ano que vem, restando até lá apenas uma réstea dessa tristeza silenciosa.

 

Algo parecido acontece comigo no dia 31 de dezembro, mas por outro motivo: novamente a lembrança do meu pai no bar.

 

Naquela noite, 31 de dezembro já era Carnaval.

 

Praias, ruas, avenidas, bares e sambódromos em plena euforia.

 

O morro descia para o asfalto com suas escolas de samba, mulatas e baterias.

 

Em 1954 passei o Natal e Ano Novo estudando para o vestibular, com a zoeira das ruas entrando pela madrugada.

 

Nesse ano ecoava pela noite um sucesso musical de Zé Kéti.

 

A tristeza sempre me acompanhou nesses dias.

 

Creio que sou mais introvertido do que melancólico.

 

Escrevo, aos trancos e barrancos, esta crônica pós-Natal.

 

As estatísticas dizem que esse sofrimento atinge boa parte da população no fim do ano.

 

Invejo as crianças que parecem felizes o ano inteiro.

 

Criança triste, com certeza, está doente.

 

Quando eu era menino, um freguês do bar do meu pai sempre perguntava se eu estava com febre.

 

Era porque eu vivia quieto demais.

 

Acabei apelidando-o de ‘o homem da febre’.

 

Meu amigo me contou que a tristeza dele já foi embora.

 

A minha também está mais leve.

 

Para me proteger dessa melancolia natalina, preciso ter a destreza dos comedores de piraputanga com espinhos, jogando-os habilmente pelos cantos da boca.

 

Enquanto isso, sigo acrescentando Natais ao meu longo currículo.

 

Gabriel Novis Neves

26-12-2025




sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O FUTURO QUE NÃO ME INTERESSA


Só quem passa por essa situação tem noção do que seja futuro. 

 

O futuro, para mim, deixou de ser horizonte e virou ruído distante. 

 

Não faço planos longos, não cultivo expectativas, não negocio com o amanhã. 

 

Aprendi a respeitar o hoje, esse território curto, porém intenso, onde cada pequeno gesto ganha valor. 

 

Acordar, levantar com cuidado, preparar o café, ler o jornal, escrever algumas linhas — isso basta. 

 

O futuro sempre foi uma invenção dos jovens e dos inquietos. 

 

Ele exige pressa, ambição projetos. 

 

Na minha idade, ele cobra demais e oferece pouco. 

 

Prefiro o ritmo lento do presente, que não promete nada, mas entrega o que pode. 

 

Um telefonema inesperado, uma visita breve, uma memória que chega sem aviso. 

 

O tempo, agora, não corre. 

 

Ele caminha. 

 

E caminha comigo. 

 

A ausência da companheira não aponta para o futuro; ela pesa no agora. 

 

Está na cadeira vazia, no silêncio da casa, na falta de opinião sobre o almoço ou o noticiário da noite. 

 

Não é dor espetacular, é ausência cotidiana — dessas que não fazem barulho, mas ocupam espaço. 

 

Vivo cuidando do que ainda está sob meu alcance: a saúde possível, a casa que insiste em envelhecer comigo, os textos que escrevo para organizar pensamentos e lembranças. 

 

Escrever, aliás, é meu modo de permanecer. 

 

Não penso em legado; penso em arrumar o dia. 

 

O futuro não me interessa porque ele não me pertence mais. 

 

O presente, sim. 

 

Ele é meu, inteiro, mesmo curto. 

 

E enquanto houver manhã, palavra escrita, memória viva e algum afeto circulando, estarei em dia com a vida. 

 

O resto é apenas calendário. 

 

Gabriel Novis Neves 

12-12-2025




quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

OBJETOS GUARDADOS


Existe sempre um objeto esquecido em alguma gaveta que, à primeira vista, não serve para nada.

 

Não tem valor comercial, não funciona, não enfeita.

 

Mesmo assim, permanece.

 

Não lembramos quando chegou, mas sabemos, com uma certeza estranha, que não podemos jogá-lo fora.

 

É um pacto silencioso entre nós e a memória.

 

Pode ser uma chave sem porta, um botão sem camisa, um papel amarelado escrito com letra antiga.

 

O objeto não fala, mas insiste.

 

Abrimos a gaveta, olhamos, tocamos de leve e a fechamos outra vez.

 

Ainda não é hora.

 

Nunca é.

 

Talvez o objeto não esteja esperando ser usado, mas lembrado.

 

Talvez seja apenas um pretexto para manter vivo um tempo que não volta.

 

Guardamos porque, no fundo, tememos que, ao descartá-lo, algo de nós siga junto.

 

Na mesinha de cabeceira da cama acumulo uma infinidade de pequenos objetos sem utilidade prática.

 

São tantas chaves que suspeito que algumas pertençam a antigas moradias.

 

Esticadores de colarinho se multiplicam, vestígios da época das camisas de manga comprida e da gravata diária.

 

Há anotações indecifráveis em pedaços de papel, lentes antigas de óculos que já não servem, acompanhadas de receitas desbotadas pelo tempo.

 

Abotoaduras de um passado remoto.

 

Cartões da antiga loteria esportiva, dos tempos da zebrinha.

 

Penso em esvaziar a gaveta, mas me falta coragem.

 

Tenho a sensação de que, junto com os objetos, iria embora uma parte de mim — de uma época que me marcou.

 

Como nos apegamos aos bens materiais, mesmo àqueles sem valor algum.

 

Será assim com todos ou apenas com os velhos como eu?

 

Reparo que os idosos guardam até envelopes vazios.

 

Resultados de exames de imagem, com seus volumosos invólucros, ocupam boa parte do armário de roupas.

 

Meu apartamento é duplex, com inúmeras gavetas, todas repletas de fragmentos da minha memória.

 

Continuarei com elas assim, intactas, na doce ilusão de que um dia ainda me serão úteis — ou, quem sabe, apenas necessárias para que eu continue sendo quem sou.

 

Gabriel Novis Neves

21-12-2025




quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

MINHA PRIMEIRA NETA


Nasceu numa noite de vinte e quatro de dezembro, após um longo trabalho de parto.

 

Foi o melhor presente de Natal que ganhei até hoje.

 

Todo o amor que eu trazia guardado no peito foi projetado naquela frágil criancinha.

 

Ali, no berço da maternidade, tudo acontecia pela primeira vez — e cada gesto era celebrado como uma vitória da vida.

 

Na noite do nascimento de Cristo, nascia também a minha primeira neta.

 

Sua avó materna se debruçava sobre ela, num gesto de carinho sem fim.

 

Enquanto a cidade ceava, nós festejávamos sua primeira mamada, sugando o seio da mãe, numa cena sagrada. 

 

Havia o ritual de evitar a regurgitação, com leves batidas de dois dedos nas costas do recém-nascido.

 

A troca da primeira fralda — que no meu tempo de criança, era jogada cuidadosamente no telhado da casa.

 

Naquela época, aliás, o nascimento de uma criança em casa seguia rituais bem diferentes dos partos em maternidade.

 

A placenta era enterrada no quintal.

 

O marido fervia a água para esterilizar a bacia do primeiro banho, assim que o bebê chorasse.

 

A parteira trazia o fio para amarrar o cordão umbilical, a tesoura e o mercúrio cromo para o curativo.

 

Minha primeira neta ficou tão ligada a mim que, até hoje, faz questão de almoçar comigo no dia do seu aniversário — mesmo tendo de preparar a ceia em sua própria casa.

 

As pequenas coisas da vida — o nascimento de uma criança, seu crescimento e desenvolvimento — nunca esquecemos.

 

Vivem dentro de nós, acompanhadas de uma saudade danada daquele tempo.

 

Crescem, tornam-se adultos, e tudo fica diferente.

 

Os adultos são burocráticos nas conquistas, sem o encanto espontâneo que as crianças nos oferecem, sempre cheias de novidades.

 

Tenho três bisnetas e um bisneto aqui em Cuiabá, e outro na cidade do Porto, em Portugal.

 

A distância não diminui o amor que sinto por eles, embora com os daqui eu tenha um convívio quase diário.

 

Aos sábados, fazem questão de almoçar com o biso, beijá-lo e serem fotografados.

 

As bisnetas — cada uma mais linda que outra — vestem vestidos de tecidos iguais e me pedem à benção quando chegam e ao sair.

 

Quase sempre trazem amiguinhas para acompanhá-las.

 

Hoje é aniversário da minha neta mais velha. Quero todas juntas comigo, no almoço do seu aniversário.

 

Gabriel Novis Neves

24-12-2025






terça-feira, 23 de dezembro de 2025

NATAL NA INFÂNCIA


Fui criado em casa de católicos praticantes, mas sem o hábito de reunir a família na noite de Natal para esperar o nascimento do menino Jesus, filho de Maria e José, que veio ao mundo para nos salvar.

 

O meu pai trabalhava na noite de Natal, e só retornava para casa depois da Missa do Galo, celebrada na Catedral Metropolitana de Cuiabá por Dom Aquino Correa, com o coral dos clérigos salesianos, órgão tocado por Zulmira Canavarros e o soprano de sua filha Maria.

 

Mamãe ficava em casa cuidando da filharada que dormia cedo.

 

Naquele tempo fui ensinado a escrever carta ao Papai Noel pedindo presentes.

 

Minha mãe recolhia as cartas e dizia que na noite do dia 24 ele iria trazer enquanto dormíamos.

 

Dizia-nos que ele vinha do Céu e entraria pela chaminé da cozinha quando a nossa casa estava fechada, e colocaria nossos pedidos debaixo das nossas camas ou dentro dos sapatos.

 

Quando meu pai voltava do bar, ele e minha mãe, em voz baixa, colocavam os presentes, com todo cuidado para não nos acordar ou confundir o remetente.

 

Assim foram as minhas noites de Natal, até eu me casar.

 

Nunca assisti a uma Missa do Galo e tudo que sabia era por conversas da rua.

 

Em casa nunca tivemos ceia de Natal, distribuição de presentes e confraternizações.

 

Minha mulher, católica, sempre reuniu a família, irmãos, sobrinhos, amigos, na ceia da noite de Natal, tradição que passou aos filhos e netos.

 

Vou passar o Natal na casa da minha filha, com filho, genro, nora, netos, familiares e bisnetos.

 

Haverá ceia, decoração natalina, troca de presentes, músicas e muita alegria.

 

Acho tudo tão diferente dos meus tempos de criança, quando acreditávamos em Papai Noel, hoje uma profissão rendosa!

 

Sinto-me deslocado no meio da multidão, pois Natal para mim, significava meu pai trabalhando no bar.

 

Gabriel Novis Neves

22-12-2025




segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

A CONVERSA ESPERAVA O TELEFONE


Não foi o telefone que interrompeu a conversa. Foi a hierarquia do tempo, sempre mudando de dono.    

 

Quando foi instalada a Central Telefônica de Cuiabá, pelos irmãos Lotufo, possuir um telefone fixo era privilégio raro.

 

A central funcionava em um sobrado ao lado direito do Palácio da Instrução, com vista generosa para a Praça da República.

 

Ali, uma telefonista sentada diante de um grande painel, recebia as chamadas que chegavam pelos fios estendidos nos postes da cidade.

 

Cada aparelho tinha número e manivela.

 

Girava a manivela, chamava-se a central, e aguardava-se.

 

O bar do meu pai foi um dos primeiros a adquirir a novidade trazida por dois irmãos italianos.

 

O telefone do bar fazia parte da primeira dezena de números da cidade.

 

A telefonista sabia de tudo.

 

Sabia quem estava em casa, quem tinha ido aos Correios e Telégrafos, quem passara na farmácia do "seo" Vieira.

 

Muitas vezes aconselhava: ‘Ligue mais tarde, a pessoa ainda não voltou’.

 

E avisava quando ela retornava.

 

O telefone do bar também prestava serviço de utilidade pública.

 

Atendia aos taxistas que faziam ponto ao lado, servia de recado, de referência e de socorro.

 

Com o tempo, veio a modernidade.

 

Os telefones fixos viraram troféus.

 

Raras casas ainda os possuem.

 

E, curiosamente, o telefone deixou de interromper conversas.

 

Hoje, a hierarquia é outra.

 

A prioridade não é mais da telefonista, nem do aparelho.

 

É de quem atende.

 

Todos têm ‘binas’, escolhem quem ouvir, quem ignorar, quem silenciar.

 

Até as crianças comandam seus próprios silêncios.

 

O poder mudou de lugar.

 

A conversa, que antes esperava o telefone, agora é interrompida por quem decide atender — ou não.

 

Restou a memória dos tempos antigos, quando o robô ainda não fazia parte da nossa vida.

 

Gabriel Novis Neves

19-12-2025




domingo, 21 de dezembro de 2025

COMEMORAÇÕES E LEMBRANÇAS


Dezembro é um mês ao mesmo tempo alegre e triste.

 

Foi neste mês que se criou a Universidade Federal de Mato Grosso, há cinquenta e cinco anos — um sonho acalentado desde 1808, ainda em Vila Bela da Santíssima Trindade.

 

Eu era jovem e vivia o entusiasmo do ‘Novo Mato Grosso’, implantado pelo governador Pedro Pedrossian.

 

Era o sonho transformado em realidade.

 

A universidade nasceu para oferecer oportunidades aos jovens deste lado do Brasil e impulsionar o desenvolvimento social e econômico do Estado.

 

E a nossa universidade comemorou intensamente seus cinquenta e cinco anos. 

 

Fui muito lembrado, numa demonstração de carinho que me emocionou profundamente.

 

Cuiabá transformou-se em uma metrópole, hoje com mais de setecentos mil habitantes.

 

Também neste mês se concretizou um sonho iniciado em 1980, com a inauguração do Hospital Central do Estado.

 

As obras de um hospital central universitário no Câmpus de Cuiabá, não se viabilizaram à época, em razão da crise mundial do petróleo, que provocou a redução dos investimentos do Governo Federal.

 

Essa obra teve o seu início no governo Júlio Campos, quando eu exercia o cargo de secretário de Saúde.

 

Somente agora foi inaugurado, pelo governador Mauro Mendes, como Hospital Central do Estado.

 

A nossa Academia de Medicina outorgou-me o título honorífico de Membro Emérito.

 

Esses acontecimentos seriam, por si só, suficientes para me fazerem feliz, entre tantos outros que marcam este mês.

 

Entretanto, uma tristeza profunda se impõe quando lembro daqueles que partiram e muito me ajudaram.

 

Ninguém constrói nada sozinho e cada colega que se vai aumenta a minha dor.

 

Essa dor torna-se mais intensa em dezembro, contrastando com a alegria do Natal e a esperança do Ano Novo que se anuncia.

 

Vivo essa contradição emocional há alguns anos — alegria e tristeza caminhando juntas.

 

Tenho, ainda assim, todos os motivos para agradecer; um ano que se despede, outro que chega promissor, a família unida e saudável, e eu completando mais um ano de vida, seguindo firme rumo ao meu centenário.

 

Gabriel Novis Neves

20-12-2025




sábado, 20 de dezembro de 2025

QUARENTA INFUSÕES


Completei neste mês de dezembro quarenta infusões de imunoglobulina humana.

 

São nove frascos de 5 g/100 ml aplicados mensalmente por via venosa, no hospital do meu plano de saúde.

 

Um ritual silencioso, repetido, quase burocrático — e, ainda assim, profundamente vital.

 

Descobri por acaso que o meu organismo não fabricava imunoglobulinas e suas subclasses em quantidade suficiente para me proteger das infecções, especialmente as respiratórias.

 

Uma deficiência invisível, dessas que não doem, não sangram, mas fragilizam.

 

Foi essa descoberta que me fez conhecer melhor as UTIs dos hospitais da cidade e os serviços de home care.

 

Aos 87 anos, ao realizar uma bateria de exames de rotina, deparei-me com essa anormalidade tardia, revelada pela precisão da ciência.

 

O tratamento é simples.

 

Foi amplamente utilizado durante a pandemia da Covid-19, a ponto de esgotar os estoques mundiais dos fabricantes — inclusive no Brasil.

 

Depois de iniciar a reposição mensal das imunoglobulinas, ainda enfrentei uma pneumonia leve, tratada em casa, sem febre nem falta de ar.

 

Mais tarde, uma infecção urinária exigiu dois dias de internação hospitalar, apenas por cautela.

 

Episódios que confirmam: a medicina não elimina o risco, mas o torna administrável.

 

São poucas as pessoas — sobretudo na minha idade — que já realizaram esse exame de sangue.

 

As doenças imunológicas ainda são pouco investigadas, e seus especialistas permanecem como ilustres desconhecidos, trabalhando longe dos holofotes.

 

Acompanha meu tratamento uma médica infectologista, ex-aluna da nossa UFMT, assessorada por um médico imunologista, também formado na mesma casa.

 

Um reencontro da vida com a universidade que ajudei a construir

 

Às vezes escrevo crônicas sobre temas médicos e me ofereço como exemplo.

 

Não por vaidade, mas por dever: alertar alguém que, sem saber, convive com o mesmo mal silencioso.

 

Quarenta infusões marcam um capítulo importante da minha trajetória como paciente.

 

Compartilho esse percurso com meus leitores como prova dos avanços da ciência médica — avanços que, infelizmente, ainda estão ao alcance de poucos.

 

Cuidando da saúde como tenho feito, meu prognóstico é de uma longa jornada.

 

Mas faço um apelo: que a indústria farmacêutica brasileira continue trabalhando, ao menos, para suprir o nosso mercado interno.

 

Hoje, Irã e China figuram entre os principais fornecedores mundiais de imunoglobulina humana.

 

Enquanto isso, nossos cientistas do Instituto Oswaldo Cruz, em Manguinhos, e do Instituto Butantã em São Paulo, seguem precisando de mais apoio governamental.

 

Da minha turma de médicos, apenas dois fizeram carreira em Manguinhos.

 

Temos, sem dúvida, que melhorar essa curva.

 

Gabriel Novis Neves

16-12-2025




sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

ATRASADO DE PROPÓSITO


Sempre desconfiei daquele relógio da sala.

 

Não era defeito.

 

Era escolha.

 

Ele atrasava alguns minutos todos os dias, com uma teimosia elegante, como quem se recusa a acompanhar a pressa do mundo.

 

Não adiantava trocar de pilha, bater de leve na caixa ou conferir com o horário do rádio.

 

No dia seguinte, lá estava ele, novamente atrás do tempo oficial — mas exatamente onde queria estar.

 

Aprendi cedo que relógios não marcam apenas horas.

 

Marcam hábitos, ansiedades, compromissos e culpas.

 

O relógio da sala, aquele, parecia imune a tudo isso.

 

Atrasava de propósito para lembrar que nem tudo precisa chegar no horário.

 

Enquanto os outros relógios da casa obedeciam ao celular — essa autoridade moderna e impiedosa — ele permanecia fiel à sua própria noção de tempo.

 

Para ele, o café ainda estava quente, a conversa não havia terminado e a tarde podia se esticar um pouco mais.

 

Foi testemunha silenciosa de almoços longos, cochilos depois do jornal, visitas que demoravam a ir embora.

 

Nunca apressou ninguém.

 

Ao contrário: oferecia desculpa honesta para chegar depois, sair mais tarde ou fingir que ainda havia tempo.

 

Quando alguém perguntava a hora, eu respondia olhando para ele, sabendo que dava uma resposta imprecisa, porém confortável.

 

Era uma hora sem cobrança, sem alarme, sem pressa.

 

Uma hora humana.

 

Com o passar dos anos, percebi que também comecei a atrasar de propósito.

 

Não por descuido, mas por escolha.

 

Aprendi que chegar sempre no horário exato rouba o direito de respirar entre um compromisso e outro.

 

Hoje, o relógio continua na parede, um pouco torto, como sempre esteve.

 

Atrasa menos do que eu, confesso.

 

Talvez tenha aprendido comigo.

 

Num mundo que corre, ele resiste.

 

Marca um tempo que não cabe em agendas nem em telas luminosas.

 

Um tempo antigo, imperfeito e sábio.

 

No fundo, aquele relógio nunca esteve errado.

 

Errado é acreditar que o tempo precisa obedecer.

 

Gabriel Novis Neves

17-12-2025