terça-feira, 31 de março de 2026

MESA POSTA COM ESTUDOS


No pequeno quarto da pensão havia uma mesa simples, onde eu passava grande parte do meu tempo.

 

Sobre ela se acumulavam livros, cadernos e anotações da faculdade.

 

Era ali que eu revisava as aulas do dia e me preparava para provas que nunca pareciam poucas.

 

Muitas noites avançavam silenciosas enquanto eu percorria páginas e mais páginas de Medicina.

 

Aquela mesa modesta acabou se tornando uma fiel companheira da minha vida de estudante.

 

Eu lia com os olhos e compreendia, enquanto alguns colegas preferiam estudar em voz baixa.

 

Havia os que varavam a noite inteira, e outros que dormiam cedo para estudar na madrugada.

 

No período do vestibular, os estudos se tornaram ainda mais intensos.

 

A formação ginasial e científica em Cuiabá deixava lacunas, sobretudo quando comparada à dos colegas do Rio, vindos de colégios como Santo Inácio ou Pedro II.

 

Muitos deles sequer precisavam de cursinho para enfrentar o disputadíssimo vestibular de Medicina.

 

Lembro-me bem da pequena mesa onde estudava, saindo apenas para o cursinho na Cinelândia.

 

O trauma do vestibular foi tão grande que, por momentos, cheguei a imaginar um acidente que me livrasse daquela pressão.

 

Eu era o primogênito e carregava, em silêncio, a obrigação de ser aprovado —ainda mais com a confiança que meus pais depositavam em mim.

 

Durante anos sonhei com o vestibular.

 

Eram pesadelos que me despertavam no meio da noite.

 

Mas a vida segue, e as preocupações apenas mudam de nome.

 

Vieram os desafios do exercício da Medicina no interior, ainda carente de recursos.

 

A ultrassonografia gestacional, hoje tão comum, só chegou duas décadas depois do meu retorno a Cuiabá.

 

Naquele tempo, atendíamos pacientes indigentes e pagantes em consultórios simples, com os meios que tínhamos.

 

Depois vieram as preocupações com os filhos, os netos e os bisnetos.

 

Agora, chegam as reflexões sobre a própria velhice e os cuidados que ela exige, mesmo quando a saúde se mantém firme.

 

Hoje, no escritório do meu apartamento, diante da mesa do computador, volto a passar grande parte do meu tempo.

 

Já não estudo para provas — estudo a memória.

 

E transformo lembranças em crônicas.

 

No fim, a mesa mudou.

 

Mas continuo o mesmo aprendiz da vida.

 

Gabriel Novis Neves

26-03-2026





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