O primeiro contato prolongado com um hospital marca qualquer estudante de Medicina.
Ainda jovem, vindo de Cuiabá, estranhei aquele cheiro característico que parecia impregnar todos os corredores.
Era uma mistura de éter, desinfetante e ansiedade humana.
Caminhava atento, observando médicos apressados, enfermeiras vigilantes e pacientes à espera de notícias.
Aos poucos, compreendi que aquele ambiente faria parte constante da minha vida profissional.
O hospital não era apenas um prédio repleto de salas e enfermarias — era o lugar onde a fragilidade e a esperança conviviam lado a lado.
Na primeira semana de aula, ainda com a cabeça raspada — trote oficial da Medicina da Praia Vermelha — o presidente do Centro Acadêmico pediu licença ao professor que ministrava a aula teórica de Histologia para fazer um convite aos calouros.
— Hoje, às 19 horas, no auditório do Hospital e Pronto Socorro Miguel Couto, o professor Nova Monteiro iniciará um curso de Traumatologia.
Perguntei aos colegas se aquilo era trote.
Disseram que não, que era melhor comparecer.
Foi a primeira vez que entrei em um Hospital no Rio de Janeiro.
Meu primo, já aluno do quinto ano, viu-me no auditório e se aproximou:
— Estou de plantão.
Quando terminar a aula, venha comigo.
Vou fazer uma apendicectomia e quero que você assista.
Pela primeira vez senti o cheiro de um Centro Cirúrgico.
Uma enfermeira ajudou-me a vestir o uniforme: a calça, o jaleco, as sapatilhas, o gorro e a máscara, recomendando cuidado para não esbarrar na equipe cirúrgica.
O ambiente me envolveu de forma inesperada.
Comecei a passar mal.
O pior é que, naquele instante, eu não confiava plenamente na perícia do meu primo como cirurgião.
Quando ele fez a incisão e o sangue apareceu, tive uma lipotimia.
Fui retirado do centro cirúrgico, cabeça baixa, água e silêncio.
Minha estreia no hospital não poderia ter sido pior.
E, no entanto, foi ali que comecei a me tornar médico.
Gabriel Novis Neves
17-03-2026
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