A cuidadora organiza os remédios do dia com atenção.
Cada comprimido tem seu horário e sua função.
Não reclamo.
É o preço da continuidade.
Cuidar do corpo virou tarefa diária, quase um ritual de respeito à vida.
Sempre fui saudável.
Comecei a tomar remédios depois dos cinquenta anos.
Ao longo do tempo, fui fazendo pequenos ajustes na medicação.
Tudo começou para controlar uma pressão arterial levemente elevada.
Quantos mais anos acumulei, maior se tornou o número de comprimidos.
Hoje memorizo os horários, mas a administração ficou sob responsabilidade da cuidadora de plantão.
No café da manhã são onze comprimidos.
Assim prossigo no almoço, no lanche, antes do jantar — geralmente um prato de sopa de legumes com carne moída de boi ou frango batida no liquidificador—e, por fim, ao deitar.
Respeito a vida cuidando do meu corpo, tomando os remédios receitados pelos especialistas.
Enquanto isso, meu bisneto de quatro anos realizou uma endoscopia digestiva alta — exame esse que fiz apenas depois dos setenta.
Recentemente ofereci-me como voluntário para servir de ‘cobaia’ em uma bateria de testes conduzidos por uma psicóloga, interessada em avaliar minha saúde mental.
Ela concluiu uma pós-graduação na área, adquiriu o material necessário e precisava de alguém para validar seus conhecimentos.
Avisou-me que o processo será demorado; talvez sejam necessárias três manhãs de avaliações.
Depois saberei mais sobre o funcionamento global do meu cérebro.
Farei uma avaliação neuropsicológica.
Muitas pessoas convivem com cansaço mental, dificuldade de foco ou sobrecarga emocional sem compreender exatamente o que acontece.
A avaliação ajuda a entender isso de forma técnica e estruturada.
Quanto ao meu cérebro, descobri ter disautonomia, em duas avaliações por ultrassonografia cerebral, realizadas
em anos diferentes, nos dois hospitais mais conhecidos de São Paulo.
Em Cuiabá ainda não dispomos desse aparelho nem de neurologista habilitado para esse exame.
Fiz fisioterapia específica, importei medicamentos e os utilizei por anos, em doses máximas.
É uma doença sem cura, mas que não mata.
Provoca sintomas neurológicos ligados ao equilíbrio, dificultando minha locomoção.
A psicóloga que iniciou o estudo do meu cérebro já conhece esse distúrbio.
Espero que, ao menos, consigamos diminuir os sintomas.
Porque envelhecer também é isso: aprender a tomar o remédio na hora certa — e continuar confiando na vida.
Gabriel Novis Neves
01-03-2026
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