Chegar ao Rio de Janeiro para estudar Medicina foi como atravessar uma fronteira invisível entre dois mundos.
Saí da calma de Cuiabá para encontrar uma cidade vibrante, barulhenta e cheia de movimento.
Embarquei em Cuiabá num avião DC3.
A decolagem foi às seis horas da manhã.
Fizemos escalas em várias cidades e só pousamos no Aeroporto Santos Dumont ao cair da noite.
Meu tio Sinhô, irmão caçula do meu pai, e meu primo Carlos Alberto estavam à minha espera. Fui jantar na casa dele, no final do bairro Leblon.
O jantar foi servido por um maître e um garçom uniformizados.
Eu, que mal sabia lidar com tantos talheres, fiquei constrangido.
Resultado: praticamente não jantei.
Curiosamente, não me lembro de nenhum passageiro que viajou comigo naquele avião.
Deixei o casarão da rua do Campo por um pequeno quarto de pensão.
Morei em várias pensões, em quatro bairros diferentes, até retornar a Cuiabá, já casado com uma argentina-brasileira.
As ruas pareciam nunca dormir, e as pessoas caminhavam com pressa, como se estivessem sempre atrasadas para algum compromisso importante.
No início, tudo me causava surpresa: os bondes, os prédios altos, o mar que eu via pela primeira vez com tanta proximidade.
Aos poucos fui entendendo que aquela cidade intensa também faria parte da minha formação.
Foi lá que me tornei médico.
Foi também lá que me casei com a mãe dos meus filhos, antes de regressar para exercer a profissão em minha cidade natal.
Divido a minha permanência no Rio em três períodos: a conclusão do segundo grau no Colégio Anglo Americano e o curso preparatório para o vestibular; os seis anos da Faculdade de Medicina; e um terceiro período enfrentando concursos e trabalhando em hospitais.
Cada etapa trouxe um novo aprendizado.
Nunca adoeci.
Lembro-me do meu primeiro mergulho nas águas salgadas da praia de Copacabana —curioso, mas sem grande emoção.
O que realmente me impressionou foi o movimento das ruas do centro, especialmente da elegante rua do Ouvidor.
Mas nunca esqueci a sensação daquele primeiro dia.
Era o começo de uma longa travessia de vida.
E toda travessia começa assim: com um jovem do interior chegando a uma cidade imensa — e sem saber que ali começava o seu destino.
Gabriel Novis Neves
05-03-2026
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