terça-feira, 24 de março de 2026

OS LIVROS MAIS PESADOS


Entre os muitos objetos que acompanharam meus anos de faculdade no Rio, nenhum era tão marcante quanto os grandes livros de Medicina.

 

Eram volumes enormes, pesados, muitas vezes importados, que carregávamos de um lado para outro como verdadeiros tesouros.

 

Lembro-me de abrir aquelas páginas repletas de ilustrações anatômicas e textos densos, tentando decifrar os segredos do corpo humano.

 

Cada capítulo exigia paciência, disciplina e uma certa reverência.

 

Mais do que livros, eram companheiros silenciosos de uma juventude entregue ao estudo.

 

O livro de Anatomia, além de pesado, vinha em dois volumes enormes e era escrito em castelhano.

 

De tanto manuseá-lo suas páginas ficavam ensebadas, marcadas pelo uso constante.

 

Guardei todos os livros que utilizei na faculdade; hoje repousam na biblioteca da minha casa como testemunhas de um tempo que não volta.

 

Tenho um filho e uma neta médicos, de outras gerações.

 

Estudaram pela internet, imprimindo apenas o que lhes interessava.

 

Parece que essa nova forma de relação com o conhecimento científico tem dado certo.

 

Baixam os livras indicados em PDF, nos seus computadores ou celulares.

 

Selecionam os capítulos, imprimem o necessário, estudam com foco e objetividade.

 

Assim se preparam para provas e concursos, com êxito.

 

Minha neta, ginecologista e obstetra, carrega no celular volumes inteiros da sua especialidade.

 

Na sala de espera, suas pacientes também chegam informadas, muitas vezes munidas de aplicativos e dúvidas bem formuladas.

 

E o que dizer das consultas à distância?

 

Eu mesmo já me consultei por vídeo, com médicos em São Paulo e nos Estados Unidos.

 

Fico a pensar: como estará a Semiologia nos dias atuais?

 

O exame físico terá perdido espaço diante das telas?

 

Não tenho dúvidas de que os médicos de hoje dispõem de mais conhecimento científico que os de antigamente.

 

As especialidades e subespecialidades fragmentaram o saber de tal forma que já não existem mais, como antes, o clínico ou o cirurgião geral que acompanhavam toda uma família.

 

Esse médico eu conheci apenas na infância.

 

Naquele tempo, havia menos de dez faculdades de Medicina no Brasil.

 

Hoje, são centenas.

 

Em Mato Grosso, multiplicam-se pelas cidades.

 

E, ainda assim, faltam médicos.

 

No fim das contas, talvez o livro mais pesado não fosse o de Anatomia.

 

Era o peso da responsabilidade que começava a ser aprendido em cada página virada.

 

Gabriel Novis Neves

18-03-2026




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