Experimentei uma roupa antiga.
Não serviu.
Ri sozinho diante da constatação.
O corpo muda, a vida muda, e o armário precisa acompanhar.
Há coisas que deixam de caber — e não apenas no corpo.
Chamei meu irmão caçula e afilhado, muito parecido comigo, apenas quinze anos mais novo.
Abri o guarda-roupas para que escolhesse as camisas que já não me serviam.
Fiquei deitado na cama enquanto ele fazia a seleção.
Trouxe cerca de vinte camisas, quase sem uso.
A cuidadora, que o ajudava, dobrou cada uma com carinho e colocou tudo num grande sacolão de plástico.
Sorridente, disse que em casa provaria as camisas diante da esposa, para o julgamento final.
Mais tarde, satisfeito com a escolha, ligou por vídeo para mostrar a camisa que usará na festa dos oitenta anos da irmã e do cunhado.
Aquela, creio, nem cheguei a estrear.
Há quase oito anos, sem sair praticamente de casa, meu uniforme passou a ser simples: calção e camiseta.
Natal, aniversários, Dia dos Pais, do avô, do bisavô —e até lembranças de viagens — sempre chegam em forma de camisas novas.
Já daria para abrir um pequeno brechó com o que permanece guardado sem uso.
Guardar roupa sem vestir é uma forma silenciosa de desperdiço.
De tempos em tempos faço o que fiz naquele dia: reparto o excesso.
Quando meu irmão saiu carregando o sacolão, senti um alivio inesperado, como se tivesse retirado um peso das costas.
Lembrei-me então da velha mala de papelão, reforçada por tiras de madeira, com a qual viajei para o Rio de Janeiro para estudar Medicina.
Dentro dela cabiam apenas meia dúzia de camisas e duas calças.
E, curiosamente, foi quando tinha menos roupas que me senti mais leve para viver.
Porque, no fim, não são as roupas que nos servem — somos nós que aprendemos a caber na vida que ficou.
Gabriel Novis Neves
23-02-2026
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