quinta-feira, 5 de março de 2026

ROUPAS QUE NÃO SERVEM MAIS


Experimentei uma roupa antiga.

 

Não serviu.

 

Ri sozinho diante da constatação.

 

O corpo muda, a vida muda, e o armário precisa acompanhar.

 

Há coisas que deixam de caber — e não apenas no corpo.

 

Chamei meu irmão caçula e afilhado, muito parecido comigo, apenas quinze anos mais novo.

 

Abri o guarda-roupas para que escolhesse as camisas que já não me serviam.

 

Fiquei deitado na cama enquanto ele fazia a seleção.

 

Trouxe cerca de vinte camisas, quase sem uso.

 

A cuidadora, que o ajudava, dobrou cada uma com carinho e colocou tudo num grande sacolão de plástico.

 

Sorridente, disse que em casa provaria as camisas diante da esposa, para o julgamento final.

 

Mais tarde, satisfeito com a escolha, ligou por vídeo para mostrar a camisa que usará na festa dos oitenta anos da irmã e do cunhado.

 

Aquela, creio, nem cheguei a estrear.

 

Há quase oito anos, sem sair praticamente de casa, meu uniforme passou a ser simples: calção e camiseta.

 

Natal, aniversários, Dia dos Pais, do avô, do bisavô —e até lembranças de viagens — sempre chegam em forma de camisas novas.

 

Já daria para abrir um pequeno brechó com o que permanece guardado sem uso.

 

Guardar roupa sem vestir é uma forma silenciosa de desperdiço.

 

De tempos em tempos faço o que fiz naquele dia: reparto o excesso.

 

Quando meu irmão saiu carregando o sacolão, senti um alivio inesperado, como se tivesse retirado um peso das costas.

 

Lembrei-me então da velha mala de papelão, reforçada por tiras de madeira, com a qual viajei para o Rio de Janeiro para estudar Medicina.

 

Dentro dela cabiam apenas meia dúzia de camisas e duas calças.

 

E, curiosamente, foi quando tinha menos roupas que me senti mais leve para viver.

 

Porque, no fim, não são as roupas que nos servem — somos nós que aprendemos a caber na vida que ficou.

 

Gabriel Novis Neves

23-02-2026




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