sábado, 14 de março de 2026

A PRIMEIRA AULA DE ANATOMIA


A primeira aula de Anatomia causa impacto em qualquer estudante de Medicina.

 

Ao entrar no laboratório percebemos que a teoria finalmente se aproxima da realidade.

 

O respeito pelo corpo humano torna-se imediato e profundo.

 

Lembro do silêncio concentrado dos alunos e da atenção dedicada às explicações do professor.

 

Aquela aula não era apenas um aprendizado técnico; era também uma iniciação à responsabilidade da profissão.

 

Ali começávamos a compreender que a Medicina lida diretamente com o mistério da vida.

 

Álvaro Fróes da Fonseca era o professor catedrático de Anatomia, em 1955, na Faculdade Nacional de Medicina da Praia Vermelha.

 

Foi ele quem ministrou a aula inaugural para a minha turma — todos jovens de cabeça raspada e usando uma boina azul, símbolo de aprovação no vestibular.

 

O trote dos alunos veteranos consistia justamente em raspar a cabeça dos calouros com máquina de barbeiro número zero.

 

O professor Fróes era também antropólogo e mantinha estreita ligação com o Museu Nacional.

 

No meu tempo de estudante de Medicina os professores catedráticos — especialmente os dos primeiros anos — raramente estavam presentes nas aulas teóricas e práticas.

 

Viajavam constantemente para palestras, participavam de bancas examinadoras em universidades públicas e frequentavam congressos no exterior.

 

O professor Fróes coordenava pesquisas antropológicas no Museu Nacional, a convite do professor Roquete-Pinto.

 

Estudava a constituição anatômica e fisiológica da população brasileira, buscando estabelecer classificações raciais que interessavam à ciência da época.

 

Ficou inesquecida sua aula inaugural, quando comparou o tamanho do pênis em diferentes continentes.

 

Os calouros e calouras sorriram, provocando um discreto burburinho no auditório, o que o obrigou a tocar a pequena campainha sobre a mesa para restabelecer o silêncio.

 

Com a sala novamente sob controle, o professor — bem-humorado, como costumam ser os mais experientes — sorriu e disse aos alunos que não se preocupassem.

 

— Eles estavam no continente africano, bem distante da sala de aula.

 

A sala explodiu em gargalhadas e a aula foi encerrada.

 

Alguns colegas, curiosos sobre suas pesquisas antropológicas, aproximaram-se do professor para saber mais sobre o trabalho desenvolvido no Museu Nacional.

 

Anos depois convidei o professor José Carlos Prates, da Escola Paulista de Medicina para ministrar a aula inaugural de Anatomia da Universidade Federal de Mato Grosso.

 

O primeiro cadáver para estudo veio de São Paulo, em 1980.

 

Ali, mais uma vez, começava para outros jovens o mesmo encontro solene com o corpo humano — e com o início da Medicina.

 

Gabriel Novis Neves

11-03-2026


A Lição de Anatomia do Dr. Tulp
(De Anatomische les van Dr. Nicolaes Tulp)  pintura a óleo sobre tela de REMBRANDT, em 1632.


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