A faculdade de Medicina também foi um lugar de amizades profundas.
Entre provas difíceis, noites de estudo e momentos de descontração, formavam-se laços que ultrapassavam o ambiente acadêmico.
Compartilhávamos livros, preocupações e sonhos profissionais.
Cada colega trazia uma história diferente, vinda de diversas regiões do país.
A convivência ampliava nosso olhar sobre o Brasil e sobre as pessoas.
Até hoje guardo lembranças vivas daqueles companheiros de jornada.
Passados sessenta e quatro anos da colação de grau, de uma turma com mais de duzentos médicos, mantenho contato com apenas três: dois no Rio de Janeiro e um em São Paulo.
Os dois colegas cuiabanos já partiram.
Evito lembrar daqueles companheiros que nos deixaram cedo demais.
O longevo que ultrapassa os noventa anos chega a um momento da vida em que já não tem com quem conversar longamente, trocar ideias ou simplesmente sentar nas cadeiras de balanço da antiga sala de visitas.
Da minha turma, dois se dedicaram à pesquisa no Instituto de Manguinhos, no Rio de Janeiro.
Outros se espalharam por todo o território brasileiro.
Alguns se entregaram ao ensino universitário, como eu; outros tiveram sucesso na clínica privada ou na saúde pública.
Também houve aqueles que abandonaram a Medicina em busca de atividades mais rentáveis.
Como éramos muitos alunos, os grupos se formavam naturalmente.
Havia o grupo do CPOR — Centro de Preparações de Oficiais da Reserva.
Era muito unido.
Nos acampamentos de Gericinó dividíamos barracas e sanitários.
Outro grupo vinha dos hospitais do Estado, ocupando os dias da semana em plantões.
Nunca tivemos o pessoal da praia, mas havia o grupo do cinema e do teatro.
Depois de seis anos tudo se dissolveu.
Naquela época não existia telefonia móvel, que hoje encurta distâncias e aproxima as pessoas.
Talvez hoje tivéssemos criado um grupo chamado ‘Medicina 1960’ no celular — e continuaríamos juntos.
Para os três colegas que ainda restam da turma de sessenta, envio todos os dias um bom-dia, acompanhado de uma crônica minha e uma flor do meu jardim.
Quase nunca respondem.
De vez em quando recebo uma mensagem do Rio.
O de São Paulo às vezes me liga.
O terceiro está com Alzheimer.
Assim seguem os amigos da faculdade.
Na memória, porém, continuamos todos jovens.
Gabriel Novis Neves
11-03-2026
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