Criar uma senha parece um gesto simples.
O problema começa depois, quando ela insiste em ser lembrada.
A senha não tem rosto nem barulho.
Não avisa que chegou, não pede licença.
Apenas surge na tela, exigente, fria, impessoal: digite sua senha.
Digito.
Erro.
A máquina não se comove.
Não quer saber que acordei cedo, se a letra está trêmula ou se a memória anda fazendo pausas.
Ela só aceita acertos.
O resto é exclusão temporária do mundo.
Antigamente, bastava dizer o nome.
Às vezes nem isso.
Todos se conheciam.
A porta abria, a conversa começava e ninguém perguntava por códigos secretos.
Hoje, para entrar no banco, no telefone no e-mail ou até na própria fotografia, é preciso provar que ainda somos nós.
E a prova é uma sequência de números, letras maiúsculas, sinais e confirmações repetidas.
Tenho tantas senhas que já não sei qual é de quê.
São parecidas, quase irmãs, mas não idênticas.
Se errar uma letra, tudo desaba.
O mais curioso é que a senha fui eu quem criou.
E esquecê-la é como não reconhecer a própria caligrafia ou estranhar o próprio reflexo no espelho.
Quando erro duas vezes, sou advertido.
Quando erro mais uma, sou bloqueado.
Fico do lado de fora, olhando para a tela como quem encara uma porta fechada, sem campainha e sem chave reserva.
Depois de algum esforço, consigo recuperar o acesso.
A vitória é pequena, mas reconfortante.
Sorrio sozinho, como quem reencontra um objeto perdido.
No fundo, a senha me ensina algo simples: envelhecer é reaprender a conviver com o esquecimento — e aceitar que nem tudo o que é importante cabe na memória.
Gabriel Novis Neves
10-12-2025
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