sexta-feira, 6 de março de 2026

SENHAS NA MEMÓRIA


Criar uma senha parece um gesto simples.

 

O problema começa depois, quando ela insiste em ser lembrada.

 

A senha não tem rosto nem barulho.

 

Não avisa que chegou, não pede licença.

 

Apenas surge na tela, exigente, fria, impessoal: digite sua senha.

 

Digito.

 

Erro.

 

A máquina não se comove.

 

Não quer saber que acordei cedo, se a letra está trêmula ou se a memória anda fazendo pausas.

 

Ela só aceita acertos.

 

O resto é exclusão temporária do mundo.

 

Antigamente, bastava dizer o nome.

 

Às vezes nem isso.

 

Todos se conheciam.

 

A porta abria, a conversa começava e ninguém perguntava por códigos secretos.

 

Hoje, para entrar no banco, no telefone no e-mail ou até na própria fotografia, é preciso provar que ainda somos nós.

 

E a prova é uma sequência de números, letras maiúsculas, sinais e confirmações repetidas.

 

Tenho tantas senhas que já não sei qual é de quê.

 

São parecidas, quase irmãs, mas não idênticas.

 

Se errar uma letra, tudo desaba.

 

O mais curioso é que a senha fui eu quem criou.

 

E esquecê-la é como não reconhecer a própria caligrafia ou estranhar o próprio reflexo no espelho.

 

Quando erro duas vezes, sou advertido.

 

Quando erro mais uma, sou bloqueado.

 

Fico do lado de fora, olhando para a tela como quem encara uma porta fechada, sem campainha e sem chave reserva.

 

Depois de algum esforço, consigo recuperar o acesso.

 

A vitória é pequena, mas reconfortante.

 

Sorrio sozinho, como quem reencontra um objeto perdido.

 

No fundo, a senha me ensina algo simples: envelhecer é reaprender a conviver com o esquecimento — e aceitar que nem tudo o que é importante cabe na memória.

 

Gabriel Novis Neves

10-12-2025




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