sábado, 21 de março de 2026

O PRIMEIRO ESTETOSCÓPIO


Entre todos os instrumentos da Medicina, o estetoscópio sempre me pareceu um símbolo especial da profissão.

 

Recordo com nitidez o dia em que tive o meu primeiro.

 

Era simples, mas, para mim, representava algo grandioso.

 

Segurá-lo nas mãos era como receber um pequeno sinal de que o caminho escolhido começava a se tornar real.

 

Naquele instante compreendi que a Medicina deixava de ser apenas teoria dos livros e passava a se aproximar da prática.

 

Entrava na enfermaria da Santa Casa com ele pendurado no pescoço, auscultando pulmões, coração e abdome.

 

Com o tempo, aprendi a reconhecer estertores nas bases pulmonares, sopros cardíacos e o ritmo do peristaltismo intestinal.

 

Ia ao hospital nos momentos de menor movimento — domingos pela manhã, por exemplo.

 

Levava um pequeno presente ao paciente, geralmente um pacote de biscoitos e permanecia ali por horas, repetindo com paciência: inspire profundamente, prenda a respiração, e expire.

 

Medicina se aprende assim: na prática, pela repetição.

 

O estetoscópio foi inventado por um médico francês no século dezenove, evitando o constrangimento do médico ter que colocar o ouvido diretamente no corpo do paciente.

 

Na minha infância muitos médicos ainda utilizavam uma pequena toalha branca de linho para esse fim — fina, discreta, sempre presente em suas maletas.

 

Comprei meu primeiro estetoscópio, um BIC, no segundo ano do curso.

 

Tivemos excelentes professores e assistentes, que nos orientavam à beira do leito dos internados.

 

O catedrático de cardiologia, Edgard Magalhães Gomes, ainda usava sua toalhinha.

 

E os pacientes — então chamados de indigentes — colaboravam com generosidade.

 

Raramente recusavam um estudante; ofereciam seus corpos ao aprendizado, com uma dignidade silenciosa.

 

Hoje, poucos médicos dependem do estetoscópio.

 

Em seu lugar, há laptops, exames laboratoriais e imagens.

 

A Medicina, muitas vezes, se exerce à distância.

 

Mas aprende-se Medicina junto ao enfermo: ouvindo, tocando, examinando.

 

A tecnologia aperfeiçoa — a presença do médico, porém, continua insubstituível.

 

Gabriel Novis Neves

20-03-2026




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