A biblioteca da Faculdade de Medicina era um verdadeiro refúgio de concentração.
Entre estantes altas e mesas silenciosas, os estudantes mergulhavam em livros que pareciam guardar os segredos do corpo humano.
Passava horas ali consultando atlas de anatomia e textos médicos complexos.
O silêncio era tão profundo que o simples virar de uma página parecia um acontecimento sonoro.
Hoje percebo que aquelas horas de estudo silencioso ajudaram a formar não apenas o médico, mas também o homem paciente diante do conhecimento.
A biblioteca da Faculdade de Medicina da Praia Vermelha ocupava toda a parte superior do belo prédio que, anos depois, seria vendido e demolido.
A faculdade havia se transferido para a Cidade Universitária da Ilha do Fundão.
Tentei várias vezes estudar naquela biblioteca, que reunia mais de cem mil livros e revistas especializadas.
Foi ali que floresceu parte da moderna medicina brasileira, fortemente influenciada pelo humanismo da escola francesa.
Mas a verdade é que nunca consegui estudar em bibliotecas.
Aprendi a estudar lendo em voz alta, método que facilita decorar um texto —embora nem sempre ajude a compreendê-lo.
E aquilo que apenas se decora costuma desaparecer da memória com a mesma rapidez.
Tive colegas que liam em voz alta e, numa única tarde conseguiam memorizar páginas inteiras das apostilas do cursinho do vestibular.
Até a matemática do segundo grau era, muitas vezes, decorada.
Grandes cientistas brasileiros, como Carlos Chagas Filho — que chegou a ser consultor médico do Papa — estudaram naquela biblioteca que jamais deveria ter sido demolida.
Perdemos ali um dos marcos da ciência médica em nosso país, vítima da miopia das decisões governamentais.
Quantas vezes tentei me concentrar naquele silêncio absoluto!
Era difícil para quem vinha de uma geração acostumada mais a decorar do que a compreender — hábito facilmente observado nas pensões de estudantes cuiabanos no bairro do Catete.
Curiosamente, um dos projetos arquitetônicos mais belos do nosso câmpus da Universidade Federal de Mato Grosso, em Cuiabá, é justamente o da biblioteca.
Talvez porque a beleza também ensine.
E porque os livros, silenciosamente, continuam humanizando o homem.
Gabriel Novis Neves
10-03-2026
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