Percebi que meu passo ficou mais curto.
Não foi de um dia para o outro.
Apenas aconteceu.
Continuo chegando aos mesmos lugares, mas levo mais tempo.
Aprendi que a pressa já não me serve como antes.
Assim é o envelhecer, tão estudado nos tempos atuais!
Muitos insistem em tratá-lo como doença. Engano.
Envelhecer é prova de resistência.
Só envelhece quem teve saúde suficiente para sustentar a longa caminhada.
Os mais frágeis ficam pelo caminho da vida.
Com o passo mais curto, compreendo que meu aparelho locomotor trabalhou muito.
Agora exige paciência — não heroísmo.
Em compensação, o cérebro segue desperto, com memória de guri.
Recordo fatos antigos e recentes com nitidez, o que facilita meu ofício de escrever, sentado e sem pressa.
Quando o passo encurtou, abdiquei das longas caminhadas diárias.
Também das academias, das clínicas de fisioterapia com seus exercícios doloridos e dos consultórios ortopédicos.
As infiltrações nos joelhos foram trocadas por um braço amigo nas caminhadas breves.
Tudo segue a genética de meu pai: vida longa e passo curto.
No tempo dele não havia fisioterapeuta —havia o massagista do time de futebol, e aquilo era sofrimento.
Descobri que, ficando em casa, não sinto falta de sair.
Saio apenas uma vez por mês.
Deixo o quarto em cadeira de rodas, por comodidade.
Na garagem, o motorista e a cuidadora me acompanham até o hospital, onde recebo a infusão de imunoglobulinas.
Não frequento a casa dos filhos e netos.
Meus passos curtos bastam para ir de um cômodo a outro do apartamento, sempre apoiado no braço amigo da cuidadora.
Em breve, sairei para representar minha esposa, falecida há vinte anos, na inauguração de uma ala com seu nome no novo Hospital Central de Cuiabá.
Ficar lúcido em casa — repito — é sinal de saúde.
O passo pode ter encurtado.
Mas a consciência continua caminhando longe.
Gabriel Novis Neves
27-02-2026
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