Encontrei um recibo antigo no bolso do paletó.
O papel estava amassado, quase ilegível.
Não lembrava da compra, nem do dia exato.
Ainda assim, fiquei segurando aquele pequeno registro de algo que já passou.
Há documentos que comprovam despesas.
Outros apenas confirmam que estivemos vivos naquele instante.
Vasculhar bolsos de calças e paletós no guarda-roupas é sempre uma pequena escavação arqueológica.
Aparecem listas de medicamentos, comprovantes da Mega-Sena, recibos do condomínio.
Nada me recordava aqueles papéis.
Como o cérebro decide o que guardar e o que apagar?
Ao menos sei que, nas datas impressas ali, eu estava vivo.
Também guardo bilhetes em gavetas.
De alguns lembro o assunto; de outros, apenas a caligrafia.
Faltam-me os encontros, sobram os papéis.
Exerci a Medicina no tempo anterior aos computadores.
Cada paciente tinha seu prontuário em ficha de papel, com a história clínica cuidadosamente anotada.
Ao me aposentar, trouxe milhares deles para a biblioteca.
Estão guardados em armários, sem ordem rigorosa.
Sei que ali repousam histórias de vida —mas já não consigo localizá-las quando preciso.
Quando eu partir, deverão ser incineradas.
Dias atrás encontrei uma folha antiga onde anotei coincidências ligadas ao 31 de março de 1964.
O último Ministro do Exército do Presidente Jango Goulart fora o General Ladário Pereira Teles, Comandante do CPOR do Rio quando eu era aluno.
Recordei-me de um episódio: chovia, havia uma poça de água enorme na saída do quartel.
Desviei para não molhar os tênis.
O general observava.
Mandou-nos voltar e atravessar a água, chamando-nos com ironia, de ‘alunos da Ana Neri’.
Aprendi ali que disciplina não contorna poças.
Outra coincidência: o último Ministro da Aeronáutica de Jango foi o cuiabano Brigadeiro Anísio Botelho, irmão de Anco Botelho, casado com a minha tia Alba.
Parte da sua Fazenda Três Marias foi vendida ao Presidente.
Por causa de uma indisposição intestinal da primeira-dama, no aeroporto de Cuiabá, construiu-se o que viria a ser o Aeroporto Internacional de Cuiabá—Várzea-Grande
— que já teve outro nome antes de se tornar Marechal Rondon.
Assim são as coincidências.
Às vezes começam como um simples recibo esquecido no bolso — e terminam lembrando que a vida também se escreve em papéis amassados.
Gabriel Novis Neves
31-03-2026
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.